O LENHADOR LEONARDO E A ÁRVORE ENCANTADA (Parte 7)

Léo sentou-se no tronco e começou a observar o machado. Sentiu mais uma vez pena da pobre velhinha ao pensar que ela só podia estar caducando. Contudo, ele, de repente, se viu diante de um pequeno problema: o que faria com aquele machado?

Não poderia entrar com ele no palácio, nem tampouco deixá-lo em sua antiga casa, uma vez que os guardas do rei haviam confiscado seus outros machados. Deixá-lo em sua casa seria o mesmo que assinar sua ordem de prisão. Teria que abandoná-lo ali mesmo.

Léo largou o machado e pôs-se novamente a caminho do palácio. Só que não deu nem dez passos e voltou para apanhá-lo. Não poderia deixá-lo ali; afinal de contas, tinha sido um presente. Pensou, pensou, até que resolveu que o melhor seria enterrá-lo perto da arvorezinha.

Quando nossa amiguinha o viu retornando, exclamou aborrecida:

– Não pense que conseguirá me convencer a ajudá-lo com o poema!…

Léo perguntou distraído:

– Poema?…

– O poema para a princesa!…

– Não. Eu já nem estava mais pensando nisso. Gostaria de pedir-lhe que tomasse conta deste machado para mim.

– Machado?!… Você sabe que odeio machados!… Além disso, não vejo como poderei guardá-lo.

– Não precisa se preocupar. Vou enterrá-lo bem ao seu lado, para depois poder me lembrar de onde o deixei.

– Pensei que tivesse desistido de ser lenhador…

– E desisti.

– E para que, então, acredita que um dia precisará de um machado?

– Talvez eu nem venha a precisar. Só o estou guardando porque foi presente de uma pobre velhinha.

– E por que ela lhe deu esse machado?

– Também não sei ao certo. Ela parecia meio maluca.

– Aproxime-o do meu tronco para que eu possa vê-lo melhor; mas, por favor, tenha cuidado para não me ferir. Eu já lhe disse que machados me dão calafrios?!…

Léo sorriu. Estava satisfeito porque a arvorezinha se interessara pelo presente que ele havia recebido. Entretanto, ao aproximá-lo dela, ele teve uma visão que o deixou estarrecido. Léo caiu de joelhos e quase se feriu com o machado.

A arvorezinha, pensando que ele tivesse apenas escorregado, perguntou preocupada:

– Você se machucou?!… Não deveria ser tão descuidado!…

Léo olhava para ela, sem saber o que dizer. O machado era mesmo encantado! E o pior de tudo era que ele havia prometido à velhinha que não contaria a ninguém o que o machado revelasse. Mas como poderia ficar calado diante do que acabara de ver?!…

Seu coração se contorcia de dor. Ainda ajoelhado, ele cobriu o rosto com as mãos para que a arvorezinha não percebesse que ele estava chorando.

Ela perguntou nervosa:

– Por que não me diz o que está doendo?!… Eu sei o que é sentir dor… Certo dia, um pica-pau apareceu por aqui e, apesar dos meus protestos, deu-me uma tremenda de uma bicada que eu quase enlouqueci de tanta dor.

Léo levantou-se e, abraçando a arvorezinha, deu vazão ao choro. Ela permaneceu em silêncio por alguns instantes, mas depois disse:

– Se não parar com isso, irá me fazer chorar também…

Léo respondeu comovido:

– Por favor, não chore. Eu já estou indo.

– Não vai enterrar o machado?

Léo ficou indeciso. E a arvorezinha, desconfiada, voltou a interrogá-lo?

– Por que não me diz o que está acontecendo?!… Você está tão estranho!

Ele respondeu tristemente:

– Eu não sei. Mas prometo-lhe que, custe o que custar, irei descobrir. Pensou na minha proposta de plantá-la no jardim do palácio? Eu não gostaria de deixá-la aqui sozinha.

– Você não desiste mesmo!… A resposta é não; prefiro continuar aqui.

– Não me obrigue a levá-la à força.

– Você não se atreveria…

– Talvez sim. Preciso pensar a respeito.

– Tem mesmo certeza de que está se sentindo bem?!…

– Para ser franco, estou me sentindo como nunca me senti antes. Minha cabeça parece que vai estourar; já não consigo mais coordenar os pensamentos. Preciso ir, mas pode ficar tranquila que voltarei o mais depressa que puder.

– Prefiro que não volte, porque cada vez fica mais difícil vê-lo partir. Antes de conhecê-lo, eu não sabia o que era a solidão, mas agora sinto-me tão sozinha!….

– Você me ama?

– O que foi que disse?

– Perguntei se você me ama.

– Sabe que não deveria me fazer esse tipo de pergunta!…

– Estou esperando…

– O quê?…

– A resposta. Preciso saber.

– Pensei que já soubesse.

– Quero ouvi-la dizer.

– Sim, eu te amo.

– Eu também te amo.

– Léo, você enlouqueceu de vez! Sou uma árvore!

– A mais adorável de todas!

Léo enterrou o machado, despediu-se da arvorezinha e partiu novamente em direção ao palácio. Sua cabeça mais parecia um vulcão prestes a entrar em erupção.

Ele sentiu certo alívio quando avistou o palácio, porque, durante o caminho, pensou várias vezes que não conseguiria chegar. Ele tinha a certeza de que estava ardendo em febre.

(No próximo segmento, não perca a 8ª Parte da história “O Lenhador Leonardo e a Árvore Encantada”.)

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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