O PRÍNCIPE GERVÁSIO E A GAIOLA DOURADA (Parte 8)

Minutos depois, Leôncio entrava no quarto de Luísa para perguntar-lhe:

– Ele assinou os documentos?…

Evitando olhar em seus olhos, ela respondeu:

– Não. Cansei de dizer que ele estava apenas nos testando.

– E onde estão os papéis?

– Com ele, é claro; comigo é que não estão.

– Você ainda o odeia, não é verdade?

– Tanto quanto você. Ele é um monstro prepotente!… Quando passei os papéis pelo vão da grade, a sua fisionomia modificou-se… Ele praticamente arrancou os documentos das minhas mãos e recusou-se a devolvê-los.

Ela se sentiu segura, quando Leôncio exclamou:

– Já era de se esperar!… Tudo parecia perfeito demais para ser verdade!

Disfarçando a satisfação que a desesperança de Leôncio lhe proporcionava, Luísa comentou tristemente:

– Não se pode ganhar sempre. Na verdade, neste castelo, não se pode ganhar nunca porque é sempre ele quem escolhe as cartas.

– Não se preocupe; encontraremos um meio de contornar a situação.

Aproveitando-se das palavras de Leôncio, Luísa disse:

– Eu gostaria que encontrasse alguém para pajeá-lo, porque já estou começando a me aborrecer.

– Querida, por favor, seja paciente. Não podemos abandoná-lo antes de conseguirmos que ele assine aqueles papéis.

– Impossível! Ele já deve tê-los rasgado.

– Não; certamente ele desconfia que eu…

Luísa perguntou:

– Ele desconfia de quê?… Por que não continua?… Pensei que não houvesse segredos entre nós.

Sorrindo, ele disse:

– E não há. Procure descansar. Eu a verei amanhã cedo. Durma bem.

Luísa, achando o momento oportuno, chamou-o de volta para dizer:

– A verdade é que eu não quero assumir esse compromisso enfadonho de visitar Sua Alteza todos os dias, porque isso não é tarefa para uma mulher. Muito em breve, ele começará a exigir roupas limpas, baldes de água para banhos… Preso naquela gaiola, ele precisará de ajuda, e certamente não serei eu quem irá ajudá-lo a banhar-se.

– De certo que não. Realmente essa é uma situação que precisamos evitar. À próxima vez que for visitá-lo, faça-o compreender que, se ele não quiser se descuidar de sua higiene pessoal, terá que permitir as visitas de seu antigo camareiro.

Luísa perguntou cautelosa:

– E quanto a você?… Acredita que possa conseguir outro criado tão bom quanto Luciano?

– Qualquer outro seria melhor do que ele; duvido que exista alguém mais insolente!

Luísa não perdeu a oportunidade de dizer:

– Talvez ele esteja aborrecido porque você passou a ocupar o quarto de Gervásio.

Sem alterar o tom de voz, Leôncio exclamou:

– Luciano é intratável!… É ignorante e bajulador!… Está aí um bom castigo para ele: ficar preso naquele salão, cuidando de Sua Alteza!

Luísa não pôde evitar a advertência:

– Cuidado, Leôncio, já ouvi alguém dizer que o poder é um caldeirão de água fervente: cozinha os miolos dos insensatos!

Um olhar de reprovação precedeu as palavras:

– Pare com insinuações, porque não conseguirá me atingir. Sei que não sou um crápula. Preocupo-me apenas com o seu bem-estar e com a nossa felicidade. Agora, vou deixá-la descansar. Boa noite.

(No próximo segmento, não perca a 8ª Parte da história “O Príncipe Gervásio e a Gaiola Dourada”.)

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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