A RAINHA DE ESPERANÇA (Capítulo XXXIII)

Capítulo XXXIII
Durante o jantar, Constância permaneceu quase o tempo todo calada. Respondia apenas o que lhe perguntavam. Natanael, percebendo sua mudança de atitude, comentou:

– Você parece aborrecida. Aconteceu alguma coisa?

Olhando-o com ternura, Constância respondeu:

– Não. Só estou um pouco cansada. Mas, antes de dormir, ainda quero tocar um pouco.

– É natural que esteja cansada: foram cinco horas de viagem!… Eu me lembro de que você tocava piano muito bem.

O príncipe Alfredo não perdeu a oportunidade de dizer:

– Se o que Natanael diz é verdade, Constância, eu gostaria de ouvi-la tocar.

Após a refeição, todos se dirigiram à sala onde estava o piano. Constância começou a tocar. Durval percebeu que cada nota da canção parecia arrancar um pedacinho do coração de Catarina. Ele a abraçou e, discretamente, convidou-a a ir à biblioteca.

Natanael os seguiu com o olhar.

Minutos depois, Constância parou de tocar. Exclamou:

– Percebo que não estou agradando!… Que tal uma partida de xadrez?…

Natanael, com o pensamento ainda colado em Catarina e Durval, respondeu:

– Não, porque você vence todas.

Enquanto os dois caminhavam para um canto da sala, Constância perguntou:

– O que esteve fazendo durante esses anos todos que ainda não aprendeu a jogar?… Natália joga xadrez muito bem; poderia tê-lo ensinado.

Após um agradável sorriso, Natanael exclamou:

– Você é mesmo impossível!… Parece não ter mudado em nada!

– Lamento não poder dizer o mesmo sobre você. Houve uma época em que eu pensei que o conhecesse tão bem, mas depois o seu coração se fechou para mim. Seja sincero: havia outra garota? Você não pode me negar o direito de saber o que realmente aconteceu.

Natanael confessou:

– Sim, eu me apaixonei.

– Deixe-me adivinhar: esse novo amor também não teve vida longa!… Aí apareceu outro, e mais outro… Cada um deles jurando ser ainda mais verdadeiro do que o anterior. Esse tal de amor é um farsante de múltiplas faces.

– Não. Eu diria que ele é um velhinho sábio que estimula as pessoas a crescerem porque lhes apresenta a vida em dois sabores: ora doce, ora amargo. Depois que se experimenta a parte doce, o gosto persiste, e o lado amargo começa a ser tolerado, porque há sempre a esperança de que ele termine logo e dê lugar a mais um pedacinho doce. Desculpe-me; nem sei por que estou dizendo uma tolice dessas!

– Não é tolice! Eu gostei. Estar aqui e rever você, Natália e o seu pai é como estar vivendo um sonho. Pensei que nunca mais eu fosse ter um momento feliz como este.

Pouco tempo depois, Catarina retornava acompanhada de Durval. Pretendia recolher-se e tencionava despedir-se. Constância comentou:

– Ainda é cedo. Poderíamos conversar um pouco. Eu não estou vendo Natália. Provavelmente ela já se recolheu; se você for, também terei que subir. Fique só mais um pouquinho.

Catarina não se atrevia a olhar para o rosto de Natanael. Sentiu certo alívio quando o príncipe Alfredo aproximou-se para perguntar a Constância:

– Gostaria de me acompanhar amanhã até a cidade? Se depender de Natália, ficarei enclausurado neste palácio. A propósito, Natanael não se enganou quando disse que você tocava muito bem.

Constância respondeu timidamente:

– Obrigada, Alfredo. Você é muito gentil. Se Natanael não se opuser, eu não vejo motivo para não acompanhá-lo.

Natanael apressou-se em dizer:

– Espero que se divirtam.

Depois, endereçando um olhar a Catarina, ele perguntou:

– Gostaria de acompanhá-los? O passeio certamente lhe faria bem. Infelizmente, Durval e eu amanhã estaremos ocupados quase o dia todo.

Constância disse:

– Natanael tem razão: você precisa se distrair um pouco. Você é nossa convidada; terá que aceitar.

Catarina respondeu:

– Eu agradeço o convite, mas prefiro permanecer aqui. Agora eu preciso mesmo subir. Você pode ficar mais um pouco, se desejar.

Com um repentino ar de desencanto, Constância disse:

– Subirei com você. Sono é o que não me falta.

FIM DO CAPÍTULO XXXIII

Sisi Marques

(NO PRÓXIMO SEGMENTO DA HISTÓRIA “A RAINHA DE ESPERANÇA”, NÃO PERCA O 34º CAPÍTULO.)

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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