ÁQUILA, O GÊNIO DO MEDALHÃO (Capítulo V)

Na manhã seguinte, Aurélio levantou-se bem cedo e saiu para nadar no lago. Lutava consigo mesmo para serenar a mente e manter-se calmo.

Quando deixou o lago e voltou para casa, fez a refeição costumeira e começou a aprontar-se para o torneio. Foi só nesse instante que pôde sentir a paz reflorescer em seu coração.

Contrastando com a serenidade que brotara no peito de Aurélio, o pátio do palácio estava em completo alvoroço. Eram cavaleiros que chegavam para os treinos que antecediam as provas; eram damas e cavalheiros que subiam às arquibancadas, especialmente construídas para aquele evento; era o vozerio inflamado das pessoas simples do povo, que se aglomeravam escoradas às grades dos portões do palácio.

Camarotes luxuosos também foram construídos; e, de um deles, a princesa Miranda, acompanhada de seu pai: o rei Belmiro, aguardava ansiosa a chegada de Aurélio.

Quando Aurélio chegou, montado em Respiro, as trombetas soaram para avisar a todos que havia mais um cavaleiro disposto a participar do torneio. Sem hesitar, a princesa pediu ao rei Belmiro permissão para entregar uma rosa ao cavaleiro que ela gostaria que vencesse.

Imaginando que a filha fosse entregar a flor a Torquato, o rei consentiu. Entretanto, ao vê-la dirigir-se a um estranho, teve receio de que ele fosse o vendedor de laranjas sobre o qual ela tentara lhe falar diversas vezes. O povo encarregou-se de confirmar suas suspeitas, quando, reconhecendo Aurélio entre os cavaleiros, começou a aclamá-lo.

Embora o rei Belmiro desejasse a vitória de Torquato, resolveu conceder a Aurélio uma posição de destaque, apenas com o intuito de tornar o acontecimento ainda mais empolgante. Para certificar-se de que o confronto entre os dois dar-se-ia apenas no final, mandou dividir os vinte e seis competidores em dois grupos, sendo que um deles teria Torquato iniciando a realização das provas, e o outro, separadamente, teria Aurélio.

Torquato, com a ajuda de Áquila, derrotou facilmente, prova a prova, os seus doze adversários; e ainda teve tempo de ficar observando o desempenho dos competidores do outro grupo.

Aurélio, por outro lado, como só contava com a experiência que havia adquirido em seu treinamento, estava quase chegando ao limite de sua capacidade física quando venceu o último cavaleiro do seu grupo.

Embora Torquato tivesse tido a oportunidade de verificar que Aurélio estava muito mais preparado do que ele, não se deixou intimidar, porque sabia que contaria novamente com a magia de Áquila.

A princesa Miranda, receando que o cansaço fosse coroar Aurélio com a derrota, pediu ao seu pai que desse a ele tempo para se refazer. O rei, que parecia muito impressionado com a atuação de Aurélio, declarou que haveria um intervalo de duas horas.

A multidão, ainda eufórica, enquanto aguardava o reinício da competição, fartava-se com a comida que o rei mandou servir.

Quanto aos cavaleiros desclassificados, apenas um deles retirou-se inconformado com sua derrota; os demais resolveram ficar para presenciar a última sessão de provas.

Para Aurélio, as duas horas que se passaram pareceram dois minutos. Logo, lá estava ele lado a lado com Torquato, para que os juízes do torneio pudessem verificar qual dos dois lançava a flecha mais certeira.

Aurélio, cauteloso, antes de disparar a flecha, concentrou-se e conseguiu recapitular tudo o que havia aprendido com os mestres, saindo-se muito bem. Torquato, entretanto, por excesso de confiança nos poderes de Áquila, descuidou-se e errou o alvo.

Surpreso e, ao mesmo tempo, radiante com sua inesperada vitória, Aurélio começou a suspeitar que Áquila desistira de ajudar Torquato a vencer.

Torquato teve o mesmo pressentimento. Ao pensar que talvez tivesse que vencer Aurélio na espada e na lança, sem a ajuda de Áquila, sentiu a inquietação avassalar-lhe o ânimo. Perguntava-se onde estaria aquele gênio tratante. Apertou o medalhão de encontro ao peito, para pressionar Áquila a correr em seu auxílio.

Aurélio, percebendo a insistência com que Torquato comprimia o medalhão, lembrou-se do que Áquila lhe dissera sobre o zunido ensurdecedor. Compadeceu-se do gênio e confidenciou a si mesmo que não o culparia se ele não conseguisse resistir ao chamado.

A próxima prova teve início, e Aurélio conseguiu demonstrar que era ainda mais habilidoso do que Torquato no manejo da espada.

Ferido em seu orgulho, Torquato subiu em seu cavalo para a última prova: a de lança. A revolta fazia o seu coração transbordar de ódio. Amaldiçoava o gênio que não cumprira o prometido. Amaldiçoava Aurélio por querer roubar-lhe a tão almejada oportunidade de tornar-se o sucessor ao trono. Quase que instintivamente, avançou sobre Aurélio, ferindo-o no ombro.

O procedimento desonroso de Torquato repercutiu no ânimo dos presentes que começaram a expressar sua desaprovação através de vaias.

Torquato, porém, parecia surdo à reprovação dos presentes e alheio ao fato de que o tiro que anunciava o início da prova ainda não havia sido disparado. Avançou novamente contra Aurélio; mas, dessa vez, a lança não o atingiu, porque ele conseguiu desviar-se.

Aurélio, de repente, viu-se diante de uma encruzilhada: aquela simples prova parecia ter se tornado uma luta mortal; não fora com essa finalidade que ele havia treinado.

Torquato, entretanto, não dava tempo a Aurélio para recuar. Após uma nova investida, parou em frente ao camarote do rei Belmiro e gritou:

– Majestade, o meu adversário não parece preparado para um combate mortal. Teria ele competência para sucedê-lo? Só quem é capaz de dar a sua vida por um ideal é que merece obtê-lo. Proponho que lutemos até a morte.

Aurélio, sem esperar pelo pronunciamento do rei, negou-se a aceitar o desafio, dizendo:

– O combinado foi uma luta limpa, sem trapaça, nem morte; e assim será. Embora eu não seja um cavaleiro juramentado, sigo o meu próprio código de honra.

Para provocar Aurélio e humilhá-lo perante o rei e os demais, Torquato exclamou:

– Sinto-me enojado! Jamais presenciei tamanha covardia!

Austero, Aurélio revidou:

– Isto é um simples torneio e não um campo de batalha. Não o quero mal e não tenho razões pessoais para desejar matá-lo.

Torquato, investindo contra Aurélio, bradou:

– Pois eu tenho razões de sobra para matar você.

Todos, inclusive o rei, sobressaltados, prenderam a respiração ao imaginar que Aurélio não seria hábil o suficiente para esquivar-se do traiçoeiro ataque.

Torquato, entretanto, ficou aterrorizado no momento em que, ao tocar o peito de Aurélio com a lança, esta se transformou num facho de luz azulada.

Áquila, aparecendo bem no centro do pátio, gritou para Torquato:

– Por que não o deixa em paz?! É em mim que você deve descarregar a sua ira; fui eu quem o traiu, não ele.

Torquato, voltando-se para o lugar onde Áquila se encontrava, vociferou:

– Traidor maldito! Você não serve para nada! Ordeno-lhe que sucumba ao veneno de uma serpente.

Áquila respondeu sereno:

– De repente, algo dentro de mim começou a gritar por justiça e esse grito soava mais alto do que o zunido do medalhão. Confesso que estou em paz com a minha consciência: Aurélio merecia vencer; eu não poderia ajudar você a derrotá-lo covardemente com a minha magia, como o ajudei contra os demais cavaleiros. Agora estou pronto para receber o castigo que a desobediência à servidão me reserva: que apareça a cobra que irá destruir-me.

Áquila mal havia terminado de pronunciar essas palavras quando, no lugar do medalhão, apareceu uma cobra verde. A cobra, porém, conservava-se enrolada ao pescoço de Torquato, que parecia ter sido levado ao auge do desespero. Quanto mais ele lutava para desvencilhar-se de sua perigosa adversária, mais aderente a seu pescoço ela se tornava e o teria picado, se Aurélio não a tivesse cortado ao meio com a sua espada.

No momento em que Aurélio atingiu a cobra, ela soltou-se do pescoço de Torquato; mas, ao tocar o chão, transformou-se novamente no medalhão. Ele estava partido em dois; e, como por encanto, desapareceu.

Áquila não conseguia acreditar no que os seus olhos acabavam de lhe mostrar; o desaparecimento do medalhão parecia significar que ele estava livre da servidão. Era a Aurélio que ele deveria agradecer, porque foi ele quem o ajudou a descobrir que também possuía uma direção interior.

Torquato, ainda desfigurado pelo medo da proximidade da morte, agradeceu a Aurélio por tê-lo livrado e deixou o pátio do palácio.

A multidão aclamava Aurélio e pedia a Áquila que contasse algumas de suas aventuras e demonstrasse alguns de seus poderes mágicos.

A partir daí, Áquila encarregou-se de entreter os presentes. Até parecia que era ele e não Aurélio o vencedor do torneio.

Quanto a Aurélio, só o que lhe interessava era poder aproximar-se da princesa Miranda. O rei consentiu que ele subisse ao camarote e anunciou que o casamento seria realizado dentro de cinco dias.

F I M

Grata,

Sisi Marques
25/01/2014

Que os seus sonhos se realizem!

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