A PRESSA E A IMPACIÊNCIA DE NORBERTO

Era uma vez um homem que dizia: “Eu tenho pressa. Eu tenho pressa. Não posso esperar.” Mas a vida nem sempre trabalhava de acordo com a vontade de Norberto, e ele ficava muito nervoso quando era obrigado a esperar.

Norberto não tinha tempo a perder com nada. Pelo menos, era isso o que ele costumava dizer. A pressa e a impaciência o consumiam, e os amigos começaram a se afastar. “Quem precisa de amigos?!…” Era isso o que ele costumava exclamar.

O coração de Norberto era vazio, porque ele vivia dizendo que não tinha tempo para sonhar. Certo dia, algo muito estranho aconteceu. Era domingo, e ele, planejando a semana em sua mente, se impacientava, porque já tinha a certeza de que muito do que precisaria ser realizado teria que ser adiado, porque a ineficiência das pessoas sempre causava atrasos. De repente, ele se sentiu zonzo e cansado. Pensou em deitar-se, mas logo abandonou a ideia e voltou a repassar em sua mente os prováveis contratempos que poderiam surgir. A campainha tocou, e ele se levantou para atender à porta. Estava visivelmente irritado e já se preparava para dispensar a pessoa que ousara importuná-lo durante a elaboração de seu planejamento semanal, quando algo na mulher que o observava com o olhar frio e penetrante começou a incomodá-lo. Confuso, ele perguntou: ”Eu a conheço?”. A mulher vestida de negro respondeu: “Sim, embora seja esta a primeira vez que conversamos. Você já sentiu minha presença duas vezes, mas a sua agitação e a sua pressa acabaram adiando o nosso encontro.” Impacientando-se com a voz melodiosa e pausada da estranha mulher, ele sugeriu: “Por que não vai logo ao assunto?!… Eu estou muito ocupado.” A mulher perguntou: “Quando você terá tempo para mim?!…” Norberto sorriu encabulado antes de responder: “Por favor, não me leve a mal… Você é muito bonita e, se eu tivesse tempo para me apaixonar, certamente, escolheria alguém como você. Mas tempo é algo que eu não tenho. Eu ficaria muito agradecido se você não me procurasse mais.” A mulher calou-se e afastou-se sem demonstrar sentimento algum. Sua expressão enigmática preocupou Norberto apenas por um segundo. Ele pensou em beber uma xícara de café, mas viu isso como distração e, como ele não tolerava distrações, sentou-se e voltou a mergulhar em seus planos para a semana, que logo estaria batendo à sua porta.

Norberto, que não tinha tempo para nada, atualmente se queixa da imensidão de tempo que a vida lhe concedeu. Ele está com duzentos e trinta anos e, apesar de ainda gozar de boa saúde, ele sente que o seu tempo já passou. Agora ele tem tempo de sobra e lamenta o dia em que a morte bateu à sua porta, e ele pediu para que ela nunca mais o procurasse.

b carimbo 1

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
This entry was posted in HISTÓRIAS COMPLETAS. Bookmark the permalink.

Leave a Reply