ÁQUILA, O GÊNIO DO MEDALHÃO (Capítulo I)

Aurélio não era exatamente o que se poderia chamar de herói. Tudo o que sabia fazer era ajudar o seu pai a cuidar do extenso laranjal que circundava a humilde habitação de ambos. Quando a sua ajuda poderia ser dispensada, ele amarrava dois cestos no seu burrinho e, após abarrotá-los de laranjas, saía todo animado para vendê-las.

Contudo, devo mencionar que Aurélio não tinha lá muito jeito para o comércio. Embora conseguisse vender dúzias e dúzias de laranjas, o dinheiro que arrecadava era ínfimo. Como se isso não bastasse, Aurélio trazia em seu peito um coração de manteiga: mais dava laranjas do que vendia, e não era raro gastar em esmolas mais do que havia arrecadado.

Quando ele retornava ao lar, trazia sempre um sorriso tímido nos lábios. O pai costumava aguardá-lo, sentado à soleira, ansioso para contar-lhe uma de suas histórias de sabedoria.

Certo dia, porém, Aurélio pediu ao pai que, em vez de lhe contar uma história, lhe revelasse de onde vinha o dinheiro que tão generosamente lhes garantia a sobrevivência. Seu pai respondeu que lhe contaria quando chegasse a hora.

Meses e meses se passaram e nada de chegar o momento tão esperado de saber a verdade. Aurélio suspeitava que um grande mistério envolvesse o seu pai e o medalhão que ele jamais tirava do pescoço.

Foi com o pensamento fixo em seu pai e no estranho medalhão que, naquela manhã inesquecível, Aurélio encheu dois cestos e partiu assoviando, puxando o seu burrinho pela rédea.

Quando alcançou a estrada, os seus olhos se deliciaram com algo que ele jamais sonhou que um dia pudesse ver tão de perto: a carruagem da princesa Miranda. Era uma visão arrebatadora! A carruagem tinha a brancura e a leveza de uma nuvem e parecia flutuar, exatamente como flutuava o coração de Aurélio.

A carruagem havia passado tão próxima ao seu burrinho que, por pouco, não esbarrou em um dos cestos. O seu coração estancou de súbito quando a carruagem parou, e o cocheiro desceu para dizer-lhe:

– Aproxime-se, porque Sua Alteza deseja falar-lhe.

Aurélio, a passos lentos, venceu os três metros que o separavam da carruagem. A princesa, afastando a cortina de renda que a protegia dos olhares curiosos dos súditos de seu pai, entregou-lhe um saquinho de moedas e disse:

– Isto é pelas laranjas.

Aurélio, mais impressionado com a beleza graciosa da princesa do que com o peso do ouro, murmurou:

– É muito mais do que elas valem.

A princesa, procurando vencer o acanhamento que o inesperado encontro lhe causava, disse:

– É o suficiente para você comprar um cavalo, uma espada, uma lança, um arco, flechas e um traje de cavaleiro. Daqui a alguns meses haverá um torneio no palácio. Eu gostaria que você fosse o vencedor. O cocheiro não pode descobrir o verdadeiro motivo pelo qual mandei chamá-lo. Entregue-lhe rapidamente as laranjas e siga no seu burrinho, sem olhar para trás.

Aurélio obedeceu. Mil perguntas desabrochavam em seu cérebro. Contudo, ficou ainda mais perturbado quando, ao voltar para casa, não encontrou o seu pai. O medalhão estava sobre a mesa e, debaixo dele, havia um bilhete.

As perguntas entupiam-lhe a mente, comprimiam-lhe o coração. O raciocínio já não encontrava passagem, e a coragem de apanhar o bilhete também faltou. Ele deixou a casa e caminhou em direção ao lago, que ficava bem próximo. Era o seu refúgio, o seu paraíso terrestre. Sempre que alguma dúvida assaltava-lhe o espírito, era para lá que ele se dirigia.

Após algumas horas de contemplação silenciosa, embora ele não tivesse encontrado respostas, reencontrou a paz que tinha o dom de renovar-lhe o ânimo. Abandonou a sombra da árvore e agachou-se na borda do lago para banhar o rosto. A água do lago confundia-se com as suas lágrimas…

Quando Aurélio retornou, já estava começando a escurecer. Não sentia fome. Sentou-se à mesa com os olhos fixos no bilhete. Desejara tanto conhecer a verdade, e agora que ela tão pacientemente o aguardava para poder revelar-se, um pavor enorme assolava-lhe a curiosidade.

Lentamente puxou o bilhete sem tocar no medalhão. Através dele, o seu pai dizia: “Meu filho, você tem o direito de saber que não sou o seu verdadeiro pai. Você foi entregue aos meus cuidados quando ainda era um bebezinho, e eu o amei como se fosse meu. Não pense que estamos separados, porque isso não é verdade. Quando quiser encontrar-me, procure por mim em seu coração, que estarei sempre aguardando a oportunidade de recontar-lhe uma de minhas histórias. Quanto ao medalhão, guarde-o com muito cuidado e discrição, porque só assim você e ele estarão seguros. Não abrace a ostentação; mantenha-se sempre simples e sóbrio. Cuide-se bem.”

O pranto corria livre pelo rosto de Aurélio. Embora o medalhão não valesse mais do que uma dúzia de laranjas, Aurélio segurou-o como se fosse um fabuloso tesouro. Era a herança que o seu misterioso pai lhe deixara; o que bastava para torná-lo a joia mais preciosa da Terra. Após colocar a corrente no pescoço, ele segurou o medalhão prateado de encontro ao peito e fechou os olhos na esperança de rever mentalmente o rosto de seu pai. Entretanto, todo o esforço que fez foi em vão, porque a turbulência em sua mente não lhe permitia divisar coisa alguma. Abriu os olhos e quase morreu de pavor ao deparar-se com um homem gigantesco, de pele muito alva e olhos flamejantes.

Esforçando-se para manter-se calmo, Aurélio implorou:

– Não me mate! Lutar com você seria o mesmo que jogar-me de um penhasco. Pode parecer covardia, mas é apenas o desejo de continuar vivo que me obriga a ceder sem oferecer a menor resistência. Não sei como entrou aqui, mas pode sair levando tudo o que possuo, exceto este medalhão que trago ao pescoço.

O brutamontes, dando de ombros, exclamou:

– Era só o que me faltava: ser confundido com um ladrão! Se ainda não deu para perceber quem sou, vou ajudá-lo: sou o gênio do medalhão que você traz ao pescoço; em outras palavras, sou seu escravo.

Fascinado pela revelação, Aurélio atreveu-se a perguntar:

– Se é assim, responda-me: Onde está o meu pai?

Mal-humorado, o misterioso visitante respondeu:

– Sou um gênio, não um adivinho. Peça o que quiser, mas não faça perguntas.

– Não creio que precise de você.

– Nem mesmo um maluco dispensaria a minha ajuda.

– Eu dispenso. Não há nada que possa fazer por mim.

Com um olhar ameaçador, o gênio perguntou:

– Duvida dos meus poderes?

– Não. O problema não está em você; está em mim: não há gênio no mundo que consiga transformar um homem fraco, inapto para lutar ou manejar armas, no melhor dos cavaleiros.

Após esboçar um sorriso de satisfação, o gênio declarou:

– Se é só esse o problema, está resolvido. Sou bom no que faço. Posso torná-lo o cavaleiro mais destemido que o mundo já ouviu falar.

Com a voz abafada pelo desânimo, Aurélio perguntou:

– A quem está querendo enganar? Haverá um torneio; não duvido que a sua magia possa trazer-me a vitória. Contudo, seria desonrosa, porque eu estaria me fazendo passar por algo que não sou. A sua magia, por mais poderosa que seja, só modifica a aparência. Eu gostaria de poder crescer, de poder tornar-me o herói da minha própria vida.

Irradiando simpatia, o gênio comentou:

– Embora eu não possa trilhar esse caminho por você, há algo que posso conseguir-lhe: o melhor cavalo, as melhores armas e os melhores mestres. Se você estiver pronto para aprender, como eu acredito que esteja, em breve tornar-se-á invencível.

– Acredita mesmo que isso seja possível no meu caso? Sinto-me ansioso, inseguro…

– Haverá um mestre que o ajudará a encarar os seus medos. Já ouvi dizer que todo herói, antes de enfrentar o seu adversário, tem que primeiro defrontar-se consigo próprio. Para mim, isso tudo não passa de um amontoado de palavras; mas, para você, percebo que elas valem mais do que o ouro, mais do que o próprio alimento. Por falar nisso, deve estar com fome. Se desejar, posso providenciar-lhe uma refeição.

Maravilhado, Aurélio perguntou:

– Pode mesmo fazer surgir uma refeição num passe de mágica?!…

Aurélio, mal acabou de formular a pergunta, viu aparecer pratos e mais pratos de dar água na boca. Enquanto Aurélio saboreava a comida, o gênio continuava falando-lhe sobre o seu futuro aprendizado.

FIM DO 1º CAPÍTULO DA HISTÓRIA “ÁQUILA, O GÊNIO DO MEDALHÃO”.
Sisi Marques
22/12/2013

NO PRÓXIMO SEGMENTO, NÃO PERCA A CONTINUAÇÃO DA HISTÓRIA “ÁQUILA, O GÊNIO DO MEDALHÃO”.
Grata,
Sisi Marques

Que os seus sonhos se realizem!

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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