A RAINHA DE ESPERANÇA (Capítulos XXXI e XXXII)

Capítulo XXXI
Finalmente chegou o dia em que Catarina conheceria Constância. Apesar do que Natanael lhe dissera, uma angústia inexplicável brotava do fundo de seu coração.

Durante a refeição matinal, Natália comentou que Constância chegaria antes do horário do almoço, acompanhada do irmão. As palavras de Natália ainda ressoavam na mente de Catarina quando, da janela do quarto, ela não conseguia desviar a atenção do portão principal que ficava além do quartel.

Os minutos passavam vagarosamente, e Catarina, com o coração estrangulado pelo medo de perder Natanael, impacientou-se e deixou o quarto. Percebendo o quanto era absurdo aproximar de si o momento que mais desejava adiar, ela pediu a um dos criados que lhe selasse um cavalo.

Quando Catarina retornou para o almoço, Constância já havia chegado. Durval, ouvindo o trote do cavalo, deixou a mesa para encontrá-la.

Após ajudá-la a descer, disse-lhe em tom severo:

Que ideia foi essa de sair sem avisar ninguém?… Estávamos todos preocupados.

Com voz melancólica, ela murmurou:

– Aposto que só você estava. Ela já chegou?

– Sim. Está almoçando.

– Eu não posso entrar lá porque não me sinto bem. A minha cabeça está latejando porque o meu coração não para de gritar o nome de Natanael. Sei que, dessa vez, irei perdê-lo. Eu não desejo conhecer a mulher que certamente o roubará de mim. Por favor, leve-me para o sítio.

Abanando a cabeça em sinal de reprovação, Durval disse:

– Percebo o quanto está nervosa. É só por essa razão que não discutirei com você e farei o que me pede. Dê-me só alguns minutos para que eu possa buscar outro cavalo.

Ela murmurou apreensiva:

– Por favor, não demore.

Enquanto Durval foi ao estábulo, Catarina fixou o olhar na direção do quartel. Lembrou-se do quanto estava nervosa no dia em que foi procurar Durval para pedir-lhe que parasse com as reuniões no sítio. Depois, lembrou-se da coragem de Durval em atravessar o pátio e entrar no palácio para, mais uma vez, enfrentar a tirania da rainha Adelaide. Na tela de sua imaginação, Catarina se via, novamente, de mãos dadas com Durval, atravessando o pátio e entrando no palácio: ela, uma escrava semiliberta; ele, um pobre soldado!…

Durval resgatou-a de seus pensamentos quando disse:

– Cheguei. Demorei muito?

Cavando o olhar de Durval para extrair coragem, Catarina disse com voz ofegante:

– Segure a minha mão; resolvi entrar.

Um sorriso iluminou o rosto de Durval.

FIM DO CAPÍTULO XXXI

Sisi Marques

A RAINHA DE ESPERANÇA (Capítulo XXXII)
Quando Catarina e Durval entraram na sala de refeições, Natanael perguntou com amabilidade:

– Por que demoraram tanto?!… Eu já estava pensando em sair para buscá-los.

Depois de apresentar Catarina a Constância, Natanael disse:

– Sentem-se. Mandarei servir-lhe outro prato, Durval, porque sua refeição deve ter esfriado.

Constância perguntou a Catarina:

– Você sempre cavalga antes das refeições?

Sem dar tempo a Catarina para responder, Constância acrescentou:

– Durval falou muito bem de você. Há quanto tempo se conhecem?

Essa pergunta também ficou sem resposta porque Natanael, percebendo o acanhamento de Catarina, disse a Constância:

– Pare de bombardear Catarina com perguntas! Vocês terão muito tempo para se conhecer. Fale-me sobre o seu irmão: por que ele não quis ficar?

Constância suspirou tristemente antes de responder:

– Rubinho teria aceitado o convite, se não estivesse tão sobrecarregado ultimamente.

Dessa vez, foi Adelaide quem perguntou:

– É ele quem está auxiliando o seu pai a tocar os negócios?

– Sim. Atualmente está difícil encontrar alguém em quem se possa confiar. Papai já foi passado para trás uma vez; é por esse motivo que Rubinho prefere cuidar de tudo pessoalmente.

Logo em seguida, voltando-se para Natália, Constância disse:

– Vamos, Natália, fale-me sobre você e seu noivo! Você não quis ficar para titia como eu. Eu já tenho dois sobrinhos, um casalzinho de gêmeos: Rubinho e Laurinha. Ele tem o nome do pai; ela, o nome da mãe.

Catarina animou-se a perguntar:

– As crianças são de colo?

– Não; já estão com quatro anos!… Sentirei saudades deles enquanto estiver aqui. Você não tem parentes?

– Não. Mas tenho um amigo que é como se fosse.

Catarina olhou para Durval, e Constância compreendeu o que ela quis dizer. Exclamou:

– É mesmo um alívio saber que o amor não caiu de moda. Vocês dois se parecem. Já ouvi dizer que o casamento tem tudo para dar certo quando os noivos se parecem.

O rei Natalício aproveitou-se do silêncio de Catarina para perguntar a Constância:

– E o seu pai?… Imagino que o velho Constâncio tenha demorado muito para se conformar com a viuvez. Foi mesmo uma pena ele estar viajando, quando passei para visitá-los.

– Ah, Licinho, até hoje todos nós ainda sofremos com a ausência de mamãe!…

Apesar da tristeza que as palavras de Constância transmitiam, o rei Natalício comentou satisfeito:

– Você não se esqueceu do apelido!

– Como poderia?!… Espero que não se importe que eu continue a chamá-lo assim.

Constância explicou a Catarina:

– Quando eu era bem pequena, já gostava desse reizinho brincalhão; mas, como eu ainda não conseguia falar o nome dele, eu o chamava de “Lício”. Depois, com o tempo, comecei a chamá-lo de “Licinho”. Diga a verdade: já viu um rei mais charmoso?…

Depois, fitando o rosto de Natanael discretamente, Constância comentou:

– Igual a ele só haverá mais um.

Após o almoço, Catarina recolheu-se e pretendia passar a tarde toda trancada no quarto. Pouco lhe importava o que estivesse acontecendo fora daquelas paredes. Ela estava deitada, quando ouviu a voz de Constância chamando-a do lado de fora da porta.

Catarina abriu a porta e deixou-a entrar. Perguntou:

– O que deseja?

Com um sorriso franco, Constância respondeu:

– Vim saber se você gostaria que eu lhe fizesse um pouco de companhia. Eu prefiro ficar aqui, com você e Natália, em vez de ocupar um quarto próximo ao de Adelaide. Ela é tão enfadonha! Eu morreria de tédio se ela fosse me visitar!

Aproximando-se da janela, Constância perguntou:

– Você é sempre tão calada? Espero não estar aborrecendo você. Pareço estar sonhando!… Nunca imaginei que este dia fosse chegar!…

FIM DO CAPÍTULO XXXII
Sisi Marques

(NO PRÓXIMO SEGMENTO DA HISTÓRIA “A RAINHA DE ESPERANÇA”, NÃO PERCA O 33º CAPÍTULO.)

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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