FLÁVIA E DOUGLAS (Capítulo XXIX)

Lucas estava exausto quando chegou no apartamento àquela sexta-feira à noite. A primeira coisa que fez foi ligar o rádio. Depois ele se permitiu ficar um bom tempo sentado no sofá, pensando…

Ele ainda não sabia quando Hortência tencionava voltar, mas prometeu a si mesmo que, quando ela voltasse, seria o momento de colocar tudo em pratos limpos.

De repente, o toque do interfone arrancou-o de seus pensamentos. Lucas ficou surpreso quando o porteiro disse que Douglas desejava vê-lo.

Quando Douglas entrou, Lucas disse:

– Por favor, sente-se; fique à vontade. Flávia pediu-lhe que viesse para certificar-se de que eu não havia me embriagado outra vez?

– Não. Flávia não sabe que estou aqui. Foi Elaine quem me deu o seu endereço; eu telefonei a ela antes de vir.

– Elaine?!… Então, eu já sei do que se trata. Se veio pedir-me para esquecer Flávia, para não mais procurá-la; eu sinto muito, mas não posso prometer-lhe isso. Por favor, Douglas, deixe-me falar com ela só mais uma vez. Se ainda assim, ela insistir em se casar com você, eu saberei respeitar a sua decisão.

– Lucas, não sou seu rival; sou seu amigo. Eu sei que Flávia jamais seria feliz ao meu lado, porque é você que ela ama.

– Flávia confia muito em você e já deve ter lhe falado sobre Antonio. Responda-me: ele e Augusto são a mesma pessoa?

– Sinal vermelho. Flávia não me perdoaria se eu lhe falasse sobre ele.

– Você não precisa me contar sobre ele. Mas poderia apenas responder “sim” ou “não”.

– Se você prometer que ela não ficará sabendo…

Lucas sorriu e arriscou a primeira pergunta:

– Ele conhece Hortência?

– Sim.

– Foi ele quem me trouxe para cá no dia em que eu estava bêbado?

– Sim.

– Por que ele mentiu a Flávia que se chamava Antonio?

– Ele não mentiu. O nome dele é Antonio Augusto.

– Com que intenção ele procurou Flávia?

Contemplando o semblante preocupado e entristecido de Lucas, Douglas não conseguiu evitar o comentário:

– Estou começando a entender por que Flávia se sente tão insegura e infeliz ao seu lado. Se você ama Flávia, terá que parar de se martirizar e começar a agir. Eu não preciso responder suas perguntas, porque você já tem as respostas.

– Mas há algo que eu não consigo entender… Se Hortência tivesse pedido a Antonio para telefonar a Flávia e marcar um encontro, ele não teria conseguido ganhar sua confiança. Flávia chegou a dizer que o considerava seu amigo.

– Hortência esperava que ele se colocasse entre vocês; mas, em vez disso, ele procurou Flávia e contou-lhe tudo.

– Se ele nunca teve a intenção de afastar-me de Flávia, por que ele fingiu que não me conhecia, no dia em que os vi conversando?

– Como você teria reagido se ele tivesse dito que a sua esposa havia ameaçado mandar outro homem procurar Flávia, caso ele se recusasse?

– Por que Flávia esconderia isso de mim?!… Eu não compreendo… Se naquele dia em que os dois almoçaram juntos, ele tivesse realmente falado sobre Hortência, não seria mais provável que ela tivesse chegado nervosa, ou até mesmo chorando? Douglas, eu fiquei louco de ciúmes quando a vi chegar tão feliz!… Depois ela ainda disse que esteve com você… Eu sabia que era mentira, porque você havia telefonado minutos antes, perguntando por ela. Só descartei a possibilidade de Flávia estar apaixonada por Antonio porque, depois desse encontro, aos poucos, ela permitiu que eu me reaproximasse.

– Antonio é mais seu amigo do que você imagina; e, além disso, ele tem as suas próprias razões para querer que você fique com Flávia e se separe de Hortência.

– E que razões ele poderia ter?

– Na verdade, ele só tem uma: ele está apaixonado por sua esposa.

Lucas riu de gosto. Depois perguntou:

– Ele disse isso a Flávia?!… Por que ela não me contou?

– Ela não quis jogá-lo contra Hortência; ou, talvez, teve receio de que você não acreditasse. Ela se ressente quando você defende a sua esposa; e chegou mesmo a dizer que preferia casar-se comigo a tornar-se sua amante.

– Nunca tive um amigo como você. Outro, em seu lugar, teria se aproveitado da vantagem de ser solteiro. Se um dia você precisar de mim, eu estarei pronto para retribuir a sua generosidade. Eu lhe serei eternamente grato.

– Embora eu esteja feliz por ter perdido um rival e ganhado um amigo, eu gostaria que soubesse que foi o meu amor por Flávia que me trouxe aqui, e não propriamente o desejo de ajudá-lo. Há somente uma coisa que eu gostaria de lhe pedir: nunca me proíba de ver Flávia.

Lucas conseguiu dizer apenas:

– Eu jamais faria isso.

– Obrigado por compreender.

Os dois se abraçaram emocionados.

Alguns minutos depois, com o semblante revestido de seriedade, Douglas disse:

– Agora vem a pior parte: o motivo que realmente me trouxe aqui. Dessa vez, Flávia parece mesmo disposta a casar-se comigo para esquecê-lo. Eu a amo e não tenciono magoá-la; se você não agir depressa, eu conduzirei Flávia ao altar.

As palavras de Douglas estilhaçaram o coração de Lucas e bloquearam o seu raciocínio. Depois de um longo e pesado silêncio, ele disse:

– Não tem solução. Conversando com você, eu até acabei me permitindo sonhar com a possibilidade de…

– Continue.

– Não!… Flávia está certa. Não tenho o direito e nem quero expô-la a qualquer tipo de humilhação. Já fui obrigado a me afastar uma vez e percebo que é só o que me resta a fazer novamente.

– Lucas, está dizendo que pretende desistir?

– O que mais posso fazer?!… Agora que já sei o quanto Hortência é vingativa…

– Continuará casado com ela, para poupar Flávia.

– Tanto quanto você, o que eu mais desejo é que Flávia seja feliz, que não venha a sofrer por minha causa.

– Já está sofrendo.

– Mas sofrerá muito mais se eu continuar insistindo em obter o divórcio. Esqueça o que conversamos. Flávia não precisa saber que esteve aqui. Case-se com ela; eu prometo afastar-me para sempre.

– Olhe bem nos meus olhos e diga se é isso, realmente, o que você deseja.

– Não posso. Mas, de qualquer forma, não faz diferença.

– Lucas, eu sempre pensei que fosse Flávia quem mais estivesse sofrendo, mas não é. Você está se autodestruindo, está morrendo de paixão; e, ainda assim, não reage!…

– Reagir?… O que sugere que eu faça?… Que continue a provocar Hortência? Já imaginou o que ela seria capaz de fazer a Flávia?… O que me deixa mais irritado é saber que a única coisa que a faz pensar que é melhor do que Flávia é o fato de estar casada comigo. Como pode pensar que uma simples certidão tenha mais valor do que um sentimento puro?!…

Douglas sugeriu:

– Saia deste apartamento ainda hoje. Eu o ajudo a arrumar as malas.

– Você não entende… Eu não me perdoaria se Hortência humilhasse Flávia, para se vingar de mim.

– Se Hortência for tão esperta quanto eu imagino que seja, primeiro atacará você e não Flávia.

– Eu não teria tanta certeza…

– Pense bem: Hortência vive ameaçando desmoralizar Flávia, para conseguir de você o que quer. Se logo de início ela insultar Flávia para fazer com que você volte, estará desperdiçando o único meio de que dispunha para manipulá-lo.

– Douglas, eu sei que você veio aqui com a melhor das intenções, mas eu amo Flávia e não estou disposto a correr esse risco.

– Eu não cheguei a dizer a Flávia o que pretendia fazer, mas já preparei o seu espírito para uma possível avalanche. Lucas, dará tudo certo. Mesmo que o pior aconteça, não pode ser tão ruim. Flávia é bem vista no trabalho; se Hortência for lá com a intenção de insultá-la, só conseguirá fazer papel de boba.

– Prefiro antes conversar com Flávia a esse respeito.

– Se quiser que ela desista de você e se case comigo, faça isso.

– Preciso pensar. Além disso, não posso sair daqui sem antes ter alugado um apartamento.

– Não há tempo para isso, porque amanhã, à noite, Hortência já terá voltado.

– Hortência volta amanhã?!… Foi Flávia quem lhe disse isso?…

– Eu deveria ter imaginado que Flávia não lhe contou sobre o telefonema de Hortência.

– Quando Hortência ligou?

– Hoje.

– Agora está explicado por que Flávia me tratou daquela forma na hora do almoço… E o pior de tudo é que, dessa vez, ela tentou me falar sobre Hortência, mas pensei que ela estivesse se referindo ao dia em que veio até aqui. Ela lhe disse o que conversaram?

– Antes de eu vir procurá-lo; jantamos juntos, e ela disse sim. Hortência avisou que chegaria amanhã, à noite; e, para provocá-la, acrescentou que uma oportunidade rara como essa não deveria ser desperdiçada. Lucas, Hortência não tem respeito por Flávia, por você; não tem respeito nem por ela mesma! Já está na hora de fazê-la experimentar um pouco do seu próprio veneno. Sem querer, ela nos ajudou, porque disse quando voltaria. Aproveite para sair deste apartamento antes que ela chegue. Essa sim é uma oportunidade que não deve ser desperdiçada.

– Amanhã, apanho algumas roupas e vou para um hotel.

– Não. Amanhã bem cedo, eu virei até aqui e o ajudarei a embalar todos os seus pertences, e você virá para a minha casa. O que não couber no seu carro, levaremos no meu.

– Não. Seria pedir demais; não posso aceitar.

– E por que não? Moro sozinho; e, além disso, tenho a certeza de que Flávia ficaria muito contente, porque moramos bem perto um do outro. Não gostaria de vê-la com mais frequência?

– Você já fez demais… Não quero abusar da sua generosidade. De qualquer forma, Douglas, muito obrigado. Nunca imaginei que pudesse existir alguém como você.

– Lucas, se aprecia mesmo a minha generosidade, aceite-a. Não gosto mesmo de morar sozinho; poderíamos fazer companhia um ao outro. Isso ajuda a fazer com que o tempo passe mais depressa. Além disso, com a esposa que você arrumou, não duvido que irá precisar de um ouvido amigo de vez em quando. Vamos, aceite. Seria um modo de dizer que aceita a minha amizade.

Douglas estendeu-lhe a mão, e Lucas, agradecido, retribuiu o gesto.

Percebendo-lhe a comoção, Douglas disse:

– É melhor eu ir. Procure descansar, porque amanhã teremos muito trabalho pela frente. Será um sábado e tanto; especialmente para Flávia, quando você lhe contar as novidades.

(Não perca, no próximo segmento, o 30º CAPÍTULO da história “FLÁVIA E DOUGLAS”.)

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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