O LENHADOR LEONARDO E A ÁRVORE ENCANTADA (Parte 6)

Mais três dias se passaram sem que Léo conseguisse inspiração para escrever o poema. Ele resolveu ir visitar a arvorezinha para pedir-lhe ajuda.

A arvorezinha ficou muito feliz ao vê-lo. Mas, quando soube o verdadeiro motivo de sua visita, disse profundamente magoada:

– Você deve ser o mais insensível dos homens! Não percebe que não posso ajudá-lo?!

Ele insistiu:

– Por favor, tente. Preciso escrever algo.

– Procure pensar nela e escreva.

– Já tentei; é como se minha mente se esvaziasse.

– Então, pense em mim e escreva.

– Não posso; se fizesse o poema pensando em você, a princesa pensaria que estou apaixonado por ela. Teria que ser algo mais frio, mais distante…

– Então, pense em uma mosca e escreva!

Léo começou a rir e disse:

– Até que não é má ideia. Sabe que eu gostaria que a princesa fosse uma mosca, e você uma moça…

– Pare de dizer bobagem! Talvez a princesa seja uma boa moça. Eu não deveria ter dito para que pensasse em uma mosca. Agora eu sei como é uma moça; e as moças não têm nada a ver com as moscas. A moça que esteve aqui era muito bonita.

– Como sabe que era uma moça?…

– Ela disse que era.

– Vocês conversaram?… Sabe que não deveria conversar com estranhos; pode ser perigoso.

– Ela parecia muito boazinha. Léo, é melhor você ir. Se alguém ficar sabendo sobre nós, mandará me derrubar. Já é difícil ficar com os pés, quero dizer, com as raízes presas ao chão; mas ficar tombada sem raízes deve ser ainda pior. Por favor, vá embora! Quanto ao poema, escreva-o pensando em mim; tenho a certeza de que a princesa irá apreciá-lo.

– Você não deveria falar assim; sei que está sofrendo.

– Sofrerei ainda mais, se nossos caminhos não se separarem. Ajude-me a esquecê-lo. Por favor, não volte.

Léo calou-se e começou a caminhar a passos lentos em direção ao palácio. No caminho, encontrou uma velhinha que fazia um esforço enorme para derrubar uma árvore menor do que ela.

Ao presenciar a cena, Léo experimentou uma confusão de sentimentos em relação à pobre velhinha: pena e indignação. Pena, porque a velhinha era frágil demais para manejar o machado; e indignação, porque era uma covardia pensar em abater uma árvore tão pequena. Léo não sabia dizer de quem sentia mais pena: se era da velhinha ou da árvore, porque ambas pareciam indefesas. Aproximando-se, ele perguntou à velhinha:

– Acha mesmo necessário derrubar essa árvore?

– Preciso de lenha para cozinhar.

– Poderia aproveitar aquele tronco abandonado.

– Se eu não soubesse quem você é, diria que está tentando proteger esta árvore. Mas lenhadores não se importam que derrubem árvores.

– Não sou mais um lenhador; agora sou poeta.

– Sabe que é apenas por esse motivo que terá que se casar com a princesa? Enquanto você era lenhador, o rei não aprovava o casamento.

– Está dizendo que, se eu voltar a ser lenhador, o rei desistirá da ideia de casar-me com a princesa?

– Não é tudo tão simples porque sua mãe está no palácio, e a princesa poderia querer vingar-se.

– A princesa ou o rei?

– Ouviu muito bem o que eu disse.

Aproximando-se do tronco, a velhinha resmungou:

– Como posso transformar esse tronco em lenha, se já não tenho mais força nos braços?

– Seria um prazer ajudá-la. Dê-me o machado.

Léo arregaçou as mangas da camisa, e estendeu a mão esperando que a velhinha lhe entregasse o machado. Entretanto, ficou confuso quando ela disse:

– Não pensou que eu fosse deixá-lo estraçalhar esse tronco!… Deixe-o como está; enfeita a paisagem. Eu também não pretendia derrubar aquela árvore. Para falar a verdade, eu só estava aqui, esperando você passar, para poder lhe dar um presente: pegue este machado; vamos, é seu.

– Agradeço o presente, mas não posso aceitá-lo.

– Não é nada gentil recusar um presente.

– Eu não preciso mais de machados. É mais provável que a senhora venha a precisar dele.

– Rapaz, tenho muitos machados iguais a este. Pegue-o; não me fará falta. Contudo, devo alertá-lo de que este não é um machado comum, porque ele não foi feito para destruir. Sua única função é mostrar a verdade escondida por trás das aparências. Há apenas uma recomendação: não conte a ninguém o que ele lhe mostrar. Tem que prometer que guardará segredo de tudo o que vier a saber por intermédio dele. Você promete?

Léo, embora não acreditasse em nada do que a bondosa senhora lhe dizia, preferiu não contrariá-la. Prometeu que seguiria suas instruções e agradeceu-lhe o presente.

Ela, por sua vez, afastou-se satisfeita.

(No próximo segmento, não perca a 7ª Parte da história “O Lenhador Leonardo e a Árvore Encantada”.)

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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