O LENHADOR LEONARDO E A ÁRVORE ENCANTADA (Parte 15 – Última Parte)

Depois de chamar o duende com o apito, não foi difícil entrar em contato com o bruxo. Também não foi preciso convencê-lo a ir ao palácio, porque, para surpresa de Léo, ele aceitou o convite de bom grado, dizendo:

– Estou pronto, podemos ir. Eu já esperava por isso.

E assim Léo, o bruxo e o duende seguiram em direção ao palácio.

Depois que Léo deixou o bruxo e o duende na presença do rei, disse:

– Majestade, não tenho mais nada para fazer aqui. Minha mãe e eu partiremos hoje mesmo.

Sem dar ao rei tempo para responder, Léo se retirou.

A princesa Valéria, preocupada ao vê-lo sair, caminhou em direção à porta com a intenção de segui-lo; mas o rei fez um sinal para que ela ficasse.

Quando Léo se dirigia para o quarto de sua mãe, encontrou a princesa Deise. Essa era a primeira vez que a via desde que a trouxera ao palácio. Após cumprimentá-la, disse:

– Fico feliz que já esteja podendo caminhar.

Evitando olhar em seu rosto, ela respondeu:

– Eu também. Aquela sensação de “estar plantada” não era nada agradável. Obrigada por ter sido tão paciente.

– O que fiz nada teve a ver com paciência.

A princesa, procurando desviar o assunto, perguntou:

– Aonde está indo? Pensei que fosse participar da reunião.

– Pedirei à minha mãe que se apronte para que possamos partir.

– Por que não fica para a reunião? Estou certa de que meu pai conta com a sua presença. Não deveria estar aborrecido com ele. A decisão de não aceitá-lo como esposo é minha. Não quero ser responsável pela infelicidade de minha irmã.

Procurando não se exaltar, Léo perguntou:

– E por essa razão resolve sacrificar a nossa felicidade?!…

– Você está tornando tudo ainda mais difícil.

– Não. Estou facilitando a vida de todos vocês. Adeus, princesa.

– Não desejo que vá.

– Se quer mesmo que eu fique, case-se comigo; do contrário, partirei imediatamente.

– Preciso pensar…

– Não há tempo. Venha comigo; onde quer que estejamos juntos, seremos felizes.

– Fugir… com o noivo da minha irmã?!

Léo preferiu calar-se. Virou as costas e preparava-se para se retirar quando ela disse:

– Não precisamos fugir. Basta que eu diga ao meu pai que aceito me casar com você, e estará tudo resolvido; ou quase tudo, porque Valéria jamais me perdoará.

– Receio que não seja assim tão simples quanto imagina. Seu pai não lhe disse que o bruxo e o duende viriam para a reunião?

A princesa começou a rir e disse em tom de brincadeira:

– Quando você era lenhador, deve ter trabalhado muito debaixo do sol, e isso deve ter afetado o seu cérebro!

– Infelizmente, não posso dizer que aprecio o seu senso de humor. Se não acredita, por que não vai até lá verificar por si mesma?

– Só se você me acompanhar.

Com um sorriso delicado, ela acrescentou:

– Estou ainda caminhando tão devagar… Se eu pudesse me apoiar em seu braço, conseguiria caminhar mais depressa, e não chegaria muito atrasada à reunião.

Léo também sorriu, e os dois se dirigiram para a sala onde o rei, a princesa Valéria, o bruxo e o duende aguardavam a presença da princesa Deise.

Quando o rei viu Léo entrar acompanhado da princesa, disse:

– Fico feliz que tenha mudado de ideia.

Léo não emitiu nenhum comentário, e o rei, fingindo ignorar a sua indelicadeza, olhou para a princesa Valéria e sugeriu:

– Minha filha, por que não expõe aos presentes o motivo que nos levou a convocar esta reunião?

– Pois não, papai. Como todos sabem, minha irmã foi salva pela habilidade de um homem muito especial, ao qual ela será eternamente grata… Sugiro que os dois se casem.

Em seguida, dirigindo-se à princesa Deise, perguntou:

– Não concorda que o melhor modo de expressar sua gratidão seria casando-se com o bruxo? Além disso, não podemos descartar a possibilidade de quem a enfeitiçou tornar a fazê-lo. O seu casamento com o bruxo poderia protegê-la de uma nova investida. É claro que é apenas uma sugestão. Se não quiser aceitá-la e preferir arriscar-se…

Com exceção do bruxo, todos pareciam chocados. Contudo, o que os deixou perplexos não foi tanto o que a princesa Valéria disse, e sim os dois quadros que apareceram ao seu lado quando ela começou a falar: um deles mostrava a princesa Valéria entregando um pequeno cálice à princesa Deise; e o outro exibia a princesa Deise em pé, com os olhos fechados e parte do seu corpo encoberta por um tronco de árvore.

Quando a princesa Valéria calou-se, a princesa Deise perguntou surpresa:

– Então, é mesmo verdade que fui transformada em árvore?!…

A princesa Valéria, que não suspeitava que a verdade havia sido revelada, respondeu:

– Irmãzinha, pensei que já estivesse convencida disso. Como pode ver, preocupo-me apenas com o seu bem-estar. A presença constante do bruxo ao seu lado será uma garantia de que nenhum mal tornará a lhe acontecer.

A princesa Deise calou-se pensativa. Entretanto, não era na possibilidade de casar-se com o bruxo que ela pensava, e sim na cruel realidade que os quadros tinham acabado de mostrar.

O rei, pesaroso, disse:

– Se todos os presentes tiveram a desventura de presenciar as cenas que eu presenciei, creio que puderam perceber qual foi o verdadeiro motivo que me levou a reuni-los aqui hoje.

A princesa Valéria, desconfiada, franziu a testa enquanto olhava para o rei, procurando apreender o significado de suas palavras.

O rei prosseguiu:

– Está provado que Valéria é culpada.

A princesa Valéria, indignada, exclamou:

– Culpada?! Culpada de quê?!

O rei não respondeu e, olhando para os demais, acrescentou:

– Ela não terá direito a julgamento; e perderá o título de princesa. Quem se dirigir a ela, dirá apenas Valéria, porque o rei não a considera mais sua filha e não deseja tornar a vê-la. Ela será conduzida à prisão mais distante que houver e será tratada como uma criminosa comum.

A princesa Valéria, procurando aparentar serenidade, aproximou-se de Léo e disse:

– Providencie para que o nosso casamento seja realizado ainda hoje. Não podemos permitir que o povo tome conhecimento da doença do rei, antes de mostrar-lhe que haverá alguém ainda mais sábio para governá-lo.

Léo preferiu não responder. O rei calmamente disse:

– Foi exatamente para que não dissessem que estou louco que os convoquei como testemunhas. Se eu tivesse revelado o que vi, ninguém acreditaria.

Nesse instante, a princesa Valéria sentiu um leve formigamento no dedo em que estava o anel de noivado, que Léo havia lhe entregado a pedido da velhinha; ao massageá-lo, o anel desapareceu.

A princesa Valéria, completamente fora de si, olhou para o bruxo e disse:

– Traidor miserável, pode me explicar o que está acontecendo?! Que espécie de truque foi esse?! Devolva o meu anel, e exijo também que me diga o que foi que você fez os outros verem, que eu não consegui ver!

Depois, procurando reverter a situação a seu favor, acrescentou:

– E pensar que sugeri à minha irmãzinha que se casasse com você!… Pobrezinha! Ainda bem que pudemos descobrir a tempo o monstro que você é. Não tenho dúvidas de que foi você quem a enfeitiçou.

O bruxo permanecia calado. A sua tranquilidade era a maior prova que poderia dar de sua inocência.

De repente, o branco das paredes da majestosa sala foi tingido de um verde agradável e luminoso, que lembrava o frescor do bosque; e, diante da princesa Deise, surgiu a moça que havia aparecido à arvorezinha.

Tirando de sua cestinha uma flor branca, colocou-a sobre a fronte da princesa, e disse:

– Arvorezinha, seja feliz!

A jovem desapareceu logo em seguida, e as paredes voltaram à cor original. Todos, exceto a princesa Valéria, estavam maravilhados com o que acabavam de presenciar; entretanto, não sabiam que o mais surpreendente ainda estava para acontecer.

A princesa Deise começou a olhar para as suas mãos, e a movê-las emocionada. Depois, sua atenção voltou-se para os seus braços, e para o seu corpo. Olhava ao redor de si mesma como se estivesse presenciando um milagre. Imensamente feliz, começou a delinear com as mãos o contorno e os traços do seu rosto, ao mesmo tempo em que se permitiu sentir a maciez e o delicado perfume de seus cabelos.

Léo percebeu de imediato que não era a princesa Deise quem estava mergulhada naquele momento mágico, e sim a arvorezinha. Acercando-se dela, ele disse:

– Não imagina o quanto estou feliz por minha princesa ter redescoberto a arvorezinha dentro de si.

Os olhos da princesa brilhavam mais do que as estrelas. Sorriu e, sem dizer nada, abraçou Léo.

O rei, satisfeito, virou-se para o bruxo e disse:

– Devo a felicidade de minha filha a você. Pode pedir o que desejar.

O bruxo respondeu tranquilamente:

– Ninguém me deve nada. Fiz apenas o que precisava ter feito.

Como já era de se esperar, o duende intrometeu-se na conversa, dizendo:

– Majestade, existe sim algo que o meu amigo gostaria de pedir-lhe.

O rei perguntou surpreso:

– E o que seria?…

– A mão da princesa Valéria em casamento.

Foi a princesa Valéria quem exclamou:

– Cale essa boca, criaturinha atrevida!

O duende respondeu:

– Não, não e não! Não vou me calar! O meu amigo só veio àquele dia ao palácio ameaçar o rei, porque você pediu a ele que viesse. Ele nunca poderia imaginar que estava sendo usado para distrair o rei, enquanto você tirava a princesa do palácio. Eu ouvi quando você disse a ele que era apenas uma brincadeira.

O rei, olhando para o bruxo, perguntou:

– Isso é verdade?

O bruxo fez com a cabeça um sinal afirmativo. Finalmente, animou-se a dizer:

– Majestade, meu amiguinho tem razão. Sempre fui apaixonado pela princesa Valéria…

A princesa Valéria não o deixou terminar. Exclamou:

– Pode parar por aí! Não precisa nem continuar, porque não estou disposta a me casar com você… a menos… a menos, é claro, que eu seja perdoada, e não perca o meu título de princesa.

Pressentindo que o rei não voltaria atrás com sua palavra em relação ao castigo que havia preparado para a princesa Valéria, a princesa Deise resolveu interceder:

– Papai, por favor, se eu mesma já a perdoei, não há razão para que o senhor não a perdoe. Contudo, eu gostaria apenas de saber o que levou minha irmã a fazer o que fez.

A princesa Valéria revelou friamente:

– Embora você nem suspeitasse da existência de Léo, eu sabia que ele recusava o meu amor, porque estava apaixonado por você. Resolvi afastá-la, porque temia perdê-lo.

A princesa Deise, ainda não satisfeita, perguntou:

– Como foi que conseguiu me transformar em árvore?! Pensei que só bruxos e bruxas conseguissem fazer feitiços.

– Um dia, sem que Adolfo percebesse, copiei a receita de seu livro.

O duende, intrigado, perguntou ao bruxo:

– Por que o encantamento não foi registrado no livro de feitiços?

O bruxo Adolfo, talvez porque estivesse satisfeito com a ideia que o duende tivera de sugerir que ele se casasse com a princesa Valéria, não se impacientou e respondeu:

– Porque ela é principiante. O livro só registra os feitiços realizados por bruxos e bruxas credenciados.

Feliz por ter feito as pazes com o bruxo, o duende disse:

– Compreendo…

Depois, encabulado, ele se virou e perguntou para o rei:

– Majestade, também tenho o direito de fazer um pedido? Se não fosse o apito que entreguei à arvorezinha, quero dizer, à princesa, Léo não teria conseguido localizar o meu amigo bruxo.

O rei respondeu bem-humorado:

– É evidente que sim; pode pedir o que desejar.

– Eu gostaria de ganhar um beijo da princesa.

A princesa Deise sorriu e, aproximando-se do homenzinho, beijou-lhe o rosto, que ficou vermelho como um pimentão. Todos riram, inclusive a princesa Valéria. E eles viveram felizes para sempre.

F I M

Grata,
Sisi Marques

(História finalizada em 11/11/2013)

Que os seus sonhos se realizem!!!

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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