REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 5 – O CORAÇÃO DAS FONTES DA JUVENTUDE (Capítulo XIV)

Enquanto nós quatro jantávamos e conversávamos alegremente; Tadeu, na floresta, embora saciado em sua fome e sede, ainda sofria porque sua pele entregava-se a um frio intenso. Nem mesmo o seu amor por Cibele conseguia mantê-lo aquecido naquele lugar inóspito. Ele desejava ver o seu rosto, ouvir a sua voz… Mas depois se lembrava da relutância do cartão em oferecer a sua magia. Tadeu chorou e, nesse momento, aconteceu algo extraordinário que o colocou em alerta e fez com que ele se esquecesse completamente do frio que o enregelava: um dragão de aspecto aterrorizante havia sobrevoado a região, e ele correu para esconder-se entre as árvores.

Tadeu aguardou alguns minutos e depois começou a caminhar com o coração disparado. Caminhou, caminhou até que, inesperadamente, avistou uma claridade que o encheu de esperança. Continuou andando e foi parar em uma cabana. Bateu à porta várias vezes até que, finalmente, um ancião de barba grisalha veio abri-la. Tadeu implorou:

– Por favor, deixe-me entrar!… Se eu continuar aqui fora, acabarei morrendo de frio ou devorado por um dragão.

O ancião perguntou desconfiado:

– E por que eu o deixaria entrar? Quem garante que você não seja um espião?

Tadeu disse:

– Neste lugar, eu não passo de um pobre andarilho à beira da morte. A sua cabana parece quente e confortável… Por favor, deixe-me entrar!

O ancião aquiesceu. Tadeu entrou e logo percebeu que a delicada magia que abastecia o local desprendia-se de um reluzente cajado que o mago ancião agitava no ar. Tudo foi providenciado para a felicidade e o bem-estar de Tadeu: um banho quente, roupas limpas, um prato de sopa fumegante e substanciosa e, finalmente, uma cama quente e macia. Tadeu dormiu feito uma pedra a noite inteirinha e parte da manhã. Ao acordar, agradeceu e perguntou como poderia retribuir tamanha generosidade. O mago respondeu:

– O meu nome é Benfazejo. Eu estou a serviço do rei que governa a dimensão de onde venho. Sua preciosa filha, a princesa Estela, foi aprisionada no castelo que fica no centro do lago, e eu vim resgatá-la. O peso da idade, porém, não me permite caminhar longas distâncias, saltar o círculo de fogo e nadar até o castelo. Eu já sei o que você deve estar se perguntando, e aqui vai a resposta: não; eu não poderia usar a magia do cajado porque, infelizmente, eu já pude constatar que ela perde a eficácia a partir do momento em que me afasto da floresta.

Tadeu confidenciou:

– Eu estou aqui pelo mesmo motivo. Eu estava meditando no Poço das Fadas e pude ouvir o pedido de socorro da princesa.

O mago afirmou:

– A sua chegada é providencial. Fui eu quem, através da magia do cajado, projetei o quadro na pedra para que alguém de coração valoroso pudesse escutar o apelo da princesinha. O seu nome deve ser Tadeu. A princesa Estela, há alguns anos, enquanto ainda vivia no palácio na companhia de seu estimado pai, teve um sonho que foi comentado em todo o reino. Segundo ela, num futuro bem próximo, um jovem de nome Tadeu enfrentaria perigos inimagináveis para livrá-la da prisão confeccionada por uma feiticeira má e poderosa. O sonho revelou à princesa que o único meio de privar a feiticeira de sua magia seria retirando do castelo a ampulheta da qual provinha o seu poder. A ampulheta, no entanto, não poderia ser destruída. Deveria ser entregue a um mago em quem seu pai confiasse integralmente para que fosse devolvida ao seu lugar de origem. O mago sou eu e o jovem, Tadeu, é você. Estamos aqui com o mesmo propósito. Alimente-se. Você precisa se fortalecer para enfrentar a feiticeira e destituí-la de seu poder.

Tadeu tomou seu café e entregou-se à prática de exercícios. Depois sentou-se em uma das pedras que havia na clareira e começou a meditar. A mente sem pensamentos favoreceu o aparecimento de uma imagem. Era o rosto de uma jovem lindíssima, de olhar firme e penetrante. Em pensamento, Tadeu perguntou:

– É você, Estela?!… Eu estou aqui para salvá-la. Em breve, você estará ao lado de seu amado pai.

A jovem na tela de sua mente respondeu:

– Estela está salva em seu próprio reino. Eu sou a Feiticeira e vim alertá-lo: o mago Benfazejo não passa de uma criação da mente doentia de Derlo. Ele só quer apoderar-se da ampulheta para vingar-se dos gênios que o condenaram ao aprisionamento na ânfora. A água no interior do lago não pode ser tocada nem mesmo por mim. Tadeu, você precisa tirar o cajado de Derlo e correr para a praia.

Ele respondeu mentalmente:

– Não confio em você. Sou grato ao mago e não poderia traí-lo. Se não fosse por ele, eu teria morrido na floresta à noite passada.

A Feiticeira afirmou:

– Não é verdade, porque o meu dragão o teria trazido para o castelo. Ele não pretendia feri-lo e sim conduzi-lo para cá em segurança.

Tadeu exclamou em pensamento:

– É mentira!

A meditação de Tadeu foi interrompida quando o falso mago chamou-o para almoçar. Tadeu fez a refeição em silêncio e não ousou comentar o diálogo estranho que travara em sua meditação.

À noite, a Feiticeira proporcionou-lhe um sonho inesquecível. Os dois conversavam frente a frente, e Tadeu, embora se sentisse arrebatado por sua singular formosura, dizia-lhe insistentemente:

– Não confio em você. Só diz que não posso tocar o lago porque receia que eu a afaste do artefato que perpetua a sua maldade.

Ela afirmou:

– Eu preciso ir porque Derlo vigia os seus sonhos e poderia identificar a minha presença. Amanhã, antes do amanhecer, apanhe o cajado e corra em direção à praia. Siga o voo do dragão, e ele lhe mostrará a saída da floresta. Monte em suas costas e ele o trará até aqui.

Tadeu acordou no meio da noite e se assustou quando viu o mago parado ao lado de sua cama. Ele parecia mesmo estar vigiando os seus sonhos. Tadeu, levantando-se, comentou:

– Estou com sede; apanharei um copo de água. Também não consegue dormir?

Desconfiado, o mago, em vez de responder, perguntou:

– Com quem você sonhava?

Tadeu mentiu:

– Com ninguém. Eu raramente sonho.

O mago disse:

– Beba a água e volte a dormir. Amanhã pensaremos num modo de você conseguir pular o círculo de fogo. É uma pena que a magia do cajado se restrinja à floresta.

Um receio assustador começou a torturar Tadeu. Eu mesmo havia contado a ele sobre Derlo, irmão de Afrânio. Tadeu pensou: “Se Derlo conseguiu passar-se por uma jovem de nome Sílvia, certamente poderia passar-se por um ancião. Além disso, ele costumava roubar artefatos mágicos… Talvez até o cajado tenha sido roubado, e agora ele pretenda usar-me para obter a ampulheta.”

Tadeu preferiu não adormecer e, antes do dia clarear, aproveitando-se de um minuto de distração por parte de Derlo, apanhou o cajado e correu para fora da cabana. Ignorando os gritos do mago enfurecido, continuou correndo, olhou para o céu e avistou um imponente dragão em pleno voo. Seguiu-o e, em pouco tempo, como a Feiticeira havia previsto, Tadeu alcançou a praia. O dragão pousou e abaixou-se para permitir que ele montasse em suas costas. O formidável animal levantou voo e venceu a distância até a entrada do castelo. Ao contemplar o rosto de Tadeu, a Feiticeira exclamou ternamente:

– Aqui está você! É ainda mais belo do que eu imaginava! Entregue-me o cajado para que eu possa guardá-lo até o seu retorno. Apanhe estes dois objetos e cumpra a sua missão de manter a integridade do Coração das Fontes da Juventude. Quando o dragão levá-lo de volta à praia, espere Derlo aproximar-se e deixe-o pensar que pretende entregar-lhe a ampulheta. No momento em que ele tentar tocá-la, coloque-a na posição vertical para que a areia comece a verter para a base. Prepare a ânfora. O som será ensurdecedor apenas para ele e, para evitar enlouquecer, ele buscará refúgio dentro dela. Não se esqueça: use o lacre para aprisionar Derlo e segure a ampulheta na posição horizontal para evitar que essa medida desesperada atinja a dimensão dos gênios.

Embora Tadeu sentisse o coração leve, uma poderosa força de atração imantava o seu olhar ao rosto da Feiticeira. Ele compreendeu a urgência do momento e, sem temer, segurou os dois objetos cuidadosamente e tornou a montar no dragão.

Ao vê-lo retornar à praia e dispensar a montaria, Derlo ficou confuso. Tadeu, convidando-o a deixar a floresta, exclamou:

– Venha! Consegui enganar a Feiticeira! Apanhe a ampulheta e tire-nos daqui.

Derlo, desconfiado, gritou:

– Se não pretende usar a ampulheta contra mim, por que segura a ânfora?…

Tadeu explicou:

– A Feiticeira precisa pensar que tenciono aprisioná-lo; do contrário, nós dois seremos o café da manhã dos dragões.

Ainda agarrado à desconfiança, Derlo perguntou:

– E quanto ao cajado, por que o roubou para entregá-lo à Feiticeira?…

Tadeu respondeu:

– Fazia parte do plano. Em sonho, ela pediu-me que roubasse o cajado. Esse era o único modo de confundi-la e enganá-la. Venha! Se ela nos ouvir, mandará os dragões.

Derlo hesitou. Tadeu pensou que tivesse falhado em sua missão. Mas, minutos depois, regozijou-se ao vê-lo correndo em sua direção. Faltava pouco para Derlo apropriar-se da ampulheta quando Tadeu, seguindo as orientações da Feiticeira, colocou-a no chão de forma que a areia começasse a escoar. Derlo, no mesmo instante, cobriu os ouvidos com as mãos e ajoelhou-se, contorcendo-se todo. Tadeu aproximou dele a ânfora, e ela o engoliu sem piedade. Tadeu selou o lacre e deitou a ampulheta para evitar que ela continuasse a emitir o som que para ele era imperceptível.

Após refazer-se do choque da terrível cena que presenciara, Tadeu montou no dragão que já o esperava pacientemente. Conduzido novamente ao castelo da Feiticeira, ele foi recebido em um majestoso salão, cujo centro exibia uma fonte magnífica e refrescante. A Feiticeira aproximou-se dela e, em vez de surgir à sua frente um dedal de ouro com uma dose do precioso líquido, um mimo ainda mais delicado apareceu: um frasco de cristal no formato de dragão. A Feiticeira, ao entregá-lo a Tadeu, disse:

– Aqui está a realização de seu maior desejo: Cibele receberá de suas mãos a mais pura água da Fonte da Juventude. Você também terá o privilégio de entregar o cajado a Afrânio. Ele saberá como devolvê-lo ao Mago Benquisto. Quanto a nós, isto é, quanto a você, aqui está um presente que desejo lhe ofertar: o anel que selará o nosso compromisso. Não desejo pressioná-lo. Guarde-o e, se resolver tornar-se o Guardião, bastará colocar o anel e a magia contida nele o trará de volta para mim e nos unirá para sempre.

Tadeu, surpreso, comentou:

– Você conseguiu adivinhar o meu pensamento: agradeço-lhe a generosidade em relação a Cibele. E devo confessar que infelizmente não estou pronto para aceitar o compromisso. Todavia, conservarei o anel como prova de gratidão e respeito. Permita que eu lhe pergunte: o que acontecerá a Derlo?

A Feiticeira respondeu:

– Ele permanecerá aqui até o Conselho dos Gênios decidir o que fazer com ele. Coloque o anel, escolha o local para o qual deseja ser transportado e feche os olhos. Adeus. Espere! Que distração a minha! Aproxime-se para que você também possa beber a água da Fonte Mais Pura.

Tadeu, com o coração descompassado, aproximou-se da Feiticeira e viu surgir em sua mão um cálice de ouro. Entregando-lhe o cálice, ela disse:

– Não tenha receio, Tadeu, beba. Eu não o manteria aqui contra a sua vontade.

Tadeu ingeriu o líquido e sentiu o coração fraquejar no momento em que ela perguntou:

– Poderia conceder-me um desejo?

Procurando esconder a emoção que o envolvia, Tadeu balbuciou:

– Se estiver ao meu alcance…

A Feiticeira sorriu antes de emitir o comentário:

– Você sabe o que eu desejo: um beijo, Tadeu, apenas um beijo.

Ele respondeu:

– Não posso beijá-la. Não enquanto eu estiver perdido neste emaranhado de sentimentos. Eu sinto muito.

Ela comentou:

– Não estou magoada. Era exatamente dessa forma que eu esperava que você reagisse. Você provou que o seu coração anseia pelo amor verdadeiro. Agora feche os olhos e concentre-se no local para onde deseja ser transportado.

FIM DO CAPÍTULO XIV
Sisi Marques

No próximo segmento, não perca a continuação da 5ª Parte (O Coração das Fontes da Juventude) da história “Realidade Mágica” – livro 1.

Grata,
Sisi Marques

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Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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