O REI ABELARDO E A FADA GLICÍNIA (Capítulo III)

Embora Lúcio não chegasse a usar a coroa; desde o instante em que viu Abelardo partir, começou a compreender o quanto ela pesava.

Abelardo, por sua vez, apesar de não estar mais vestido como rei, e de ter dispensado sua guarda, era reconhecido em todos os lugares que visitava.

Aborrecido por não conseguir a privacidade que desejava, resolveu partir para bem longe, para um lugar onde ninguém nunca tivesse ouvido falar em seu nome.

Afastou-se tanto que já não saberia dizer onde estava. As árvores gigantescas que o cercavam davam-lhe a sensação de isolamento há tanto desejada. Descobriu que era gostoso ficar sozinho; sentia-se bem em sua própria companhia.

Entretanto, não conseguiu ficar muito tempo sozinho. Logo apareceu uma moça que, de tão entretida que estava observando as flores, nem notou sua presença.

Abelardo, um pouco constrangido por ter sido ignorado pela primeira vez em sua vida, disse a ela:

– Você nem bem chegou e já vai embora? Além disso, costuma sempre ignorar as pessoas?

A jovem respondeu:

– Não fiz por mal; estou com pressa.

Abelardo, feliz por não tê-la ouvido chamá-lo de “Majestade”, deixou a sombra da árvore e, aproximando-se dela, perguntou-lhe:

– Não sabe quem sou?

Para sua surpresa, eis o que ela respondeu:

– Um mortal em busca de si mesmo. Agora, se me der licença…

A jovem fez um movimento para afastar-se. Abelardo sentiu-se confuso; não desejava que ela partisse. Procurando distraí-la, para segurá-la um pouco mais, comentou:

– É impressionante o modo como parece gostar das flores. Qual é o seu nome?

Ela tornou a surpreendê-lo quando disse:

– Não estava interessado no meu amor pelas flores, queria apenas saber o meu nome. Por que não o perguntou em primeiro lugar?

Abelardo, embaraçado, procurou desculpar-se:

– Perdoe-me; não quis ofendê-la.

– Eu não me senti ofendida. Meu nome é Glicínia. Está procurando trabalho?

– Trabalho?!

– Sim. Hoje em dia, não é comum ver alguém sentado à sombra de uma árvore, pensando na vida. Também com os impostos altos que o Rei costuma cobrar, para poder manter o seu luxo e a ociosidade de toda a corte, o povo só tem mesmo é que trabalhar! Qual é o seu nome?

Abelardo não sabia o que responder. Embora soubesse que não era sobre ele que Glicínia estava falando, porque aquela região não fazia parte de seu reino, temia que, ao dizer o seu nome, ela acabasse descobrindo que ele também era rei. Disse com a voz abafada:

– Abel.

– Abel?!

Glicínia, após repetir o seu nome, sorriu. Contudo, aquele parecia um sorriso de desconfiança. Abelardo teve a nítida impressão de que ela sabia que ele estava mentindo.

Apenas para desviar o assunto, Abelardo perguntou fingindo interesse:

– Sabe onde posso conseguir trabalho?

Apontando para uma estrada, Glicínia respondeu:

– Se seguir naquela direção, encontrará uma casa com uma grande placa afixada.

– E posso saber do que é que estão precisando?

– De um jardineiro.

Abelardo ficou pensativo. Não sabia cuidar de plantas; apreciá-las, sim; mas cuidar delas, não! Além disso, aquele não lhe parecia um serviço muito agradável, porque suas mãos ainda não conheciam o contato úmido da terra.

Percebendo-lhe a resistência, Glicínia comentou:

– Parece preocupado; não deveria estar. O trabalho é simples. Só o que tem a fazer é preparar a terra com muito amor; se assim o fizer, tudo o que plantar germinará e florescerá rapidamente.

Embora Abelardo não entendesse coisa alguma sobre jardinagem, para não decepcionar Glicínia, resolveu aceitar sua sugestão.

Glicínia era diferente de todas as jovens que ele conhecera. Não se preocupava apenas com sua beleza, e nem tampouco parecia ser do tipo que se entregasse a conversas frívolas. Gostaria de poder vê-la mais vezes, mas ainda não sabia como dizer isso a ela.

Glicínia, parecendo adivinhar-lhe o pensamento, disse:

– Costumo vir a este lugar todas as tardes; se precisar de alguma orientação sobre as plantas…

Abelardo sabia que iria mesmo precisar de sua ajuda; mas não era somente nas plantas que ele estava pensando. Glicínia parecia ter as respostas para todas as suas perguntas. A sua presença parecia confortá-lo mais do que se estivesse na presença de todos os sábios de seu reino.

FIM DO 3º CAPÍTULO DA HISTÓRIA “O REI ABELARDO E A FADA GLICÍNIA”.
Sisi Marques
25/11/2013

NO PRÓXIMO SEGMENTO, NÃO PERCA A CONTINUAÇÃO DA HISTÓRIA “O REI ABELARDO E A FADA GLICÍNIA”.
Grata,
Sisi Marques

Que os seus sonhos se realizem!

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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