O LENHADOR LEONARDO E A ÁRVORE ENCANTADA (Parte 9)

Léo acordou bem cedo no dia seguinte e partiu em direção às terras do bruxo. Ele levou um dia inteiro para chegar até lá; passou mais um dia inteirinho perguntando pelo bruxo, sem que ninguém soubesse dizer exatamente onde ele poderia encontrá-lo; e levou mais um dia para retornar.

Quando Léo atravessou o bosque, pensou na arvorezinha, mas não se animou a ir visitá-la. Ele sentia o peso do fracasso sobre seus ombros e sentou-se pesadamente naquele mesmo tronco em que sentara para contemplar o machado que a velhinha lhe dera. Ele não conseguia parar de pensar na estranha senhora e assustou-se quando a ouviu perguntar:

– Como foi o seu encontro com o bruxo?

Após refazer-se do susto, Léo perguntou:

– Como a senhora chegou até aqui? Não me lembro de ter ouvido passos.

Ela respondeu:

– Distraído como você estava, não seria mesmo capaz de ouvir coisa alguma. Como foi o seu encontro com o bruxo?

– Como sabe que fui procurá-lo?

– Se você não parar de fazer perguntas, não conseguirá chegar ao castelo antes do anoitecer. Falhou em sua missão e agora terá que se casar com a princesa Valéria. Para evitar que isso aconteça, eu lhe darei outro presente: um anel de noivado que você deverá ofertar a princesa. Este anel lhe será ainda mais útil do que o machado

Sem questionar, Léo aceitou o presente e agradeceu comovido. Ele se despediu, e a estranha senhora começou a caminhar em outra direção.

Quando Léo chegou ao palácio, conversou com o rei; procurou sua mãe para saber se tinha sido bem tratada durante sua ausência; entregou o anel à princesa Valéria; descansou um pouco; e, depois, saiu para visitar a arvorezinha.

Já havia anoitecido quando Léo entrou no bosque. Ao aproximar-se do lugar onde estava plantada a arvorezinha, ele começou a ouvir vozes, mas não conseguia ver ninguém. Ele se aproximou um pouco mais, e ficou surpreso ao ver um anãozinho conversando com a arvorezinha. Ele dizia:

– É claro que tenho certeza. Olhei folha por folha; não está registrado. Eu sinto muito.

A arvorezinha suplicou:

– Por favor, volte lá e olhe outra vez. Não quero continuar sendo árvore a vida inteira!…

– Você tem que acreditar em mim: o feitiço não está lá. É bem provável que você seja mesmo uma árvore. Não fique triste. Guarde este apito. Se precisar de mim, é só soprar.

– Não sei soprar.

– Guarde-o mesmo assim. Vou colocá-lo sobre o seu galho.

– Obrigada.

– Não seja por isso. Adeus, arvorezinha. Cuide-se bem.

– Adeus.

Léo estava encantado. Deveria ser um duende, e não um anãozinho. Ao mesmo tempo, ele se sentiu um pouco enciumado; a arvorezinha não lhe dissera que tinha um amiguinho.

Ele esperou mais alguns minutos, para que a arvorezinha não desconfiasse que ele tinha ouvido parte da conversa, e depois acercou-se dela.

Surpresa, a arvorezinha exclamou:

– Você me assustou! Não deveria chegar assim tão de mansinho! Além disso, o que está fazendo no bosque a essa hora?!

– Eu precisava vê-la. Perdoe-me se a assustei.

– Esqueça! Fico feliz que tenha vindo. Preciso lhe contar o que aconteceu ontem. Como de costume, eu estava aqui plantada, sem fazer coisa alguma; quando, de repente, um homenzinho veio correndo, todo atrapalhado, em minha direção.

A arvorezinha fez uma pausa. Embora Léo soubesse que era sobre o duende que ela queria lhe falar, ele não fez nenhum comentário, e a arvorezinha prosseguiu:

– Você nem imagina quem o estava perseguindo…

Léo sorriu ao notar que a arvorezinha estava querendo prender sua atenção. Ele se sentou e apoiou as costas e a cabeça em seu tronco, como costumava fazer. Cruzou os braços, e esperou que ela continuasse. A arvorezinha exclamou:

– Um bruxo!

Léo, abandonando imediatamente a aconchegante posição, ajoelhou-se aos pés da arvorezinha, e perguntou-lhe surpreso:

– Um bruxo?!… Você chegou a vê-lo?

– É evidente que sim. Ele usava um chapéu ainda mais engraçado do que o chapéu do homenzinho.

Léo aventurou-se a perguntar:

– Ele não a reconheceu?

– Que ideia!… É claro que não. Era atrás do homenzinho que ele estava. Ainda bem que ele nem notou a minha presença. Quando percebi que o homenzinho procurava um lugar para se esconder, sugeri que ele subisse no meu galho e se escondesse na minha copa. Ele não pensou duas vezes. Conseguimos enganar o bruxo direitinho; ele passou reto e não desconfiou de nada.

– Você não deveria ter se arriscado tanto!

– Eu precisava ajudar o homenzinho.

– Por que precisava ajudá-lo?

– Léo, não o estou reconhecendo!… Ele estava em apuros!

– E você colocou sua vida em perigo para ajudá-lo. Já deveria saber que, com bruxos, não se brinca.

– Por que está tão zangado?…

– Não importa! O que aconteceu depois?

– Como não importa?!… Pensa que sou tola?!… Você vem agindo de modo estranho desde o dia em que ganhou aquele machado.

– É impressão sua. Por favor, continue; preciso saber exatamente o que aconteceu.

– Já lhe contei tudo. O bruxo se foi; e o homenzinho, depois de me agradecer, também se foi.

– E você nunca mais o viu?…

– Nunca mais.

Léo apanhou o apito e perguntou aborrecido:

– E como este apito veio parar em seu galho?

– O homenzinho deve tê-lo deixado cair, quando se escondeu.

– Sei que está mentindo. Por que não diz a verdade?…

– Está bem; eu vou lhe contar o que aconteceu. O homenzinho disse alguma coisa sobre eu ter sido enfeitiçada… Ele pensou que eu fosse uma moça transformada em árvore… Mas, depois que ele consultou o livro do bruxo, convenceu-se de que não houve feitiço algum: eu sou mesmo uma árvore.

– Que livro é esse?

– Ele disse que é um livro mágico, que registra todos os feitiços praticados contra seres humanos.

– E como o homenzinho conseguiu ter acesso a esse livro?

– Não sei. Ele parecia muito esperto. Coitado do bruxo!… Estava furioso perseguindo o homenzinho, porque ele havia trocado os rótulos de alguns frascos, e os feitiços começaram a dar errado. Léo, é melhor você ir; a princesa pode suspeitar que você está se encontrando com alguém, e ficar com ciúmes. Se você gostou do apito, pode ficar com ele.

– Preocupo-me mais com o rei do que com a princesa. Amanhã eu voltarei.

Depois, examinando cuidadosamente o apito, ele acrescentou:

– Obrigado. Algo me diz que vou precisar dele.

(No próximo segmento, não perca a 10ª Parte da história “O Lenhador Leonardo e a Árvore Encantada”.)

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
This entry was posted in O LENHADOR LEONARDO E A ÁRVORE ENCANTADA. Bookmark the permalink.

Leave a Reply