O REI ABELARDO E A FADA GLICÍNIA (Capítulo I)

Àquela manhã, Abelardo acordou com um sentimento estranho. Recusou-se a colocar sua coroa; não quis sentar-se em seu trono. O seu coração estava entulhado de perguntas; e a mais angustiante de todas era: “Quem sou eu?”

Toda vez que ele olhava para o espelho, perguntando-se quem era, não conseguia encontrar um resposta que o satisfizesse.

O seu conselheiro, preocupado, foi procurá-lo no jardim, receando que ele estivesse doente. Ficou ainda mais apreensivo, quando Abelardo perguntou-lhe:

– Lúcio, quem sou eu?

Procurando disfarçar a inquietação, Lúcio respondeu:

– Vossa Majestade é o nosso amado Rei.

Abelardo retrucou displicente:

– Ora, não me venha com essa! Compreendeu muito bem a minha pergunta. Quero uma resposta sincera e objetiva.

Abelardo insistiu:

– Estou aguardando sua resposta. Por que não responde? Não é você quem vive se gabando de ter respostas para tudo?

– Perdoe-me, Majestade, mas não sei qual é a resposta que esperava ouvir de seu humilde conselheiro. Confesso que estranhei a pergunta.

Abelardo, esquadrinhando o rosto do jovem conselheiro, perguntou-lhe:

– Quem é você?

Lúcio, depois de hesitar um pouco, disse:

– Seu leal conselheiro, Majestade.

Abelardo, não satisfeito com a resposta, perguntou ainda:

– E o que mais?

Lúcio, embaraçado, respondeu:

– Mais nada… Majestade.

– E isso só lhe basta?

– Pensei que Vossa Majestade soubesse que a posição que ocupo é invejada até mesmo pelos nobres.

Visivelmente aborrecido, Abelardo finalizou:

– Pode ir, Lúcio. Quero ficar sozinho.

Lúcio, antes de se retirar, disse:

– Majestade, perdoe-me a insistência…

– O que é? Diga logo.

– Posso trazer-lhe sua coroa? Não é bom que o vejam sem ela.

– Não, Lúcio! Aquela coroa é pesada demais!

– Perdoe-me, Majestade, mas vejo-me forçado a discordar!… Eu mesmo presenciei sua confecção; ela pesa menos do que uma borboleta! Contudo, se Vossa Majestade preferir, posso lhe providenciar outra coroa.

Abelardo, bem-humorado, respondeu:

– Em vez disso, deveria providenciar-me um novo conselheiro.

Lúcio, não percebendo que fora apenas um gracejo, indagou preocupado:

– Vossa Majestade não está satisfeito com o meu trabalho?!… Peço-lhe mil desculpas; tudo farei para melhorar.

– Ah, Lúcio, por que não vai procurar o que fazer?! Não percebe que hoje não estou disposto a ficar ouvindo essa sua ladainha?!…

Depois que Lúcio se retirou desconcertado, Abelardo olhou para as gloxínias do seu jardim, e murmurou:

– Se minha coroa ao menos se parecesse com a extremidade da corola de uma gloxínia!

FIM DO 1º CAPÍTULO DA HISTÓRIA “O REI ABELARDO E A FADA GLICÍNIA”.
Sisi Marques
24/11/2013

NO PRÓXIMO SEGMENTO, NÃO PERCA A CONTINUAÇÃO DA HISTÓRIA “O REI ABELARDO E A FADA GLICÍNIA”.
Grata,
Sisi Marques

Que os seus sonhos se realizem!

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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2 Responses to O REI ABELARDO E A FADA GLICÍNIA (Capítulo I)

  1. Lucia says:

    Ja amei o primeiro capitulo! Ansiosa para ver o outro segmento! Bjs e um lindo domingo!

  2. Gilberto Marques says:

    Eu sei que essa história do rei Abelardo é uma das que você mais gosta. Nós nunca imaginamos que, um dia, ela seria publicada em um blog só nosso. Parabéns pela realização de seu sonho. Te amo. Beijos

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