O PRÍNCIPE GERVÁSIO E A GAIOLA DOURADA (Parte 14)

Deitada em seu quarto, Luísa ainda sonhava acordada. Recordava o contato macio dos lábios de Gervásio: ela fechava os olhos, e era como se tornasse a beijá-lo. Depois, lembrava-se da ternura e do amor que havia em seu olhar.

Contudo, aquela onda de paz não poderia permanecer ali agasalhando o seu coração por muito tempo, porque o medo que ela sentia de Leôncio não demoraria a dissipá-la.

Após um suspiro de desencanto, Luísa franziu o rosto como se tentasse extrair, de seu cérebro, um modo de vingar-se de Leôncio e, ao mesmo tempo, forçá-lo a libertar Gervásio.

Ela procurava segurar os minutos que passavam ligeiros… A sua esperança decrescia… Sentiu-se só; pela primeira vez em sua vida, Luísa experimentou o gosto amargo da solidão. Reconhecia-se incapaz de pensar num plano que tivesse alguma probabilidade de dar certo.

Aproximando-se da penteadeira, Luísa contemplou o seu rosto no espelho: embora ele permanecesse inalterado, em seu interior, ela se sentia alguns anos mais velha. De repente, algo sobre o móvel despertou-lhe o interesse: era Angelina, uma boneca de pano que ela confeccionara para ajudá-la a passar o tempo.

Segurando a mimosa bonequinha, Luísa pôs-se a examiná-la cuidadosamente… Uma ideia começava a aflorar…

Minutos depois, um sorriso despontava iluminando o seu rosto: ela acreditava que o seu plano daria certo.

Felizmente, tudo o que precisava estava em seu próprio quarto: a caixa de costura, uma camisola, um travesseiro e alguns lençóis.

Começou pela camisola: teria que fechá-la na extremidade da barra e dos punhos. Após um incansável vai e vem com a agulha, Luísa pensou que já estava pronta para ser recheada com os lençóis. Depois de espremê-los o mais que pôde pela abertura do decote, ela franziu uma das extremidades do travesseiro e encaixou-a na abertura para poder costurar. Luísa parecia preocupada… Por um momento receou que o seu trabalho não fosse resultar em nada.

Assim que terminou a estranha boneca, uma pergunta emergiu em sua mente: “Onde poderei me esconder depois que a tiver jogado no fosso?” Pensou na torre, mas receava que houvesse ratos por lá. Teria que pensar em algum lugar mais limpo, mais confortável… De repente, ao lembrar-se do quanto Leôncio parecia odiar o seu antigo quarto, um novo sorriso iluminou o seu rosto: seria lá mesmo o seu esconderijo.

Não havia tempo a perder… Com a respiração ofegante, sem pensar duas vezes, Luísa atirou a boneca no fosso e saiu apressada, esgueirando-se pelos corredores para que ninguém a visse.

Minutos depois, a boneca de Luísa provocava o maior alvoroço no castelo: um criado a vira do alto da torre, e saiu gritando feito louco que algo ou alguém estava boiando nas águas do fosso. Ele gritava também para que matassem o jacaré antes que fosse tarde.

Não houve quem não acordasse… Alguns corriam em direção ao fosso, outros se apinhavam nas janelas para apreciar o trabalho dos guardas.

Só Leôncio pensava saber o que tinha acontecido: Luísa, numa tentativa desesperada de recuperar a chave, tinha se atirado no fosso. Com o coração triturado pelo remorso e pelo desamor de Luísa, ele abriu a porta do quarto na esperança de que ela estivesse dormindo, mas ela não estava lá.

Leôncio permaneceu ainda mais alguns minutos no quarto de Luísa procurando ganhar forças para poder enfrentar o que acreditava ser o fim trágico de sua obstinação.

Quando se sentiu mais forte, foi ter com o grupo de resgate ainda reunido à margem do fosso. Com mãos trêmulas e a respiração suspensa, ele abriu caminho a fim de contemplar, pela última vez, o rosto de Luísa.

Aliviado e, ao mesmo tempo, nervoso ao verificar que fora enganado, Leôncio mal conseguia ouvir as palavras de Antão, o chefe da guarda:

– O jacaré nem tomou conhecimento, porque era apenas um boneco! Jamais senti tanta aflição em toda a minha vida! Neste castelo, dá mesmo de tudo… Eu gostaria de colocar as mãos no engraçadinho que fez isso!…

Outro oficial comentou:

– Parece trabalho de mulher…

Antão, num gesto de impaciência, gritou:

– Tudo bem, homens, acabou! Vocês estão dispensados.

Leôncio, contrariando as ordens, disse:

– Não, ainda não terminou. Quero que revistem a área e só retornem quando encontrá-la.

Antão, embora tomado de surpresa, pôde compreender que Leôncio estava se referindo a Luísa. Exclamou:

– Eu deveria ter imaginado!… Quem mais teria o prazer de se divertir à custa dos outros?!

Procurando impor-se, Leôncio ordenou:

– Cale-se, insolente! Não compreendeu o que eu disse?!… A princesa Luísa armou toda essa confusão só para poder escapar… Ela não pode ter ido longe.

Antão, com a testa franzida, perguntou desconfiado:

– E por que fugiria?… Vossa Alteza vive dizendo que ela só aguarda a anulação do casamento para casar-se com o senhor…

Leôncio, procurando restabelecer a confiança do chefe da guarda, disse maliciosamente:

– Você também tem esposa e sabe como é difícil compreender as mulheres! No mesmo instante em que brigam, desejam fazer as pazes.

Com um sorriso maroto, Antão concordou:

– Ah, isso é verdade! Uma vez Aurora queria me bater com o cabo da vassoura… Se não fosse a minha filha acordar e interceder, a briga teria sido feia.

Tentando esconder a impaciência, Leôncio disse:

– Você está certo, Antão: não devemos subestimar as mulheres. Embora sejamos mais fortes, elas são ardilosas e acabam sempre encontrando um meio de manter-nos com a rédea curta.

Com o mesmo sorriso maroto, acrescido de satisfação, o chefe da guarda declarou:

– Não se preocupe, Alteza, nós a traremos de volta para o senhor. Só receio que ela tenha se arriscado muito… Com essa escuridão, e sem armas, não é nada fácil esquivar-se dos perigos da mata… Compreende o que quero dizer?… A essa altura, algum animal…

A ponto de explodir, Leôncio esbravejou:

– O que está esperando, idiota?! Reúna o pessoal e cumpra logo o seu dever.

(No próximo segmento, não perca a 15ª Parte da história “O Príncipe Gervásio e a Gaiola Dourada”.)
Grata,
Sisi Marques

Que os seus sonhos se realizem!!!

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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