O PRÍNCIPE GERVÁSIO E A GAIOLA DOURADA (Parte 11)

Luísa deixou o quarto com o coração descompassado. Sentia-se naufragar num mar de mentiras; mentiras que não serviam para nada, nem mesmo para sustentá-la.

Ao chegar à porta do salão, ela bateu para que Luciano a abrisse. Aproximando-se da gaiola, Luísa perguntou a Gervásio:

– Onde está a harpa?… Eu gostaria de ouvi-lo tocar.

Ele comentou tristemente:

– Antes eu a tivesse deixado onde estava. Num momento de descontrole, arremessei-a várias vezes de encontro à grade e acabei estraçalhando-a.

Luísa perguntou desconfiada:

– Onde está a harpa? Posso vê-la?

O príncipe direcionou a Luciano um ligeiro sinal com a cabeça, para que ele mostrasse o que havia restado da harpa. Mas, além da harpa completamente destruída, os olhos da jovem esbarraram também em alvíssimas camisas, amontoadas a um canto.

Intrigada, ela se aproximou das camisas e abaixou-se para examiná-las: estavam rasgadas. Luísa levantou-se e reparou nas roupas que Gervásio usava. Além de muito folgadas, o seu aspecto revelava vários anos de uso e incontáveis lavagens: eram de Luciano certamente. Ela pensou em dizer algo a respeito, mas preferiu calar-se.

O príncipe, por sua vez, estranhando o seu silêncio, perguntou:

– Você parece preocupada. Há algo errado?

Olhando nos olhos de Gervásio, ela respondeu ternamente:

– Difícil é encontrar algo que esteja certo.

Em seguida, ela se despediu do príncipe e pediu a Luciano que a acompanhasse até a porta. Quando os dois se afastaram, ela disse:

– Luciano, embora você seja mudo, sei que pode me ouvir perfeitamente. Quero que me responda: foi Leôncio quem destruiu a harpa e rasgou as camisas?

Luísa obteve a confirmação de suas suspeitas quando Luciano balançou a cabeça. Ela disse:

– Obrigada por confiar em mim. Cuide bem de Sua Alteza e evite deixá-lo sozinho.

Luciano esboçou um sorriso de satisfação, e Luísa foi ao encontro de Leôncio para lhe dizer:

– Aconteceu exatamente como eu esperava: Gervásio disse que destruiu os documentos.

Demonstrando determinação, Leôncio declarou:

– Chegou o momento: ele e eu teremos uma conversa franca; é hora de colocarmos as cartas na mesa.

Abaixando os olhos para esconder a sua apreensão, Luísa disse:

– Eu gostaria de estar presente.

– Não. Prefiro poupá-la desse aborrecimento. Confie em mim: sei o que estou fazendo.

Luísa calou-se e caminhou em direção a seu quarto.

(No próximo segmento, não perca a 12ª Parte da história “O Príncipe Gervásio e a Gaiola Dourada”.)

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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