O PRÍNCIPE GERVÁSIO E A GAIOLA DOURADA (Parte 13)

Cerca de uma hora depois de Leôncio haver saído, Luísa entrava no salão. Luciano retirou-se discretamente.

O príncipe Gervásio disse:

– Por favor, sente-se. Temos muito que conversar.

Luísa sentou-se calada e assim permaneceu, com o olhar colado ao chão, enquanto Gervásio a observava.

Após uma breve hesitação, o príncipe prosseguiu:

– Preciso que me ajude a compreender o que está se passando entre você e Leôncio. Pelo que pude entender, você não entregou a ele os documentos que assinei e disse-lhe que eu os havia retido. Você mentiu também sobre o seu casamento com ele? Tudo leva a crer que sim porque, se ele não sabe que você está de posse da anulação do nosso casamento, não pode estar fazendo planos para um futuro tão próximo. Por que armou tudo isso?… Por que mentiu para mim?… Começo a perceber que você não ama Leôncio. Se isso é verdade, por que me fez acreditar que estava apaixonada por ele?… Por que fez com que ele acreditasse nisso?… Não sei quem é mais cruel nessa história: ele ou você!… Divertiu-se à nossa custa o tempo todo: a ele, fazia de tolo; quanto a mim, você usava o meu ciúme para ferir-me, como se fosse um punhal. Por favor, Luísa, diga algo em sua defesa. Quero ouvir a sua versão dos fatos, desta vez, sem mentiras.

Levantando os olhos, Luísa disse:

– Se eu retirar as mentiras, sobrará muito pouco; talvez, não sobre nada para dizer.

– Se continuar agindo assim, não poderei ajudá-la.

Com um sorriso irônico, Luísa encorajou-se a dizer:

– Ajudar-me?!… Você arma um jogo de gato e rato, onde o rato sou eu… Defendo-me como posso. Você me acusa e, depois, me oferece ajuda!…Você não está em condições de ajudar ninguém, nem a si próprio: desistiu do jogo e, agora, também está sendo caçado.

Atordoado com o impacto das palavras de Luísa, o príncipe disse:

– Você acabou de dizer que sou o responsável pela situação em que você se encontra. Poderia ser mais objetiva e sugerir algo que nos ajudasse a remediar o meu equívoco?

Luísa tornou a calar-se. Não parecia disposta a continuar discutindo. Fitando o chão, entregou-se novamente ao olhar incansável do príncipe.

Pacientemente, com o rosto colado no vão da grade, e suas mãos apertando as barras douradas como se ele desejasse arrancá-las, Gervásio disse:

– Luísa, infelizmente não temos muito tempo. Com ou sem os documentos, Leôncio tenciona partir e levar você com ele.

A princípio, apenas as lágrimas de Luísa confessavam, ao príncipe, a sua infelicidade… Mas, minutos depois, atravessando os olhos dele com o seu olhar, ela murmurou:

– Liberte-me.

Esquivando-se do olhar penetrante de Luísa, ele afirmou:

– Eu já fiz isso: a anulação que assinei desfez o compromisso. Agora, nenhum laço une você a mim.

Após um leve suspiro de enfado, Luísa exclamou:

– Jamais conseguirei fazê-lo compreender! Você fala em casamento como se estivesse realizando uma transação comercial. Não consegue olhar para mim e ver que, por detrás da minha fragilidade, do meu sofrimento, existe alguém, existe um ser humano como você, existe um pássaro que foge à captura, mas que anseia à paz e ao calor de um ninho.

O príncipe Gervásio emudeceu. Não tinha argumentos… Sentia-se diminuído perante Luísa e não conseguia encontrar um lugar para se esconder.

Ela prosseguiu:

– Você, sem me dar tempo, sem me dar a oportunidade de conhecê-lo melhor, sem levar em consideração os meus sentimentos, reuniu-me à lista dos seus bens e, depois, fez uma comovente e generosa doação. Esperava que eu o admirasse pelo seu desrespeito para comigo e para consigo próprio? Ou, talvez, tenha imaginado que o meu remorso ao contemplá-lo preso pudesse transformar-se em amor? Você é um monstro que tem a imaginação deformada por um ciúme doentio. Odeio você!

Ainda mais apaixonado, o príncipe disse:

– Compreendo e não a culpo. Se odeia a mim, deve também odiar Leôncio por estar hipnotizado pela sede de poder. Como fui tolo! E pensar que eu acreditava sinceramente estar ajudando-a a construir a sua felicidade!… Gostaria que sugerisse algo… Não consigo raciocinar; é como se minha cabeça estivesse vazia.

Luísa aproveitou a ocasião para dizer:

– A anulação do casamento está comigo, e o documento que efetua a doação está no fundo do fosso, rasgado em pedacinhos. Preciso sair deste castelo; não posso continuar me arriscando. Não tenho feito outra coisa além de mentir…

O príncipe confidenciou:

– É estranho… Sinto-me diferente… Já não sou o mesmo homem que teve o sonho maluco de refugiar-se numa gaiola dourada. Sinto-me mais confiante, mais forte… E devo tudo a você. Obrigado, Luísa. Prometo não me colocar mais entre você e a sua felicidade. Eu poderia pedir a Luciano que entregasse, ao chefe da guarda, uma ordem de prisão para Leôncio.

Luísa, procurando controlar sua impaciência, aconselhou:

– Não! Todos já sabem o motivo que o levou a trancafiar-se nessa gaiola. Acredite ou não, você está sendo alvo de riso. Os seus guardas seriam capazes de obedecer a qualquer um, menos a você. Além disso, durante a sua ausência, Leôncio fez muitas amizades: não sabemos em quem confiar. Aonde quer que eu vá, tenho sempre a sensação de estar sendo seguida… Parece haver um par de olhos espreitando em cada canto… O que precisamos é encontrar um meio de tirá-lo daí, sem chamar a atenção de Leôncio.

O príncipe advertiu:

– Se está pensando em se apoderar da chave, esqueça porque é um trabalho muito arriscado. Prometa-me que não fará nenhuma tentativa nesse sentido.

Como se estivesse pensando em voz alta, Luísa disse:

– Sei que é perigoso, mas tem que haver um meio de descer até o fosso. Já pensei numa corda, mas e o jacaré?!… Mesmo que eu conseguisse matá-lo, ainda teria que mergulhar e procurar a chave até encontrá-la. Como eu poderia fazer isso se não sei nadar?!…

As lágrimas refloresciam nos olhos de Luísa. Olhando para lugar nenhum, ela prosseguiu:

– Houve uma ocasião em que eu estava mesmo decidida a tentar… Pedi à camareira que me conseguisse uma corda… Ela parecia disposta a me ajudar; mas, em vez disso, ela contou tudo a Leôncio, e ele me fez prometer que desistiria da ideia.

O relato de Luísa fez o coração do príncipe Gervásio estremecer. Numa tentativa desesperada de afastá-la dessas lembranças, ele disse:

– Por favor, esqueça a chave do fosso, porque está perdida para sempre. Temos que nos concentrar em obter a chave que está com Leôncio: se ele não a estiver carregando consigo, ela tem que estar no quarto dele. Na próxima vez que ele vier aqui, procurarei segurá-lo o máximo que eu puder para que Luciano consiga encontrá-la.

Luísa perguntou atônita:

– Leôncio lhe disse que tem a chave?!… Aquele ordinário!… Ele não presta!… Mas eu o farei pagar cada lágrima que derramei, cada minuto que passei debruçada naquela janela, desejando que, num passe de mágica, aquela chave saltasse do fosso… Ele não presta!… Ele não presta! É um hipócrita!

O príncipe procurou confortá-la:

– Por favor, acalme-se; o seu descontrole pode colocar tudo a perder. Venha até aqui apanhar um pouco de água.

Luísa aproximou-se da grade e aceitou o copo de água, não porque precisasse bebê-la, e sim porque não perderia a oportunidade de ficar ao lado do homem que amava.

Um pouco mais calma, ela disse:

– Você não compreende… Ele zombou de mim, de você, dos meus sentimentos… Eu chorava, com os olhos mergulhados na água do fosso… Era amor o que eu sentia, e ele teimava em querer me fazer acreditar que fosse piedade ou remorso.

Ela estava tão próxima que ele poderia ter tocado o seu rosto e secado suas lágrimas. Ele não se atreveu, porém, a fazê-lo.

Entretanto, algo que ele não conseguia evitar parecia estar acontecendo: o calor que Luísa irradiava começava a quebrar a sepultura de seu coração semimorto e tinha o poder de ressuscitá-lo. Luísa estava tão próxima!…

O amor que irradiava do coração de Gervásio também despertava o coração de Luísa. Ele estava tão próximo!…

Para os dois, aquele foi um momento de enlevo: não havia palavras, só olhares. Gervásio, livrando os braços através dos vãos da grade, segurou amorosamente o rosto de Luísa e, atraindo-a para si, beijou-a.

Quando o beijo terminou, Gervásio sorriu ao ver que Luísa ainda mantinha os olhos fechados. Ela murmurou:

– Não quero abrir os olhos, porque tenho medo de acordar.

Ele também receava estar sonhando. Para certificar-se de que não era um sonho, ele resolveu beijá-la novamente, mas não houve tempo, porque Luciano entrou.

Gervásio disse a Luísa:

– Você precisa ir. Faça de conta que já estava saindo.

Luísa percebeu que Luciano só entrara para avisá-los de que Leôncio se aproximava. Mas, ainda assim, havia algo que ela precisava dizer antes de partir:

– Gervásio, quero que saiba que menti sobre a anulação: ela não está comigo, está no fundo do fosso. Nunca deixei de ser sua esposa.

O doce olhar de Gervásio transmitiu a ela tudo o que as palavras não teriam tempo de dizer.

Luísa saiu apressada. Ao cruzar a porta, verificou que Leôncio, a poucos metros de distância, esperava-a furioso.

Sem dizer nada, ele a segurou pelo braço e obrigou-a a caminhar com passos largos.

Ressentindo-se com o seu procedimento, Luísa parou para perguntar-lhe:

– O que há? Por que a pressa? Não percebe que está machucando o meu braço? Se não soltá-lo, juro que não darei mais um passo. Ficarei aqui plantada até você aprender a ter mais educação.

Leôncio, visivelmente nervoso, alisou o cabelo antes de dizer:

– Sinto muito. Eu não aguentava mais esperar… Por que você demorou tanto?

Luísa, fingindo-se entediada, comentou:

– Ah, ele me aborreceu tanto, fez tantas perguntas… Mas fique tranquilo, porque parece que ele vai ceder. Eu estou exausta e com uma dor de cabeça terrível. Pretendo tomar um comprimido e descansar um pouco. Amanhã, conversaremos com mais calma, e eu lhe contarei tudo em detalhes. Está bem assim?

Leôncio parecia bem mais calmo quando, sorrindo, fez um ligeiro sinal afirmativo com a cabeça.

(No próximo segmento, não perca a 14ª Parte da história “O Príncipe Gervásio e a Gaiola Dourada”.)
Grata,
Sisi Marques

Que os seus sonhos se realizem!!!

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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