O LENHADOR LEONARDO E A ÁRVORE ENCANTADA (Parte 8)

Léo passou quase uma semana de cama. Todos pareciam bastante apreensivos; principalmente sua mãe e a princesa, que revezavam na cabeceira de seu leito.

Quando a febre cessou, e Léo sentiu-se em condições de se levantar, decidiu ter uma conversa com o rei, na esperança de que o mistério pudesse ser solucionado.

O rei, a princípio, tratou-o com amabilidade, mas depois começou a se esquivar de suas perguntas. Léo insistiu:

– Majestade, por favor, como foi que a princesa Deise morreu?

– Por que insiste nisso? Não percebe que é um assunto muito doloroso para todos nós? É melhor falarmos sobre o seu casamento com Valéria: precisamos escolher a data.

Dessa vez, foi Léo quem procurou fugir do assunto. Inventando um mal-estar repentino, ele encerrou logo a conversa e voltou para o quarto.

Horas depois, conversando com a princesa Valéria, ele não perdeu a oportunidade de perguntar:

– Qual foi a causa da morte de sua irmã?

A princesa Valéria respondeu:

– Nunca saberemos. A pobrezinha contraiu uma doença estranha e não conseguiu mais se recuperar. Éramos muito amigas. Até hoje ainda não consegui me conformar!…

– Perdoe-me; eu não deveria ter tocado nesse assunto. Sei que a faz sofrer muito.

– Não se desculpe; foi até bom que você tivesse perguntado. Meu pai proibiu-me de falar a esse respeito. Mas sofrer calada é ainda pior!… Gosto de falar sobre Deise. Sempre que pronuncio o seu nome, é como se ela ainda estivesse entre nós.

A princesa Valéria começou a chorar, e Léo abraçou-a, procurando confortá-la. Sentia-se culpado por ter despertado na princesa sentimentos tão dolorosos. Entretanto, a voz da intuição sussurrava que tanto o rei quanto a princesa mentiam sobre o que acontecera a Deise.

Naquele mesmo dia, Léo saiu do palácio, às escondidas, para visitar a arvorezinha e, ao mesmo tempo, para apanhar o machado que a velhinha lhe dera. Teria que encontrar um modo de entrar com ele no palácio. Léo acreditava que apenas o machado poderia lhe revelar a verdade.

Logo que avistou a arvorezinha, ele perguntou bem-humorado:

– Cuidou bem do meu machado?

– Léo, por que demorou tanto para voltar?!… Eu já estava preocupada!

– Fiquei doente; mas, agora, estou bem. Vim buscar o machado.

Léo não conseguiu localizar o machado. Após alguns minutos de busca, exclamou desolado:

– Era só o que faltava! Eu jamais saberei o que realmente aconteceu!

A arvorezinha perguntou:

– O que houve?!…

– O machado sumiu! Alguém deve tê-lo roubado.

– Impossível! Eu teria visto.

– Deve ter sido durante a noite.

– Mesmo que eu estivesse dormindo, teria acordado porque tenho o sono leve. Também, na posição desconfortável em que sou obrigada a ficar o tempo todo!…

– Gostaria tanto de poder ajudá-la!…

– Não se preocupe. Sei que um dia esse desconforto terá que acabar, porque uma árvore não pode viver para sempre.

Léo olhou-a com ternura. Não sabia o que dizer. Gostaria, sinceramente, de poder ajudá-la.

Decepcionado por não poder mais contar com a ajuda do machado, ele retornou ao palácio profundamente abatido. O rei havia percebido sua ausência e já o aguardava nervoso.

Léo receava que o rei fosse repreendê-lo por ter se ausentado sem permissão. Contudo, ficou surpreso ao verificar que o motivo de seu nervosismo era completamente outro.

O rei perguntou-lhe sem rodeios:

– Por que perguntou sobre Deise?

– Ela morreu antes que eu tivesse a oportunidade de confessar-lhe o meu amor. Eu a amava de todo o coração, e teria dado a minha vida por ela.

– Embora eu aprecie suas palavras, gostaria que fosse mais cauteloso com o que diz, porque não podemos magoar Valéria.

– Compreendo.

– Gosto de você, porque faz reviver em mim a esperança de ter minha filha de volta. Vou lhe contar o que aconteceu…

Léo sentiu o coração disparar. E o rei prosseguiu:

– Há pouco mais de um ano, um jovem bruxo invadiu o palácio, jurando vingar-se de mim. Eu nem ao menos sabia o motivo de sua fúria; só depois é que tomei conhecimento de que um grupo de lenhadores do reino havia devastado uma pequena parte de suas terras por engano. Dei-lhe minha palavra de que o terrível incidente seria reparado, mas ele não quis me ouvir. Disse-me que eu pagaria com o que tivesse de mais precioso. Antes que ele se retirasse, um enorme clarão cobriu todo o palácio. Cheguei mesmo a pensar que não deveria levar a sério suas ameaças. Fui ao quarto de Deise, para me certificar de que o súbito aparecimento do bruxo não a havia assustado, e ela não estava mais lá. Havia desaparecido como por encanto.

– Por que Vossa Majestade preferiu dizer que a princesa havia adoecido?

– Eu não tinha mais esperança de tornar a vê-la. Por outro lado, se o povo tomasse conhecimento de que um bruxo ousara desafiar-me, a minha autoridade e a minha competência para manter a estabilidade e a segurança do reino começariam a ser questionadas.

– Onde ficam as terras do bruxo?

– Não está pensando em ir até lá?!…

– Para trazer a princesa Deise de volta, eu iria até o inferno se fosse preciso. Não posso ficar de braços cruzados.

– E Valéria?

Léo ousou confessar:

– Não a amo.

– Eu já suspeitava disso. Posso saber por que, então, concordou com o casamento?

– Eu temia que algum mal acontecesse à minha mãe.

– Admiro a sua coragem e a sua franqueza. Será mesmo um prazer tê-lo por genro, porque sei que o meu reino estará em mãos seguras. Façamos um acordo: dou-lhe permissão e cobertura para tentar encontrar Deise; mas, se não conseguir encontrá-la no prazo de três dias, terá que se casar com Valéria. De quantos guardas irá precisar?

Léo não respondeu. Parecia mergulhado em seus pensamentos. Sabia onde Deise estava. Jamais poderia esquecer a cena que o machado lhe revelara. Pobrezinha!… Como conseguia viver dentro daquele tronco, com os pés cobertos pela terra, e com os braços constantemente erguidos para o céu?!…

A lembrança do doloroso quadro fez com que Léo sofresse uma leve vertigem.

O rei o observava curioso. Depois de alguns minutos, comentou:

– Se não me disser quantos homens pretende levar, não saberei a quantidade de mantimentos que terei que mandar providenciar para a viagem.

Léo finalmente respondeu:

– Prefiro ir sozinho. Quero apenas um cavalo.

– Mandarei providenciar um cavalo e provisões. Você é corajoso: embora saiba que é uma missão perigosa, não pensa em desistir. Mesmo que você não consiga voltar, sua mãe continuará morando no palácio enquanto viver, e será sempre tratada como uma rainha.

– Obrigado, Majestade.

(No próximo segmento, não perca a 9ª Parte da história “O Lenhador Leonardo e a Árvore Encantada”.)

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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