REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 5 – O CORAÇÃO DAS FONTES DA JUVENTUDE (Capítulo XV)

Tadeu fechou os olhos e, quando tornou a abri-los, estava em casa. Olhou para si próprio e detestou as roupas estranhas que usava. Subiu, tomou um banho e vestiu suas próprias roupas. Antes de jogar fora as roupas que o falso mago lhe fornecera, ele tirou o precioso anel do bolso e guardou-o na gaveta da cômoda do quarto de hóspedes. Certificou-se de que o cajado também estivesse bem guardado no armário do mesmo quarto.

Ele sentia vontade de ir ao encontro de Cibele, mas não tinha acesso à árvore de Eliel. Pensou em ir à minha casa e realmente foi, mas Crisélia e eu havíamos saído para ir ao supermercado. Tadeu subiu na moto e dirigiu-se à biblioteca. Surpreendeu-se ao encontrar Afrânio conversando com Anabel. Os dois, ainda mais surpresos do que ele, interromperam o assunto e se levantaram para cumprimentá-lo e abraçá-lo. Anabel exclamou:

– Que surpresa maravilhosa, Tadeu! Afrânio acabou de afirmar que jamais tornaríamos a vê-lo, e aí está você em carne e osso! Hoje não é dia de trabalhar! Precisamos comemorar! Você já viu Cibele?

Ele respondeu:

– Ainda não, mas mal posso esperar para revê-la.

Afrânio comentou:

– Eu disse que você não voltaria, porque imaginei que houvesse se tornado o Guardião do Coração das Fontes da Juventude. De qualquer forma, você saiu vitorioso porque a nebulosidade desapareceu. Foi por esse motivo que eu vim até aqui. Eu precisava dizer a Anabel que o equilíbrio, pelo menos para o Coração das Fontes, foi restaurado. As Fontes, inclusive, voltaram a jorrar.

Tadeu perguntou intrigado:

– Que nebulosidade?!…

Afrânio exclamou:

– É uma longa história!… Depois eu lhe explico. A propósito, você viu Derlo?!…

Ele respondeu:

– Sim. Derlo me ajudou quando eu mais precisei. Disse que era um mago chamado Benfazejo e inventou uma história sobre a princesa Estela ter sido aprisionada pela Feiticeira. Eu sinto dizer, Afrânio, mas a Feiticeira ordenou que eu usasse a ampulheta para aprisioná-lo em uma ânfora.

Afrânio, que ouvia embevecido as palavras de Tadeu, afirmou:

– Eu me sinto honrado em estar em sua presença: você é o Guardião. Eu só não compreendo por que preferiu retornar. Segundo a lenda, o Escolhido apaixonar-se-ia perdidamente pela Feiticeira. O que estou dizendo?!… Perdoe-me a indiscrição… Esse é um assunto pessoal no qual eu não tenho o direito de interferir.

Focalizando a atenção no rosto de Anabel, Tadeu aproveitou a ocasião para dizer:

– Por falar em assuntos pessoais, Anabel, chegou o momento de usarmos de franqueza e pararmos de nos iludir com um amor que não sentimos. Se há alguém na sua vida, eu sei que ainda é Eliel. Eu a liberto do nosso compromisso e desejo que um dia você consiga me perdoar por eu ter pensado apenas na felicidade de Cibele.

Anabel, com uma expressão indefinível, preferiu calar-se. Tadeu, aproveitando-se de seu silêncio, redirecionou sua atenção a Afrânio:

– O cajado está em casa, ou melhor, na casa de Anabel, e eu preciso entregá-lo a você. A Feiticeira disse que você encontraria um modo de restituí-lo ao Mago Benquisto.

Afrânio comentou:

– Você me surpreende a cada instante. Eu não sei como agradecer-lhe. Na verdade, eu preciso me desculpar por tê-lo considerado um intruso no Coração das Fontes e por ter cortado o fluxo de magia para o cartão. Também importunei Cibele ao insinuar que ela fosse sua cúmplice. Eu não tenho nada do que me orgulhar e não mereço a honra que você me concede.

Tadeu disse:

– Correção: a honra que a Feiticeira lhe concedeu. Agora vamos, porque preciso ver Cibele.

Afrânio, respeitosamente, ponderou:

– O dever vem primeiro. Precisamos devolver o cajado. Você leva Anabel na sua moto, e eu usarei a minha magia para transportar-me à sua casa.

Tadeu não perdeu a oportunidade de dizer:

– Até a casa de Anabel. Eu pretendo hospedar-me na casa de Felizardo e Crisélia por algum tempo.

Afrânio desapareceu da sala que Anabel ocupava na biblioteca e, em poucos segundos, encontrava-se na sala do casarão. Enquanto aguardava Tadeu e Anabel chegarem, ele começou a fazer uma retrospectiva de sua vida e verificou que a solidão estava sempre presente. Suspirou, imaginando o quanto seria bom se Anabel o aceitasse. Ele que só poderia usufruir da companhia de outros gênios tão arrogantes e mesquinhos quanto ele, de repente, teria um lar, teria alguém a quem pertencer.

Os minutos passaram velozmente, e logo entrava Anabel. Ela comentou:

– Tadeu foi guardar a moto.

Afrânio perguntou:

– Está magoada?

Anabel respondeu:

– Não, porque esse rompimento era inevitável. Eu não amo Tadeu e também não posso culpá-lo por ter usado de franqueza.

Afrânio não teve a oportunidade de emitir algum comentário, porque Tadeu entrou na sala dizendo:

– Suba comigo. Preciso apanhar o cajado e, além dele, há mais dois objetos que eu gostaria de lhe mostrar.

Quando Tadeu e Afrânio entraram no quarto de hóspedes, Tadeu abriu a gaveta da cômoda e mostrou a Afrânio o frasco de cristal no formato de dragão e o anel.

Afrânio exclamou:

– São objetos inestimáveis! Novamente sinto-me honrado por estar compartilhando este momento. Responda-me: você também ingeriu a água da Fonte Mais Pura, quero dizer, existe mesmo uma Fonte no interior do castelo?!

Tadeu respondeu:

– Sim. E duvido que acredite no que vou dizer: eu montei nas costas de um dragão, e foi ele quem me conduziu ao castelo da Feiticeira!

Afrânio exclamou:

– É fantástico! O Conselho ficará morrendo de inveja quando eu contar que ouvi todas essas maravilhas dos seus próprios lábios.

Tadeu, rindo do entusiasmo de Afrânio, abriu o armário e apanhou o cajado. Surpreendeu-se, porém, ao vê-lo ajoelhar-se diante do reluzente objeto. Tadeu tentou depositá-lo em suas mãos, mas ele comentou hesitante:

– Eu não sei se devo tocá-lo. Talvez fosse melhor você entregá-lo pessoalmente ao Conselho. Eu sou impuro demais…

Tadeu, encorajando-o a levantar-se e aceitar o cajado, afirmou:

– A Feiticeira escolheu você para devolvê-lo. Vá, Afrânio; eu preciso avisar Cibele do meu retorno.

Quando Tadeu voltou à sala, Anabel esperava-o ansiosa. Ela perguntou:

– Onde está Afrânio? É melhor chamá-lo para irmos à casa de Crisélia e Felizardo… Eu estive lá enquanto vocês conversavam. Eles já voltaram e estão nos esperando.

Tadeu comentou:

– Afrânio precisou levar o objeto roubado para o Conselho. Cibele já está lá?

Anabel respondeu:

– Talvez esteja, porque Crisélia foi buscá-la para que lhe fizéssemos uma surpresa.

Anabel e Tadeu foram à minha casa e decepcionaram-se ao encontrar-me sozinho. Cumprimentei Tadeu e demonstrei a minha alegria e satisfação em revê-lo. Disse-lhe que logo Crisélia voltaria acompanhada de Cibele e Eliel, mas enganei-me. Crisélia retornou sozinha e, após cumprimentar Tadeu, comentou:

– Cibele não virá. Se não lhe contarmos a verdade, não conseguiremos convencê-la a juntar-se a nós.

Anabel exclamou:

– Não podemos estragar a surpresa! Eu mesma irei chamá-la.

Anabel girou o anel e apareceu na sala de Eliel. Comentou:

– Perdoe-me a invasão. Talvez eu devesse devolver-lhe o anel. Por favor, não me leve a mal… Cibele precisa vir à casa de Crisélia: é importante!

Eliel, impaciente, respondeu:

– Não é a mim que você tem que dizer isso. Ela não quer ir e pronto. Se quiser tentar convencê-la, fique à vontade.

Anabel comentou:

– Você está amargurado. O que houve?

Eliel exclamou:

– Você ainda pergunta?!… Cibele está sofrendo, e o que você acha que eu deveria fazer: alegrar-me com isso?!… Eu sinto muito, Anabel… Esta não é uma boa hora para visitas.

Anabel perguntou alegremente:

– Mudaria alguma coisa se eu dissesse que Tadeu voltou, e é por esse motivo que estamos convidando vocês para comemorarmos?!…

Eliel foi à minha casa e, após abraçar Tadeu e dar-lhe as boas-vindas, entregou-lhe o seu anel enquanto comentava:

– Cibele está sofrendo; ela precisa saber do seu retorno o quanto antes. Não tema. Basta colocar o anel e girá-lo desejando estar na minha árvore.

Tadeu, agradecido, fitou o rosto de Eliel em silêncio e seguiu suas orientações. Segundos depois, ele se encontrava no lugar onde jamais tivera acesso: a árvore de Eliel. Sentia-se muito emocionado por estar na casa de Cibele. Com o coração acelerado, começou a chamar o seu nome. Cibele, ao ouvir a voz de Tadeu, deixou o quarto e caminhou até a sala. Acreditou estar sonhando quando avistou Tadeu esperando-a de braços abertos. Correndo para abraçá-lo, ela disse:

– Eu não me importo que você seja fruto da minha imaginação.

Os dois se abraçaram e trocaram um beijo longo e espontâneo. Após aquele momento de enlevo, ainda abraçada a Tadeu, Cibele comentou:

– Eu pensei que você fosse apenas uma alucinação… Mas você é real! Eu fiquei tão assustada! Temia que você morresse de fome e sede, ou fosse devorado por um daqueles dragões!…

Para exibir-se para Cibele, ele disse:

– Foi um deles que me conduziu ao castelo da Feiticeira.

Cibele sentou-se no sofá e o convidou a sentar-se ao seu lado. Perguntou entusiasmada:

– Você voou mesmo montado em um dragão?!… Que aventura! Isso não é justo! Eu aqui sofrendo, desfazendo-me em preocupações e lágrimas, e você se divertindo!…

Tadeu sorriu e para senti-la mais próxima, colocou o braço ao redor de seus ombros enquanto continuavam a conversar. Ele disse:

– Eu lhe trouxe um presente. Está no bolso da minha jaqueta. Mas eu prefiro entregá-lo a Eliel para que ele mesmo possa ofertá-lo a você. Consegue imaginar o que é?

Ela exclamou sorrindo:

– Não me diga que você conseguiu trazer a água da Fonte da Juventude!…

Ele respondeu esbanjando alegria:

– Sim. Ela foi extraída da Fonte Mais Pura. Foi um presente da Feiticeira para você. E eu também fui agraciado.

Depois, retirando o braço de seus ombros e afastando-se um pouco para poder olhar em seus olhos, Tadeu segurou as mãos de Cibele entre as suas antes de confidenciar:

– Se você disser que consegue viver longe do meu amor, eu aceitarei o amor da Feiticeira.

Cibele, com os olhos colados no rosto de Tadeu, preparava-se para dizer algo quando Crisélia apareceu na sala e comentou:

– Se continuarem aqui mais um segundo, Eliel acabará estourando de aflição. A comemoração é na minha casa e não aqui. Até Afrânio está esperando ansioso.

Cibele disse tristemente:

– Eu não quero ver Afrânio porque ele foi muito cruel e não é digno de confiança.

Procurando tranquilizá-la, Tadeu afirmou:

– Está tudo bem. Ele sempre esteve do nosso lado. Venha; não podemos deixar Eliel esperando.

Em poucos segundos, Cibele, Tadeu e Crisélia juntaram-se a nós. Cibele aproximou-se de Eliel para abraçá-lo. Ela disse:

– Obrigada pela surpresa.

Eliel sorriu e beijou-a expressando todo o amor que sentia. Tadeu, que esperava o momento oportuno para aproximar-se, presenciou o beijo e afastou-se.

FIM DO CAPÍTULO XV
Sisi Marques

No próximo segmento, não perca a continuação da 5ª Parte (O Coração das Fontes da Juventude) da história “Realidade Mágica” – livro 1.

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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