A RAINHA DE ESPERANÇA (Capítulo XXVII)

Na manhã seguinte, Catarina saiu para cavalgar na companhia de Durval. Ela estava triste e passou a maior parte do tempo calada.

À tarde, Durval surpreendeu-a chorando na biblioteca. Ele sentou ao seu lado, abraçou-a e disse para reanimá-la:

– Por que não confessa que só chora para ganhar carinho?… Aposto que está fazendo um dramalhão por nada!

Catarina, navegando em seus olhos para ganhar coragem, murmurou:

– Talvez o meu lugar seja mesmo ao seu lado e não aqui. Mas para onde iríamos depois que nos casássemos?!… Eu não quero ir para Esperança, porque não suportaria ver Natanael ao lado da rainha Adelaide. Embora eu não confie no príncipe Alfredo, gosto de Natália. Mas também não poderíamos pensar em acompanhá-los porque Natália não suportaria ver você ao meu lado.

– Pare de se preocupar. Confie em mim: tudo acabará bem.

– Como posso parar de me preocupar quando estamos cercados de raposas?!… O rei Natalício não se simpatiza com você e o manteria afastado, se pudesse. O príncipe Alfredo o admira e o teme; ele nutre o desejo sombrio de tolher as suas asas para poder manipulá-lo. A rainha Adelaide o ama e o odeia; ela desistiria de seu compromisso com Natanael se você…

Durval interrompeu Catarina quando perguntou:

– Você não está sugerindo que eu me aproxime de Adelaide?

– Não, Durval; é claro que não!… Eu quero me casar com você. Embora você esteja cercado de inimigos poderosos, eu me sinto tranquila ao seu lado. A sua presença passou a ser uma necessidade.

– Não precisa mentir para mim. Eu sei que está se sentindo infeliz e insegura. Contudo, deve haver uma solução melhor do que eu me transformar em um fantoche nas mãos de Adelaide.

– Poderíamos ir para o lugar que você mencionou outro dia.

– Temperança?… Não!… Só estaríamos fugindo!… A distância não conseguirá afastar Natanael do seu coração.

– Eu terei que esquecê-lo, porque em breve ele estará casado com a rainha Adelaide. A proximidade do casamento de Natália com o príncipe Alfredo não o assombra?

– Eu vivo o presente e raramente me preocupo com o futuro.

– Agora é você quem está mentindo. Eu sei que você a ama.

Durval e Catarina tiveram que interromper o assunto, porque Natália entrou na biblioteca para convidá-los para o jogo de cartas.

Adelaide, ao ver Catarina entrar timidamente na sala de jogos, arremessou-lhe o comentário:

– Se não sabe jogar, por que veio? Apenas Durval deveria ter sido convidado. Não precisa se preocupar porque ninguém aqui tem a intenção de roubar-lhe o noivo. Deixe que ele se divirta um pouco.

Catarina, apoiando-se no olhar de Durval, respondeu pacientemente:

– Não pretendo atrapalhar o jogo. Eu ficarei apenas observando.

O rei Natalício, levantando-se de improviso, aproximou-se de Catarina para abraçá-la. Disse:

– Ignore Adelaide, porque ela está sempre emaranhada nas teias do sarcasmo e da inveja. Gostaria de ler para mim enquanto eles estiverem jogando?

Natanael e Durval entreolharam-se no momento em que viram Catarina deixar a sala acompanhada de Natalício.

Foi Natália quem disse:

– Não precisa se preocupar com Catarina, porque o meu pai não pretende raptá-la. Você vai jogar ou não, Durval?

Durval sentou-se à mesa. Adelaide, com a visível intenção de provocá-lo, disse a Natália:

– Nunca se sabe! Na verdade, não foi temendo uma guerra que o seu pai quis fazer a aliança com o meu reino, e sim porque acalentava o sonho de libertar Catarina.

Natanael, que nem chegara a sentar-se, disse em tom enérgico:

– Será que não percebe que a sua presença é tóxica?!… Não sei onde eu estava com a cabeça quando concordei com o meu pai em fazer essa maldita aliança!… Estou farto de suas provocações!… Já engoli mais desaforos do que poderia digerir. Acabou. Volte para o seu reino e faça como bem entender. Prefiro lutar contra você uma vez a ter que suportá-la a vida inteira!

Com uma expressão estranha no rosto, Adelaide respondeu:

– Ninguém me expulsa de lugar algum.

– Há sempre uma primeira vez. Não estou disposto a continuar tolerando os seus desacatos e as suas insinuações. Se espera continuar hospedada nesta casa, terá que aprender a respeitar os que estão ao seu redor.

Adelaide, apenas para desarmá-lo, exclamou:

– Você é ainda mais hipócrita do que o seu pai!… Se a integridade e o respeito estão acima de tudo, por que não diz a Durval que só o promoveu interessado em manter a noiva dele ao seu lado?!…

Adelaide fixou o olhar no rosto de Durval, esperando que ele reagisse às suas palavras. Observando que ele preferira calar-se, ela prosseguiu destilando mais veneno:

– Ou talvez ele até mesmo já soubesse; porque tamanha generosidade não poderia vir tão desinteressadamente!… Pensa que sou tola, Natanael?!… Catarina pode não ter reparado no modo insistente e audacioso que você sempre olhou para ela, porque ela não se atrevia a olhar para o seu rosto. Mas, antes mesmo de iniciarmos essa nossa farsa de noivado, eu já havia percebido que você estava interessado em Catarina. Negue, se puder.

Com voz branda, permitindo-se navegar entre a verdade e a mentira, Natanael respondeu:

– Não negarei, porque é mesmo verdade. Apaixonei-me por Catarina desde o instante em que a vi e, a partir desse momento, comecei a sofrer calado. Ela não suspeita que a amo. Durval também não poderia ter adivinhado… Está tão surpreso quanto Alfredo e Natália.

Moderando o tom de voz, Adelaide comentou:

– Está mentindo outra vez, porque Natália é sua cúmplice. Ouça o que vou lhe dizer: a verdade logo aparecerá, e você será o primeiro a se voltar contra o seu pai. É nesse momento que a minha presença, embora indesejável agora, poderá lhe ser de grande valia.

Depois de beijar-lhe o rosto numa demonstração de amizade, Adelaide retirou-se, deixando-lhe as palavras:

– Agora que o nosso compromisso terminou, talvez possamos voltar a ser amigos.

Natanael, mesmo ao vê-la sair, teve que conter o nervosismo ao perceber que Alfredo o observava curioso.

Durval também parecia desarmado. Não encontrava o que dizer, ou talvez temesse dizer algo que o comprometesse ainda mais. Deixou a sala sem pedir licença e foi procurar Catarina.

Ao entrar na sala principal, ele ficou encantado ao ouvir parte da história que ela estava lendo.

Quando o capítulo terminou, Catarina desculpou-se com o rei Natalício e fechou e livro. Aproximando-se de Durval, ela disse:

– Por mais que eu me esforce, não consigo calar os pensamentos. Gostaria que pudéssemos conversar. Você me ajudaria a preparar um chá? Preciso beber algo que me faça dormir.

O rei Natalício deteve-se por um momento a contemplá-los, e aproveitou a ocasião para dizer:

– Embora ninguém tenha me perguntado nada a esse respeito, gostaria que soubessem que não aprovo esse namoro. Catarina acabou de sair de uma escravidão e está prestes a entrar em outra. Sim, porque, se continuarem insistindo nessa união, fecharei todas as portas, e vocês terão que se sujeitar a uma vida de privações. É evidente que nenhum de nós quer algo tão desastroso!…

Catarina, atordoada com o que acabara de ouvir, fitou o olhar altivo de Durval. Novamente ele preferiu se calar. De que serviria trocar palavras ásperas e estéreis com o rei
Natalício?!…

Durval abraçou Catarina antes de dizer:

– Venha, amor; eu prepararei o seu chá.

Minutos depois, Natanael entrava na sala e ficou decepcionado ao encontrar o seu pai sozinho. Perguntou:

– Durval e Catarina estão na varanda?

O rei Natalício, revelando sua contrariedade, respondeu:

– Não. O insolente a acompanhou à cozinha. Você agiu muito mal em ter permitido essa aproximação.

– Pai, há algo que preciso lhe dizer: rompi com Adelaide.

Natanael concentrou sua atenção nos desenhos do tapete, aguardando resignado a chuva de reprovações que cairia sobre ele. Alegrou-se, porém, no momento em que sentiu um leve tapa nas costas, acompanhado das palavras:

– Meus parabéns! Agora posso dizer que o meu filho tornou-se um homem. Vamos beber e brindar a isso!

Natanael, intrigado, não conseguiu refrear o comentário:

– O senhor me surpreende! Imaginei que ficaria furioso.

– Infelizmente nem tudo nessa vida pode ser explicado. Esse casamento não poderia mesmo realizar-se. Eu só estava esperando que Adelaide livrasse Catarina de suas garras. Agora cuidaremos para que a menina encontre um rapaz digno; ela merece ser feliz.

– Ela já está comprometida com Durval.

– Ela estava comprometida! E por um descuido seu! Corrigiremos também esse equívoco. Ouça, não há motivo para continuarmos escondendo isso de você: Alfredo quer esse homem atrás das grades. Ele afirma ter uma acusação muito séria contra ele.

– Que acusação é essa?

– Eu não sei; ele não disse. Também, não me dei ao trabalho de perguntar, porque não me pareceu novidade. Sempre suspeitei que esse moço não valesse nada. É por esse motivo que o quero bem longe de Catarina.

Colocando o braço ao redor dos ombros de Natanael e oferecendo-lhe uma dose de conhaque, o rei Natalício disse:

– Tenho uma surpresa para você: no caminho de volta para cá, passei na casa de Constância para visitá-la e convidei-a a passar alguns dias conosco para que ela pudesse assistir ao casamento de Natália. Ela aceitou o convite, e o que é melhor: continua solteiríssima e apaixonada por você.

– Pai, isso é impossível! Já faz tanto tempo… Éramos crianças!

– E continuam sendo! Dê-me um abraço.

Natanael abraçou-o e não se encorajou a falar sobre o seu amor por Catarina.

FIM DO CAPÍTULO XXVII

Sisi Marques

(NO PRÓXIMO SEGMENTO DA HISTÓRIA “A RAINHA DE ESPERANÇA”, NÃO PERCA O 28º CAPÍTULO.)

Grata,
Sisi Marques

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Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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One Response to A RAINHA DE ESPERANÇA (Capítulo XXVII)

  1. THAINA says:

    Nossa prof essa história está muito linda e legal…parabéns e continue assim bem inspirada na hora de escrever as histórias e os poemas……..

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