A RAINHA DE ESPERANÇA (Capítulo XXXVII)

Durante o almoço, apesar de ser o alvo do olhar insistente e ameaçador de seu pai, Natanael permaneceu sentado ao lado de Catarina. Ela, por sua vez, sentiu-se constrangida e abandonou a mesa antes de terminar a refeição.

Durval acompanhou-a com o olhar, mas não ousou segui-la.

Para evitar que Natanael também se retirasse, Constância perguntou:

– Eu estou enganada, ou você e Catarina estão namorando?… Onde fica Durval nessa história? Nós nos afastamos apenas por algumas horas e, quando retornamos, a realidade é completamente outra. Eu exijo uma explicação. Quando Licinho convidou-me a visitá-los, expressou o seu desejo de nos ver unidos pelos laços do matrimônio. Eu não compreendo como Catarina pôde se colocar entre nós. Ela não estava noiva de Durval?

Enquanto Natanael deixava a mesa, ele disse:

– Se alguém lhe deve uma explicação, é apenas o meu pai.

Sem esperar pela resposta de Constância, ele se retirou. Ela se ressentiu com a atitude de Natanael e continuou externando sua revolta. Adelaide e Alfredo pareciam ter mais paciência em ouvi-la do que Natália e emitiam alguns comentários.

Durval permanecia calado. Mas, após ter ouvido Constância pronunciar o seu nome uma dezena de vezes, ele acabou dizendo:

– Confesso que também fiquei surpreso com essa reviravolta que houve no coração de Catarina. Embora eu não possa culpá-la por ter deixado de me amar, a decepção é algo difícil de suportar. Eu estou pensando seriamente em voltar para Temperança.

Alfredo não perdeu a oportunidade de dizer:

– O meu convite para levá-lo para Boa-Venturança ainda está de pé. No seu lugar, eu não o recusaria. Constância também poderia acompanhar-nos, uma vez que Natanael parece estar inclinado a casar-se com Catarina.

Constância exclamou:

– Seria bem melhor do que permanecer aqui, observando a atenção que ele dá a ela! É impossível que esse sentimento tenha surgido de uma hora para outra! Como eles conseguiram escondê-lo sem que ninguém percebesse? Eu deveria ter desconfiado!… A minha presença incomodou Catarina, porque ela viu em mim uma rival. Era por esse motivo que ela estava tão calada!…

Alfredo disse:

– Um novo amor cura o antigo desafeto. Veja o lado bom da situação: você não é a única que está com o coração partido.

Após o comentário de Alfredo, Adelaide, alegando cansaço, deixou a mesa e subiu para o quarto.

Natália olhava discretamente para Durval e não conseguia encontrar o que dizer. A situação, além de embaraçosa, era entediante. Inesperadamente, ela teve a ideia de convidá-lo para uma partida de xadrez. Sugeriu:

– Deveríamos ir para a sala de jogos. Talvez, a concentração em uma partida de xadrez os ajudasse a afugentar um pouco a tristeza. Você, Alfredo, poderia tentar vencer Constância. Eu duvido que Durval consiga me vencer.

Alfredo exclamou:

– Excelente ideia!

Depois, voltando-se para o rei Natalício, ele perguntou:

– Gostaria de acompanhar-nos?

– Não, obrigado. Já tive uma manhã muito conturbada; preciso descansar um pouco.

Após terminarem a refeição, os quatro se dirigiram à sala de jogos.

Durval, depois de vencer Natália, levantou-se. Ela protestou:

– Não pense que escapará, assim, tão facilmente. Você trapaceou; duvido que consiga me vencer outra vez. Você nunca me derrotou antes.

Durval sorriu e tornou a sentar-se.

Alfredo disse:

– Durval está numa maré de sorte, e eu numa maré de azar. Constância joga melhor do que eu.

Constância perguntou:

– Deseja jogar novamente?

Ele sorriu antes de responder:

– Não, porque eu odeio perder. Eu gostaria de caminhar um pouco. Você me acompanha enquanto Durval e Natália jogam outra partida?

Após hesitar por um momento, Constância disse:

– Se Natália não se importar.

Sem desviar a atenção do tabuleiro, Natália respondeu:

– Não, Constância, eu não me importo. Por favor, não perturbe a minha concentração, porque não posso perder desta vez.

Quando Alfredo e Constância deixaram a sala, Durval parou de jogar.

Natália exclamou:

– É a sua vez! Vamos, jogue! O que está esperando?!…

Ele disse:

– Não precisamos terminar, porque você certamente vencerá. Eu perco a concentração quando estou perto de você. Eu só venci a partida anterior, porque tive que prestar atenção no jogo para que Alfredo e Constância não desconfiassem que amo você.

Com o olhar colado no rosto de Durval, Natália murmurou:

– Nem pense em levantar e sentar-se ao meu lado, porque estaríamos em apuros se eles retornassem. Agora que você e Catarina terminaram o noivado, o nosso amor fica mais vulnerável. Não, Durval, por favor, permaneça onde estava.

Durval sentou-se ao lado de Natália, abraçou-a e beijou-a ternamente. Quando o beijo terminou, ele disse:

– Não permitirei que se case com Alfredo. Fuja comigo para Temperança. Lá nos casaremos e seremos felizes.

– Alfredo odeia você. Se fugíssemos, ele encontraria uma forma de vingar-se. Tem que haver outro modo. Por que não vamos à biblioteca conversar com Natanael e Catarina?

Eles se beijaram novamente antes de deixarem a sala de jogos. E, quando entraram na biblioteca, entreolharam-se sorrindo, ao presenciarem o beijo que Natanael e Catarina trocavam. Natália fingiu ter esbarrado em uma cadeira, apenas para provocar um leve ruído que os despertasse daquele momento de ternura. Ela se desculpou-se em seguida:

– Gostaríamos que nos perdoassem por vir aqui aborrecê-los, mas dispomos de pouco tempo e precisávamos conversar com vocês.

Natanael perguntou:

– O que houve? Você parece apreensiva.

– Eu estou desesperada, Natan. Prefiro morrer a me casar com Alfredo.

– Onde ele está?… Você se arriscou de vir até aqui, acompanhada de Durval.

– Ele e Constância decidiram caminhar. Em breve, estarão de volta, e a farsa continua.

Natanael, após um momento de reflexão, disse:

– É simples: você só precisa fingir que está doente. Se você permanecer em seu quarto, ele continuará substituindo a sua companhia pela presença de Constância. Se tivermos sorte, os dois se apaixonam, e o problema está resolvido.

Natália perguntou:

– Acredita mesmo que dará certo?

Ele respondeu sorrindo:

– Não. Eu sei que foi uma ideia tola. Precisamos pensar em algo mais consistente.

Durval disse:

– Talvez não seja uma má ideia. Só precisamos evitar que o rei Natalício chame um médico da cidade. Se ele permitir que Gumercindo examine Natália, poderemos convencê-lo facilmente a mentir sobre o estado dela. Eu irei, hoje mesmo no quartel, falar com ele.

Natália completou o raciocínio de Durval:

– Se ele concordar em nos ajudar, eu começarei a fingir a partir de amanhã.

FIM DO CAPÍTULO XXXVII
Sisi Marques

(NO PRÓXIMO SEGMENTO DA HISTÓRIA “A RAINHA DE ESPERANÇA”, NÃO PERCA O 38º CAPÍTULO.)

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
This entry was posted in A RAINHA DE ESPERANÇA. Bookmark the permalink.

Leave a Reply