O PRÍNCIPE GERVÁSIO E A GAIOLA DOURADA (Parte 10)

Luísa queria mostrar-se forte, mas o sofrimento, pouco a pouco, vencia sua resistência. Ela amava Gervásio, mas não tinha coragem de confessar isso nem a si mesma. Mergulhava os olhos no fosso, como se fossem anzóis capazes de reaver a chave.

Leôncio entrou em seu quarto sem bater e surpreendeu-a contemplando o fosso. Ao perceber sua presença, Luísa interrompeu seu devaneio para perguntar-lhe asperamente:

– Esqueceu-se das noções básicas de cavalheirismo?

Desconcertado, ele se desculpou:

– Perdoe-me. Você tem toda a razão de estar zangada.

Percebendo o nervosismo e a irritação de Leôncio, Luísa mudou o tom de voz ao perguntar:

– Aconteceu alguma coisa?… Jamais o vi nesse estado antes.

Procurando conter o descontrole, Leôncio revelou o que o aborrecera tanto:

– Apanhei o bobalhão do Luciano no meu quarto, reunindo alguns pertences para levar a Gervásio.

Cuidando do tom de voz, para não provocá-lo ainda mais, Luísa comentou:

– Não compreendo por que está tão nervoso. Luciano estava apenas seguindo as ordens que você mesmo deu a ele.

– Eu não disse que ele poderia entrar no meu quarto e roubar o que me pertence.

– Era muito o que ele pretendia levar para Gervásio?

– A harpa e algumas roupas.

Aborrecida por Leôncio não ter mencionado o quadro, Luísa perguntou:

– Apenas isso?!…

Abismado com o aparente descaso de Luísa, ele perguntou:

– Ainda acha pouco?!… Você deveria ter visto o atrevimento dele. Mas, depois do modo que o tratei, duvido que ele se atreva a voltar.

Como se tivesse passado a ignorar a presença de Leôncio, Luísa virou-se, e o seu olhar novamente pôs-se a vasculhar o fosso.

Cansado de tanta indiferença, Leôncio exclamou:

– Já chega!… Você não prestou atenção em nada do que eu disse!… E olhe para mim quando eu estiver falando com você!

Voltando a olhar para ele, Luísa disse:

– Desculpe-me; por um momento, acabei me distraindo.

– Por um momento?!… A quem está tentando enganar?!…Desde que ele está lá, você não tira os olhos desse fosso! Não percebe que ele está conseguindo confundir os seus sentimentos?!… É pena e não amor o que você sente por ele. Não se iluda… Se ele sair de lá, voltará a ser aquele mesmo monstro prepotente que você tanto odiava. Ele só consegue comovê-la porque…

Luísa interrompeu Leôncio para dizer:

– Se terminou o seu discurso, retire-se, por favor.

– Percebo que você não aprova a minha conduta. Mas, um dia, você ainda irá me agradecer.

Revestindo-se de paciência, Luísa tentou dissuadi-lo de seu ambicioso sonho:

– Não é nada disso… Eu só gostaria de fazê-lo compreender que está perdendo o seu tempo, porque Gervásio jamais concordará com a anulação do casamento. Ele me ama; e você sabe disso. Ele também não entregará a você a sua herança. Você aceite ou não, a verdade é que ele ainda é o príncipe deste reino, e eu…

– Cale-se, porque não quero ouvir mais nada. Você será princesa sim, mas só no dia em que se casar comigo. Quando irá se convencer de que o seu casamento com ele foi apenas um arranjo para mantê-la acorrentada?!… É como se ele lhe dissesse: “Já que não aceitou o meu amor, talvez, aceite a minha fortuna.” É o que faremos, Luísa: aceitaremos a fortuna que ele, tão generosamente, nos ofereceu.

– Está sendo irônico; sabe que ele não tem interesse nenhum em nos entregar coisa alguma. Mas eu tenho uma proposta a lhe fazer: ajude-me a libertar Gervásio. Ele logo perceberá que, apesar das aparências, nós não o traímos. Somos inocentes; não há razão para continuarmos conspirando como se fôssemos bandidos.

Ela ficou confusa quando o ouviu dizer:

– Você desviou o assunto. Por que não continua a falar sobre a sua proposta?… Não percebe que estou mesmo interessado?…

Procurando ignorar o antagonismo de Leôncio, Luísa prosseguiu:

– Você me ajuda a convencê-lo a sair daquela gaiola; e, em troca, peço a ele que o recompense por sua lealdade.

– Não. Agradeço a oferta, mas não posso aceitá-la porque não preenche a minha ambição.

Luísa encorajou-se a dizer:

– Estabeleça o preço. Estou certa de que ele não se recusará a pagar.

Olhando nos olhos de Luísa, ele disse:

– O meu preço é você, Luísa.

Olhando para ele com altivez, ela respondeu:

– Não faço parte da transação.

– Sei que não. Contudo, coloque uma coisa em sua cabeça: posso até desistir da fortuna, mas jamais desistirei de você. Agora, vá até lá e peça para ele lhe devolver o papel da anulação do casamento. Não fique aí parada. Vá, Luísa. Eu a esperarei aqui.

(No próximo segmento, não perca a 11ª Parte da história “O Príncipe Gervásio e a Gaiola Dourada”.)

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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