O DESPERTAR DE VENTINHO (Parte 4)

Na manhã seguinte, Ventinho iniciou a caminhada, acompanhado de Marronzinho, que o seguia voando próximo ao chão.

Pernas pequenas, passos minúsculos… A busca parecia interminável!… Marronzinho já estava prestes a desistir e a abandonar Ventinho, quando finalmente adentraram a misteriosa caverna onde residia o venerado dragão. Eis o que o dragão disse a Ventinho:

– Poupe suas palavras… O coração materializado em seu peito convenceu-me a ajudá-lo. Volte para o lugar de onde veio e encontre a passagem para o interior da pedra.

Ventinho aventurou-se a perguntar:

– A que pedra se refere?

O dragão respondeu apenas:

– Você terá que descobrir sozinho.

Fim da 4ª Parte.

 

(UM PRESENTINHO PARA VOCÊ: a antecipação da 5ª e Última Parte.)

O DESPERTAR DE VENTINHO (Parte 5)

Durante todo o caminho de volta, o coração de Ventinho ruminava as palavras do sábio dragão. Ele não descansaria enquanto não tivesse encontrado a pedra e, consequentemente, a porta que dava para o seu interior.

Mas as pedras ao redor do riacho eram tantas!… E se assemelhavam muito umas às outras!… Era inacreditável que uma delas pudesse se tornar vulnerável!

Ventinho, depois de acariciar as pedras, dançar ao seu redor e dizer as palavras que lhe pareciam mágicas; começou a perder a esperança. Certo dia, Manchinha Verde o surpreendeu a esmurrá-las. Disse-lhe em tom de compaixão:

– Revoltar-se não adianta! Se ouvisse o meu conselho, já teria desistido. Não percebe que vencer nesse jogo é o mesmo que perder?!… Se conseguir se tornar humano, só haverá um modo de se livrar da solidez da forma: terá que morrer… E morrer significa recomeçar, aprender tudo de novo… Se é que alguma vez conseguimos compreender a razão de tudo isso…

Manchinha Verde calou-se no momento em que ouviu Ventinho dizer:

– Guarde sua filosofia para si mesmo!… Alvorada está se aproximando.

Escondido por entre a vegetação, Ventinho pôs-se a observar todos os movimentos de sua amada. Exatamente como da primeira vez em que a viu, Alvorada debruçou-se sobre a pedra, só que dessa vez começou a chorar.

Para espanto de Ventinho e de Manchinha Verde, que flutuava sobre a superfície do riacho, a pedra sobre a qual a jovem chorava começou a ganhar uma nova coloração à medida que suas lágrimas a banhavam. Era isso… Tinha que ser!… Uma faixa vertical, larga e alaranjada formou-se na pedra, e Ventinho compreendeu que aquela era a passagem.

Evitando ser visto, ele se aproximou, tocou a pedra e conseguiu atravessá-la, aumentando de tamanho enquanto o fazia e, finalizando por instalar-se em seu interior. Nesse momento, a pedra toda havia adquirido a coloração alaranjada; e, ao se tornar transparente, revelou o sono tranquilo de quem renunciara a tudo por amor.

Ao vislumbrar o rosto de Ventinho, Alvorada pensou que ele fosse um príncipe enfeitiçado por algum ser da floresta. Ela correu ao palácio e ordenou que a pedra fosse transportada cuidadosamente para o seu jardim. Esforços não foram poupados para que o desejo da princesa pudesse ser atendido.

Não havia um só dia em que Alvorada não se sentasse à beira do lago em seu jardim, para contemplar o seu príncipe aprisionado na misteriosa pedra. Os seus olhos alegravam-se ao vê-lo, e o seu coração nunca mais conheceu a tristeza. Certo dia, levada por um sentimento irresistível, a princesa beijou a pedra como se estivesse beijando os lábios de seu formoso príncipe. Foi desse modo que ocorreu o milagre: a solidez da pedra tornou a ceder à magia do amor, transformando-se em uma névoa refrescante e perfumada. Ventinho acordou de seu sonho de espera, e finalmente pode confessar e viver o seu amor.

FIM

 

(Gostou do presente?… Então, prepare-se para mais um presentinho: A 1ª Parte da história: “Serafim e a Bruxa Lindalva”.)

SERAFIM E A BRUXA LINDALVA (Parte 1)
Serafim e a Bruxa Lindalva

Lindalva, em sua casa construída entre a solidão e a aridez das montanhas, vivia a cantarolar: “Serafim nasceu pra mim; Serafim nasceu pra mim…”

Parecia estar apaixonada por Serafim; e, por essa razão, todos os dias, deixava sua casa para ir espiá-lo no trabalho.

Serafim, embora sentisse alguns arrepios repentinos e inexplicáveis, não poderia imaginar que era o alvo da atenção de uma bruxa. Enquanto arava a terra, o seu amor por Júlia germinava em seu coração e o fazia sonhar.

Seus companheiros de trabalho haviam-no aconselhado a esquecer Júlia, a filha do patrão, mas Serafim pareceu nem sequer ouvi-los. Pensava que o único problema real não era o fato de ser pobre, e sim a sua timidez. Sempre que Júlia aparecia, Serafim tirava o chapéu para cumprimentá-la; mas, em vez de continuar olhando para ela, fitava o chapéu e começava a torcer-lhe a aba. Quando tomava coragem de tornar a olhar em sua direção, ela já havia se retirado. O coração de Serafim suspirava: “Júlia!…”

No final do dia, quando Serafim se recolhia para o merecido descanso, era nas cordas de seu violão que melhor conseguia expressar o seu amor.

Júlia, por sua vez, sem que Serafim pudesse desconfiar, aguardava ansiosamente o momento de ouvi-lo tocar. Deixava sempre a janela de seu quarto um pouco aberta, para poder adormecer embalada pelo som de seu violão apaixonado.

Houve uma ocasião em que Serafim estava tão inspirado que começou a cantar. Júlia saiu à sacada na esperança de vê-lo, mas ao se lembrar de que Serafim, tímido como era, jamais se atreveria a fazer-lhe uma serenata, ela voltou para o quarto, entristecida.

O tempo ia passando, e o amor de Serafim por Júlia cresceu tanto que conseguiu vencer a timidez daninha. Serafim revestiu-se de coragem, e foi falar com o pai de Júlia, para pedi-la em casamento.

Justino, que já suspeitava que a filha estivesse apaixonada pelo empregado, resolveu aceitá-lo por genro. E, assim, Serafim e Júlia começaram a namorar.

Quando Lindalva se deu conta de que começava a perder Serafim para Júlia, revoltou-se. E, quem se atrevesse a passar pelos arredores de sua casa, podia ouvi-la cantar: “Será o fim de Serafim; será o fim de Serafim…”

(Não perca, no próximo domingo, dia 09/06/13, a 2ª Parte da história “Serafim e a Bruxa Lindalva”.)

Até breve.

Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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