REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 5 – O CORAÇÃO DAS FONTES DA JUVENTUDE (Capítulos XII e XIII)

Capítulo XII
Naquele domingo chuvoso, o almoço transcorreu como Crisélia havia previsto. Afrânio bebeu além da conta e acabou dizendo:

– Os Conselheiros exigem que eu prenda Cibele para que ela revele quem é o mentor do crime. São mesmo uns otários porque só eu sei quem está por trás desse embuste! Outro círculo luminoso também apresenta a mesma nebulosidade e, nesse lugar, o cajado do mago Benquisto foi roubado. Alguém de posse do poderoso cajado poderia muito bem ter localizado e aberto o portal. A magia que foi detectada no Coração das Fontes pode não ter sido a minha ou a de Cibele. É bem provável que tenha sido a magia do cajado. E a presença malévola que causou a interrupção temporária no abastecimento de todas as Fontes da Juventude pode não ter sido Tadeu, e sim Derlo. Não poderei continuar responsabilizando-me por ele eternamente. Derlo é um fardo que não estou mais disposto a segurar porque pretendo estabelecer-me e levar a minha própria vida.

Anabel, enchendo o copo de Afrânio novamente, perguntou:

– E Derlo dar-se-ia a todo esse trabalho por pura maldade?

Afrânio, continuando a beber, respondeu:

– O assunto é ainda mais delicado do que se possa imaginar. Há muito tempo, nós, gênios, deixamos de ser escravizados graças à Feiticeira. Além de Guardiã do Coração das Fontes da Juventude, ela também protege o único artefato que poderia submeter-nos à escravidão.

Interessando-me pelo assunto, após acrescentar mais vinho ao copo de Afrânio, perguntei:

– Que artefato é esse?

Afrânio revelou:

– Diz a lenda que um gênio malévolo, sedento de poder e domínio, certa vez criou uma ampulheta que emitia um som terrível conforme a areia escoava. Para fugir ao ruído intermitente e devastador, os gênios começaram a refugiar-se em garrafas, ânforas e quaisquer outros objetos que bloqueassem aquela tortura ensurdecedora. O gênio agressor possuía um dispositivo que o tornava imune ao som e regozijava-se quando os humanos capturavam os objetos que os gênios usavam para se proteger. Foi aí que começou a submissão dos gênios aos seus amos e o seu aprisionamento nos objetos mais diversos. A Feiticeira, porém, quando descobriu a trama diabólica, enganou o gênio, apoderou-se da ampulheta e colocou-a na posição horizontal para impedir o fluxo da areia. Desde então, segundo a lenda, a Feiticeira tornou-se o símbolo da libertação dos gênios e nós, em retribuição, assumimos o compromisso de ajudá-la a proteger o Coração das Fontes da Juventude.

Afrânio parou de falar. Ele levou a mão à testa e começou a massageá-la antes de dizer:

– Eu devo ter me excedido na bebida… A minha cabeça está rodando e começou a doer… Sobre que assunto estávamos falando?… Eu não sei por que mencionei a lenda sobre a ampulheta.

Aventurei-me a concluir:

– Você explicava a Anabel que Derlo roubou o cajado do Mago Benquisto com a intenção de forçar sua entrada no Coração das Fontes da Juventude e apoderar-se da ampulheta, para vingar-se dos gênios que o sentenciaram ao aprisionamento na ânfora.

Afrânio concordou:

– Exatamente. Foi por esse motivo que contei a Anabel sobre a lenda. Eu não deveria estar falando sobre essas coisas porque são confidenciais. Receio ter bebido demais… Eu não me sinto bem…

Apressei-me em sugerir:

– Suba e descanse no quarto de hóspedes.

Ele disse:

– Talvez seja melhor porque a minha magia não me levará a lugar algum enquanto eu estiver nestas condições.

Afrânio surpreendeu Anabel quando, após levantar-se e aceitar que eu o ajudasse a se equilibrar, ele olhou para ela e comentou:

– Você é adorável!… Eliel não foi inteligente ao trocá-la por Cibele. Eu, no lugar dele, jamais teria desistido do seu amor.

FIM DO CAPÍTULO XII
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 5 –
O CORAÇÃO DAS FONTES DA JUVENTUDE
Capítulo XIII
Já era noite quando Afrânio, liberto do efeito do álcool, deixou o quarto de hóspedes e desceu para agradecer e desculpar-se. Crisélia e eu assistíamos a um filme na televisão e ele, timidamente, aproximou-se para dizer:

– Receio ter abusado da hospitalidade de vocês. O almoço estava delicioso; eu só lamento ter causado esse inconveniente de demorar-me mais do que o esperado. Não sei o que deu em mim… Não costumo beber em demasia. A propósito, onde está Anabel? Ela deve ter tido uma péssima impressão a meu respeito.

Foi Crisélia quem disse:

– Eu não gosto de rodeios, portanto serei breve. Você não nos deve desculpas porque fui eu que agi de má fé ao convidá-lo para almoçar. Felizardo opôs-se, mas eu insisti para que ele concordasse com o meu plano de embebedá-lo a fim de obter informações que pudessem ajudar Tadeu e Cibele. Nada do que você revelou, no entanto, depõe contra você, exceto algumas omissões que em nada modificam a situação atual.

Afrânio comentou:

– A sua franqueza me surpreende e me desarma. Agradeço-lhe que tenha exposto logo a situação em vez de prolongar o jogo no qual eu estaria sempre em desvantagem.

Afrânio surpreendeu-se novamente quando Crisélia, após desligar a televisão, convidou-o a sentar-se e perguntou:

– Está apaixonado por Anabel? As suas últimas palavras, antes de subir para o quarto, foram direcionadas a ela.

Afrânio desviou o olhar do rosto de Crisélia enquanto perguntava:

– O que foi que eu disse?! Espero não ter sido inconveniente. A minha cabeça ainda dói e eu não consigo me lembrar. De qualquer forma, eu imagino que jamais poderia contar com a sua aprovação.

Crisélia sugeriu sorrindo:

– Por que não fica para o jantar? Aposto que Anabel logo estará aqui. E não precisa se preocupar porque, desta vez, não será uma armadilha: serviremos apenas suco de frutas.

FIM DO CAPÍTULO XIII
Sisi Marques

No próximo segmento, não perca a continuação da 5ª Parte (O Coração das Fontes da Juventude) da história “Realidade Mágica” – livro 1.

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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