A RAINHA DE ESPERANÇA (Capítulos XXVIII, XXIX e XXX)

Capítulo XXVIII
No dia seguinte, ao sentar-se à mesa para almoçar, Catarina ressentiu-se com a ausência de Durval. Ela já não tivera a oportunidade de encontrá-lo durante a refeição matinal, e imaginou que o rei Natalício o havia proibido de acompanhá-los às refeições.

Catarina não se enganara. Ela passou o dia todo sem conseguir ver Durval. Ele não compareceu ao encontro habitual na biblioteca. E, no horário do jantar, ele também estava ausente. Entristecida, ela deixou a mesa e foi sentar-se em um sofá próximo à janela.

Natanael acompanhou-a com o olhar. Não conseguindo mais conter-se, ele também abandonou a refeição e foi sentar-se ao seu lado. Disse:

– Eu sinto muito. Acredite-me: foi difícil convencer o meu pai a não demiti-lo. Ele continua sendo meu conselheiro, mas deverá dormir e fazer as refeições no quartel, com os outros soldados.

Catarina murmurou:

– Obrigada. Eu tive receio de que o seu pai o tivesse expulsado. Eu preciso encontrar um modo de vê-lo.

– Você poderá ir ao meu escritório quando estivermos trabalhando. Por que não termina a refeição? Precisa se alimentar.

– Não tenho fome. É melhor você voltar a sentar-se à mesa para evitar comentários. Não se preocupe comigo; eu ficarei bem.

– Eu lhe prometo que tornarei a falar com o meu pai esta noite e insistirei até cansá-lo, para que ele restitua a Durval os privilégios que eu concedi. Ele há de ceder.

Catarina parecia hipnotizada pelo olhar de Natanael enquanto ele dizia:

– Ontem, você não desceu para o jantar, e eu não tive a oportunidade de lhe dizer: o meu compromisso com Adelaide está desfeito.

– Eu soube através de Durval. Depois que eu li um pouco para o seu pai, ele me acompanhou à cozinha e contou-me sobre a discussão que você e a rainha Adelaide tiveram.

FIM DO CAPÍTULO XXVIII
Sisi Marques

A RAINHA DE ESPERANÇA (Capítulo XXIX)
Naquela mesma noite, Natanael, como prometera a Catarina, foi ao quarto de seu pai para dizer:

– O senhor terá que retirar as proibições que impôs a Durval.

Já deitado e demonstrando estar com muito sono, o rei Natalício afirmou:

– O assunto já está encerrado. Vá para o seu quarto e me deixe dormir.

Fingindo ignorar as palavras de seu pai, Natanael insistiu:

– O assunto terá que ser revisto, uma vez que desagrada a Catarina profundamente.

Percebendo que Natanael não parecia disposto a desistir facilmente, o rei Natalício sentou-se recostado à cabeceira da cama, enquanto dizia:

– Embora me alegre muitíssimo o seu interesse belo bem-estar de Catarina, gostaria que deixasse esse assunto por minha conta. Você deve sim é se preocupar com a chegada de sua futura noiva. Ficará feliz ao revê-la… Parece um anjo de tão bela!

Natanael sentou-se em uma poltrona e, olhando fixamente para o rosto de seu pai, disse:

– Não estou interessado em Constância. Só sairei daqui depois que o senhor reconsiderar a situação de Durval.

– Você é mesmo um mal-agradecido! Pode passar a noite toda aí sentado se desejar, porque eu dormirei bem do mesmo modo.

Acreditando que Natanael, tão logo se cansasse, acabaria desistindo; o rei Natalício tornou a deitar-se, apagou a vela que havia sobre o criado-mudo e adormeceu. Enterneceu-se, porém, quando, ao acordar pela manhã, encontrou Natanael exatamente como o deixara na véspera, vencido pelo cansaço, dormindo desconfortavelmente.

Ouvindo a voz de seu pai, que o chamava insistentemente, Natanael acordou assustado e, a princípio, não compreendeu o que fazia ali, sentado no quarto de seu pai.

O rei Natalício disse:

– Ainda é cedo; vá para o seu quarto e descanse por algumas horas. Você é tão teimoso quanto eu! Aquele moço poderá voltar a residir no palácio. Deixe que eu mesmo irei ao quartel dar a notícia a ele.

Natanael, agradecido, abraçou seu pai e beijou-lhe o rosto.

FIM DO CAPÍTULO XXIX
Sisi Marques

A RAINHA DE ESPERANÇA (Capítulo XXX)

Poucas horas depois, antes mesmo que Natanael tivesse conseguido refazer-se da noite mal dormida, Durval já conversava com Catarina na biblioteca. Natália, aparentemente ignorando a presença de Catarina e Durval, entrou conversando com o príncipe Alfredo sobre Constância.

Aborrecida com o que ouvia, Catarina preferiu deixar a biblioteca. Durval não a seguiu porque, no momento em que se preparava para sair, o príncipe Alfredo disse que precisava falar-lhe.

Catarina não se encorajou a esperá-lo porque as lágrimas já começavam a trair o seu amor por Natanael. Ela apertou o passo para que não a vissem chorando; entretanto, surpreendeu-se ao avistar Natanael no alto da escada. Embora passar por ele tivesse levado apenas poucos segundos, Catarina pôde contemplar o seu olhar apaixonado e sentir o seu perfume. Amava-o, amava-o como jamais sonhou que pudesse amar alguém, e o preço que pagava por esse sentimento era uma angústia insuportável. Preparava-se para entrar no quarto, quando se lembrou de que ainda não havia lhe agradecido. Tornou a descer e foi encontrá-lo no jardim. Disse:

– Perdoe-me a indelicadeza: cumprimentei-o simplesmente e não lhe agradeci por ter conseguido convencer o seu pai a aceitar a presença de Durval no palácio. Obrigada.

Natanael comentou:

– Pela expressão em seu rosto quando nos encontramos há pouco, imaginei que você ainda não soubesse. Pretendo caminhar um pouco; gostaria de acompanhar-me?

Catarina hesitou por um momento; mas depois acabou aceitando o convite. Enquanto caminhavam, ela perguntou receosa:

– Quem é Constância?… Enquanto eu conversava com Durval na biblioteca, Natália entrou dizendo ao príncipe Alfredo que era do agrado de seu pai que você se casasse com ela. Eu não compreendo!…

Abanando a cabeça, Natanael murmurou:

– Se eu não lhe disser, Natália e Constância acabarão lhe dizendo. Quando éramos crianças, nossas famílias costumavam visitar-se com certa frequência. Brincávamos juntos: ela e o irmão, Natália e eu. Quando ficamos um pouco mais crescidos, eu com catorze, e ela doze, juramos que nos casaríamos. Ela foi minha primeira namorada: um namoro inocente que durou cerca de dois anos.

Com a voz entrecortada, Catarina aventurou-se a perguntar:

– Se era tudo tão perfeito, por que terminou?

Parando por um instante e se permitindo olhar em seus olhos com ternura, Natanael prosseguiu:

– Certo dia, acompanhei o meu pai em uma viagem a um castelo. Após o jantar, uma garota muito tímida chamou a minha atenção quando entrou na sala para retirar os pratos e os talheres da mesa. Houve um breve momento em que ela olhou para mim. Naquele instante, o que eu sentia por Constância perdeu-se por completo no esquecimento. Com o passar dos anos, nossas famílias foram se afastando, e o juramento que fizemos um ao outro também foi esquecido. Foi você Catarina quem me fez esquecer Constância.

Os dois ainda estavam muito próximos ao palácio para que Natanael se permitisse beijá-la. Eles continuaram caminhando em silêncio e quando perceberam que não havia ninguém que pudesse presenciar o beijo, eles se abraçaram e se beijaram carinhosamente.

Após o beijo, ainda abraçada a Natanael, Catarina murmurou:

– Eu deveria ser mais forte. Não deveria permitir que o nosso amor me envolvesse. Ainda estou noiva de Durval, e o seu pai insistirá para que você se case com Constância.

Natanael encorajou-se a dizer:

– Se você desistir do seu romance com Durval, não haverá motivo para que eu me case com Constância.

Catarina disse:

– Você não compreende. Durval sempre me protegeu, e talvez tenha chegado o momento de eu retribuir.

– Sacrificando o nosso amor ao casar-se com ele?

Ela exclamou docemente:

– Não!… Eu jamais desistiria de você!… Durval sabe que eu só aceitaria casar-me com ele depois que você estivesse casado. Além disso, não é a mim que ele ama e sim Natália. Pobrezinha!… Ela deve pensar que sou insensível ao seu sofrimento, mas isso não é verdade. Mesmo que o seu pai o obrigasse a se casar com Constância, se Natália conseguisse se desvencilhar do compromisso com o príncipe Alfredo, eu libertaria Durval para que ele pudesse ser feliz ao lado dela.

Surpreso com a revelação de Catarina, Natanael preferiu calar-se em vez de desperdiçar aquele momento tão precioso. Ele a envolveu com seu doce olhar, e eles se beijaram novamente antes de retornarem ao palácio.

FIM DO CAPÍTULO XXX

Sisi Marques

(NO PRÓXIMO SEGMENTO DA HISTÓRIA “A RAINHA DE ESPERANÇA”, NÃO PERCA O 31º CAPÍTULO.)

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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