FLÁVIA E DOUGLAS (Capítulo XXXI)

Quando Hortência chegou de viagem e deu pela falta de Lucas, ficou desesperada. Telefonou para Augusto e disse entre lágrimas:

– Aquele desgraçado me deixou!…

– Hortência, por favor, acalme-se.

– De que jeito?!… Aposto que ele resolveu ir morar com aquela mulherzinha!…

– Não acredito nisso.

– Você não perde mesmo a mania de ficar defendendo aquela ordinária!…

– Por favor, controle-se; você está muito nervosa! Quer que eu vá até aí?

Cerca de meia hora depois, Augusto chegava ao apartamento de Hortência. O estado em que ela se encontrava era deplorável: chorara muito, e o desespero ainda não a havia abandonado. Ele mal entrou e a ouviu dizer:

– Fui mesmo uma idiota! Se eu soubesse o que aquelas duas raposas estavam tramando, eu não teria me afastado, facilitando tudo!…

– Procure entender: a saída de Lucas deste apartamento era inevitável.

– Aqueles dois devem estar agora rindo de mim. Lucas não tinha o direito de fazer isso comigo!… Aposto que foi ideia dela!

– A decisão deve ter partido de Lucas, e você tem que respeitá-la.

– Não!… Na segunda-feira, ele receberá o troco.

– O que pretende fazer?

– É problema meu.

– Fará um escândalo na sala de Flávia?!… Aí sim todos rirão de você.

– De mim ou de Flávia?!…

– De você, porque não deve existir uma só pessoa naquela empresa que ainda não tenha visto Lucas e Flávia juntos, e todos já devem ter percebido que os dois se amam. Hortência, você está lutando por uma causa perdida: o seu casamento com Lucas terminou.

– Ah, isso parece mais um pesadelo!… Se eu concordar com a separação, estarei dando a Lucas a oportunidade de recomeçar; mas, e quanto a mim?!…Nunca pensei que um dia teria que me acostumar a viver sem ele. Era ele quem deveria me dar uma nova oportunidade; juro que eu me esforçaria ainda mais para fazê-lo feliz.

– Você vê o seu casamento ruir como um prédio velho e abandonado; mas, em vez de soltar, de largar tudo o que não pode mais ser refeito, você simplesmente recolhe os destroços e coloca-os dentro da bolsa!…

– Foi uma monstruosidade o que Lucas fez!…

– O único monstro é a sua teimosia em salvar o seu casamento.

– Não. Lucas é que é um monstro! Jamais o perdoarei por ter me trocado por Flávia. Flávia!… Como eu a odeio! Aposto que até você se sentiu atraído por ela.

– Isso não é verdade.

– E por que a defendia tanto? Chegava até a ofender-me…

– Eu apenas procurava evitar que você fizesse alguma bobagem da qual viesse a se arrepender depois.

– Preciso da sua ajuda; não desistirei assim tão facilmente. A esposa de Lucas ainda sou eu.

– Não por muito tempo.

– Você deve estar feliz, não é mesmo?!… Sempre torceu para que os dois ficassem juntos.

– É verdade.

– Como fui estúpida! Esse tempo todo você esteve contra mim, e eu não percebia… Fui uma tola em confiar em você; aposto que contou tudo a eles! Agora ainda está aqui para se divertir com a minha desgraça. Diga o que ganhou com isso: a amizade e a confiança de Lucas?!… Não custava nada você ter afastado Flávia dele! De que adianta eu ainda ficar discutindo com você?!… Todo o meu esforço não serviu para nada! Só fiz papel de boba! Lucas e Flávia devem estar zombando de mim!…

– Não. É você quem zomba do amor que eles sentem. Hortência, a felicidade deles ainda está em suas mãos; seja generosa.

– Agora eu compreendo o que você está fazendo aqui!… Falta só convencer-me a concordar com o divórcio, para você dar por terminada a sua missão de ajudar Lucas e Flávia.

– Sempre desejei que você se divorciasse; mas não pelo motivo que você pensa…

– Mentiroso! Que outro motivo poderia existir?

Hortência, no mesmo instante em que fez a pergunta, sentiu o coração apertado ao se lembrar do primeiro dia em que viu Augusto: sentiu-se atraída por ele, mas só agora ousava admitir isso a si mesma. Depois, a luta desesperada para salvar o seu casamento tornou-se uma obsessão; e, embora Augusto estivesse sempre ao seu lado, ela não parecia nem sequer notá-lo.

Augusto interrompeu-lhe os pensamentos, quando perguntou:

– Não vai me dizer em que está pensado?

– Não estou tramando nada, se é isso o que o preocupa.

– Sei que não está, porque o brilho que vejo em seus olhos é um brilho diferente: não repele, atrai.

Hortência abaixou os olhos encabulada. Augusto percebeu e procurou consertar, dizendo:

– Perdoe-me; não tive a intenção de ofendê-la. Gostaria que eu a levasse para a casa de alguma amiga?

– Não. Prefiro ficar sozinha; se eu fosse para a casa de Telma, teria que contar tudo a ela e a Armando. Eu gostaria de tentar esquecer esse assunto, pelo menos, por enquanto. Eu ficarei bem; você não precisa se preocupar.

– Posso vir aqui amanhã? Poderíamos ir a algum lugar para que você tivesse a oportunidade de se distrair um pouco.

– Eu gostaria muito que você viesse.

(Não perca, no próximo segmento, os dois últimos capítulos da história “FLÁVIA E DOUGLAS”.)

Grata,
Sisi Marques

About Gilberto Marques

Gosto muito dos textos que minha esposa escreve e, por esse motivo, decidi criar este blog para poder compartilhá-los com você, querido(a) leitor(a).
This entry was posted in FLÁVIA E DOUGLAS. Bookmark the permalink.

Leave a Reply