LÁGRIMAS DE AMOR (Capítulo VI)

Quando Cesarina retornou da viagem que fizera com Tortulho, foi à casa de Laura.

A pastora e seu irmão receberam-na calorosamente e agradeceram-lhe um sem-número de vezes por ter levado Tortulho para bem longe.

Quando os dois irmãos se calaram, Cesarina, calculadamente, perguntou:

– Vocês não acham que mereço ter um desejo realizado, depois de tanto trabalho que tive?

Laura, irradiando simpatia, respondeu:

– É evidente que sim. Marco contou-me que você gostaria de fazer-lhe um pedido. Não vai nos contar qual é?

Enquanto Laura conversava com Cesarina, aproveitava os minutos para fazer um conserto em uma blusa. Tomada de espanto, feriu o dedo na agulha, quando a ouviu dizer:

– Quero me casar com ele.

Cláudio, o irmão de Laura, não menos surpreso, perguntou com a voz abafada?

– Com Marco?

Fixando o olhar em Laura, Cesarina respondeu:

– Sim. Vim até aqui apenas para pedir a Laura que não chore por ele porque, se ela chorar, cada lágrima derramada imprimirá na minha pele uma mancha esverdeada. Imaginem só como eu ficaria ridícula toda salpicada de verde!…

Cláudio, abraçando a irmã, disse a Cesarina:

– Se você é mesmo uma fada, deveria compadecer-se do abatimento de Laura.

Laura, praticamente ignorando a presença de Cesarina, murmurou para o irmão:

– Não se preocupe comigo; eu ficarei bem. Preciso apenas descansar um pouco. Você me acompanha até o quarto?… Não quero ficar sozinha.

Cláudio, também fingindo ignorar a presença de Cesarina, deixou a cozinha para conduzir a irmã cambaleante até o quarto.

Cesarina deu de ombros ao menosprezo dos dois e voou até o palácio. Lá chegando, escondeu-se atrás de uma árvore; disse adeus às suas asas e começou a crescer até tornar-se uma encantadora jovem.

Bartolomeu, que a aguardava na entrada do palácio, ficou emocionado ao vê-la chegar tão radiante. Oferecendo-lhe o braço, conduziu-a à presença de Marco.

Após cumprimentá-la e comunicar-lhe que em breve os convidados já estariam chegando para a cerimônia, Marco retirou-se a pretexto de cuidar dos últimos detalhes.

Cesarina, pouco à vontade, perguntou a Bartolomeu:

– O que devo fazer quando chegarem os convidados?

– Sorria.

– É assim tão simples?

Bartolomeu, olhando-a nos olhos, respondeu:

– Para uma beldade como você, isso já é mais do que o suficiente.

– Está zombando de mim!…

– Não. Você é que está subestimando o seu charme. Procure acalmar-se que tudo dará certo.

Nesse exato momento, uma senhora dirigiu-se a Cesarina e pediu-lhe que a acompanhasse até o quarto, para provar o vestido de noiva.

Após alguns ajustes, o vestido ficou perfeito. Cesarina, porém, ao imaginar que era para Laura que Marco mandara confeccionar aquele vestido, sentiu os espinhos do ciúme dilacerarem o seu coração.

O ciúme, entretanto, logo cedeu lugar a uma confusão de sentimentos, quando Cesarina, no instante em que vestiu as luvas, viu aparecer uma pequena mancha verde em seu braço. Apavorada, pediu à camareira que saísse e chamasse Bartolomeu.

Quando Bartolomeu entrou no quarto, Cesarina exclamou:

– Laura parece disposta a estragar tudo! Corra até lá e faça-a parar de chorar.

Embaraçado, ele comentou:

– Receio não ter jeito com esse tipo de coisa. Não sei se compreende; sou emotivo e acabo chorando também.

Com os olhos incandescentes, Cesarina gritou:

– Vá depressa, homem! Olhe só para o meu braço!… Já tenho de recordação dez pontinhos verdes; quantos mais terão que aparecer até você compreender a gravidade da situação?

Bartolomeu perguntou:

– Consegue usar sua magia para transportar-me até lá?

Cesarina fez um sinal afirmativo com a cabeça, e, quase no mesmo instante, Bartolomeu desapareceu.

Enquanto corriam os minutos, o nervosismo de Cesarina crescia assustadoramente. Ficava pensando em Bartolomeu, em Laura, em Marco, na cerimônia, nos pontinhos verdes… Angustiada, retirou as luvas para tornar a contá-los; mas bateu palmas de alegria ao verificar que haviam desaparecido. Respirou aliviada, e agradeceu mentalmente a Bartolomeu.

Após um quarto de hora, pediram-lhe que descesse porque a cerimônia teria início.

Do alto da escada, Cesarina avistou Bartolomeu entre os convidados. Pressentiu que ele estava preocupado; ele parecia aflito para contar-lhe sobre o encontro que tivera com Laura. Mas não havia tempo para conversarem, porque Marco já estava subindo para recebê-la e conduzi-la ao altar.

Após segurar as mãos de Cesarina entre as suas, Marco beijou-lhe a testa e ofereceu-lhe o braço para que pudessem caminhar juntos até o altar.

Marco começou a contar os degraus, depois os passos que o aproximavam do momento fatal. Teria forças para levar adiante aquela farsa?… Embora sorrisse, seu coração estava em pranto. À medida que a distância entre eles e o altar diminuía, o rosto de Laura se agigantava em sua mente e parecia reclamar o lugar que lhe pertencia em seu coração.

O sorriso de Marco foi, pouco a pouco, se apagando… Toda a sua energia estava concentrada em represar as lágrimas que pareciam jorrar de seu coração. Queria ser fiel à promessa que fizera de atender ao pedido da Fada… E, para isso, apunhalava covardemente o amor que sentia por Laura.

Chegou mesmo a duvidar que a mulher ao seu lado fosse uma fada. Parecia mais uma serpente com a língua bifurcada!… Marco arrependeu-se do pensamento impiedoso que tivera. Entretanto, a revolta já havia criado raízes em seu peito, e Marco, no momento solene de dizer o “sim”, caiu de joelhos chorando e murmurou:

– Não!… Não posso viver sem Laura!… É como se todas as estrelas do céu tivessem se apagado… Como se todas as fontes e regatos tivessem secado…

Com o rosto entre as mãos, Marco ainda chorava sem perceber que cada lágrima sua tingia impiedosamente o rosto de Cesarina.

Os convidados, porém, aterrorizados diante do fenômeno que presenciavam, começaram a gritar que Cesarina era uma feiticeira.

Bartolomeu aproximou-se dela, para evitar que a ferissem e disse:

– Foi tudo culpa minha. Eu deveria ter lhe dito que era Marco quem estava chorando e não Laura.

Cesarina triste e, ao mesmo tempo, surpresa, fitou os olhos úmidos de Marco pela última vez, e desapareceu levando Bartolomeu consigo.

No mesmo instante, a Velhinha, que havia previsto a chegada de Tortulho ao Reino, aproximou-se de Marco e disse-lhe baixinho:

– As suas lágrimas o livraram do compromisso. Por que não manda buscar Laura, para que a festa possa continuar?

F I M

Sisi Marques
06/12/2013

Que os seus sonhos se realizem!

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Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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One Response to LÁGRIMAS DE AMOR (Capítulo VI)

  1. Lucia says:

    Sisi,

    Amei o final de Lagrimas de Amor! Eu imaginei um final assim.
    O amor nao poderia ser destruido! Lindo!!

    Neste final de semana irei postar a historia.
    Agradeco as suas palavras carinhosas no blog.
    Bjs e um final de semana de paz!

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