VULCÂNIA, BEATRIZ E O JARDIM DE BORBOFLORES (Parte 2)

Borboflor Sisi Marques

Quando a rainha Beatriz chegou ao sombrio castelo da rainha Vulcânia, a rainha e seu filho a conduziram ao jardim onde as flores, em vez de pétalas, ostentavam as asas das borboletas capturadas. Para aumentar sua tristeza, a rainha Vulcânia sugeriu ironicamente: “Se desejar enfeitar seu quarto, poderá colher algumas borboflores e colocá-las em um vaso.” A rainha Beatriz limitou-se a perguntar: “O que deseja que eu faça?!…” A rainha Vulcânia respondeu; “Tudo. A partir de hoje, Malefício e eu não faremos mais nada, porque você está aqui para fazer tudo: cozinhar, limpar o castelo, cuidar de nossas roupas e nos servir prontamente quando a chamarmos. Se você cumprir a sua parte, eu cumprirei a minha: após um dia de trabalho sem lamentações, as borboletas de uma borboflor serão libertadas. No seu castelo, você possui criados que sentem prazer em servi-la, porque você é muito complacente. Aqui a situação é outra: sou exigente e não tolero negligências. Um criado que trabalhasse para mim não poderia ser bom, teria que ser perfeito. Como isso não existe, prefiro realizar as tarefas utilizando magia a ficar abrigando sob o meu teto um bando de criaturas resmungonas e imprestáveis. Agora vá, porque já tomou muito do meu tempo. Malefício estabelecerá a rotina que deve ser seguida e lhe mostrará o seu quarto.” Após receber as orientações que Malefício transmitiu-lhe, a rainha Beatriz sentiu-se aliviada quando ele a deixou em frente à porta do quarto que ela deveria ocupar.

Os dias passavam vagarosamente, e Beatriz começou a perceber que a rainha Vulcânia, no mesmo instante em que libertava as borboletas, tornava a aprisioná-las, criando com elas uma nova borboflor. Beatriz só não havia caído nas garras da desesperança, porque Malefício começara a ajudá-la nas tarefas. Certo dia, ela se encorajou a perguntar a ele: “Por que você utiliza a sua magia para minimizar o meu sofrimento?! Talvez já tenha percebido que sua mãe mentiu quando disse que libertaria as borboletas.” Ele respondeu: “Eu não estou surpreso, porque a minha mãe nunca cumpre o que promete. Se dependesse de mim, eu já teria abandonado este castelo há muito tempo. Mas existe entre nós um acordo que é selado por uma poção que só pode ser feita uma única vez. Essa poção foi dividida em dois frascos e é ela quem garante a nossa lealdade. Minha mãe possui um frasco, e o outro está aqui. Você precisa confiar em mim… Beba a poção e você se transformará naquilo que mais teme. Não precisa ter receio porque o encantamento se desfará em poucas horas. Se pretende fugir, beba a poção agora. E não se preocupe com as borboflores, porque eu encontrarei um meio de libertar as borboletas e extinguir esse jardim.”

Malefício surpreendeu-se com a facilidade que teve em convencer Beatriz a ingerir a poção. Ele imaginou que ela fosse assumir a aparência de sua mãe, mas se decepcionou quando teve a impressão de estar vendo o seu próprio reflexo em um espelho. Transtornado, ele confessou: “Não é a mim que você deve temer, porque eu te amo. Mas você jamais poderia retribuir esse amor, porque me julga sem me conhecer. Embora o meu amor seja puro e cristalino, aos seus olhos ele será sempre maculado pela maldade que transborda do coração da minha mãe.”

Igualmente confusa, Beatriz não reconheceu sua própria voz quando disse: “Eu também não compreendo o motivo de ter assumido a sua aparência. Agora é você quem precisa acreditar em mim: eu também te amo. Eu me apaixonei por você desde o primeiro instante em que os nossos olhos se encontraram.”

Profundamente magoado, Malefíco exclamou: “Mentirosa!… Mentirosa!… Mentirosa!…. Eu odeio você e te amaldiçoo!… Você tem razão: eu sou ainda mais perverso do que minha mãe, e você deve estar sentindo isso em sua própria pele porque, neste momento em que você está sob o poder do encantamento, somos um só. Não importa o que eu sinta, não importa o que eu faça, eu serei sempre filho de Vulcânia!… Pare de tremer e vá, eu ordeno!… Neste momento, o seu corpo é uma extensão do meu; o seu pensamento é uma extensão do meu; e a minha magia lhe pertence. Não perca tempo: feche os olhos e deseje estar, em segurança, em seu castelo.”

A rainha Beatriz contemplou os olhos tristes e lacrimosos do príncipe Malefício. Depois, fechou os olhos e desapareceu. No mesmo instante, a rainha Vulcânica, usando sua magia, apareceu na sala e afirmou: “Você agiu bem… Apesar de ter me traído, você agiu bem ao expulsá-la. Libertaremos as borboletas para garantir que a rainha Beatriz não tenha mais motivos para retornar a este reino. Agora suba para o seu quarto e descanse, porque você está em péssimo estado. Homens não choram… E especialmente o meu filho não deveria chorar. Onde está o seu olhar flamejante?!… Só o que vejo é o rosto de um bobalhão apaixonado!… Eu nunca deveria ter trazido aquela garota para cá!… Ela destruiu em dias o que eu levei anos para construir. Agora suba!… Não me desobedeça.”

Malefício sentia-se triste e vulnerável. Beatriz mal havia partido, e ele já sentia uma saudade que o dilacerava. Em vez de ir para o seu quarto, ele se dirigiu ao laboratório. Ele começou a revirar tudo… Ele sabia que em algum lugar deveria estar uma poção do amor. Se ele a ingerisse, ele poderia adquirir a aparência de Beatriz por algumas horas e poderia desvendar os segredos que havia em seu coração. A poção do amor, ele não conseguiu localizar. Mas surpreendeu-se quando encontrou, em um armário velho que não era usado há anos, um vidro semelhante ao que ele entregara a Beatriz. Sem hesitar, ele abriu o vidro e ingeriu a poção.

Malefício sorriu ao compreender o que havia acontecido. Ele deixou o laboratório e caminhou em direção ao seu quarto. Ao entrar no quarto, ele olhou em um espelho de parede e contemplou o vulto e o porte altivo e soberbo de sua mãe. Vulcânia trocara os frascos porque sabia que ele tencionava traí-la. Beatriz realmente o amava porque, ao ingerir a poção do amor, em vez de ter se transformado em uma flor, em uma borboleta, ou, até mesmo, em outro rapaz, ela havia adquirido a aparência dele.

Com o coração repleto de esperança, Malefício fechou os olhos e, quando tornou a abri-los, estava diante do jardim de borboflores. A poção, que o transformou naquilo que ele mais temia, ou seja, sua mãe, ampliou a força de sua magia e permitiu que ele desfizesse permanentemente o encanto que prendia as borboletas. No jardim de borboflores, restaram apenas os caules sem vida. Ele fechou os olhos novamente… Mas, dessa vez, desejou partir para o lugar onde morava a sua felicidade.

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About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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