REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 5 – O CORAÇÃO DAS FONTES DA JUVENTUDE (Capítulos X e XI)

Capítulo X
Naquela mesma noite, Tadeu, deitado na relva, começava a se perguntar por que a magia do cartão parara de atender às suas necessidades. Sentia fome, sede e frio. A floresta não era hospitaleira: não havia frutas, não havia animais; só havia um silêncio contínuo e insuportável. Tadeu pensava no dia seguinte: durante o dia, o clima seria mais agradável. Lembrou-se do apelo de Cibele para que ele retornasse. Não poderia voltar porque cada vez ficava mais difícil fingir um amor que não sentia e esconder um amor que o dilacerava. O ciúme que sentia ao ver Cibele e Eliel juntos só era tolerável porque a felicidade de Cibele compensava o seu sofrimento. Precisava achar o quanto antes a saída daquele labirinto. Quando chegasse à praia, encontraria um meio de pular o círculo de fogo; e a água fresca e cristalina do lago poderia matar-lhe a sede, refrescá-lo e fornecer-lhe o alimento de que tanto necessitava.

Tadeu, nem por um momento, poderia imaginar que o acesso ao lago fosse proibido. Almejava encontrá-lo para fugir àquela circunstância adversa. Lembrou-se da voz que ouvira pedindo ajuda. Certamente a desventura da jovem que chamava seu nome deveria ser maior do que o seu próprio infortúnio. Precisava sobreviver para ajudá-la. Ele adormeceu e, em seu sonho, encontrou-se com Cibele. Ela dizia: “Volte, Tadeu, por favor, volte. Você morrerá se não retornar.” Tadeu acordou assustado e não conseguiu mais dormir. Levantou-se e começou a caminhar. A fome e a sede assombravam-no implacáveis. Ele pensou em alimentar-se de raízes e lembrou-se do canivete que havia em seu bolso. Como todas as árvores eram desconhecidas, ele cortou um pedaço de raiz de uma árvore qualquer e começou a mastigá-lo. O gosto felizmente era bom e açucarado.

Enquanto Tadeu caminhava, pensava num modo de saciar a sede e passou a observar a vegetação. Nada parecia servir até que a visão de pequeninas plantas, que vagamente assemelhavam-se a cactos, encheu o seu coração de esperança. Ele apanhou uma delas e, ao mordê-la, sentiu um gosto indefinível. Embora a planta não tivesse sabor agradável, havia uma substância úmida em seu interior que aplacava a sede e o revigorava. Ele se sentiu bem consigo próprio e subiu em uma árvore para ver se conseguia avistar a praia; mas só o que via eram árvores e mais árvores iguais àquelas pelas quais ele já havia passado.

FIM DO CAPÍTULO X
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 5 –
O CORAÇÃO DAS FONTES DA JUVENTUDE
Capítulo XI
Enquanto Tadeu saboreava o gosto da decepção por estar andando em círculos; Crisélia e eu saboreávamos o café da manhã. Ela comentou:

– Eliel já deveria ter vindo nos visitar. Ele deve estar consolando Cibele. Talvez eu devesse ir até lá chamá-los para fazer-nos companhia. O que você acha?

Eu respondi:

– É uma boa ideia. Basta saber se ela aceitará o convite. Quando Cibele se entristece, torna-se inacessível.

Crisélia disse:

– Nesse ponto, ela e Eliel são bem parecidos. De qualquer modo, irei até lá para ver se consigo animá-la.

Crisélia, num picar de olhos, estava na sala de Eliel. Ao vê-lo caminhando de um lado para outro, ela perguntou:

– Está tudo bem?…

Extravazando sua impaciência, ele respondeu:

– Eu gostaria de poder fazer alguma coisa. Cibele não suportará perder Tadeu desse modo. Ontem, depois que voltamos da sua casa, sugeri que tentássemos entrar em contato com ele. Não conseguimos nada, e isso só serviu para entristecê-la ainda mais. Cibele está se fechando, e eu me sinto impotente por não conseguir ajudar Tadeu a livrar-se de um destino tão mesquinho. Embora eu sinta ciúme, eu não o quero mal. Ele se alegra com a felicidade dela e nunca pensou em si mesmo. Eu fico me perguntando como um rapaz tão bom pode pagar por um crime que nem imagina ter cometido. Ele morrerá sem saber por quê. Eu não culpo Cibele por estar tão distante e calada. Eu mesmo me sinto péssimo!

Crisélia exclamou:

– Pare de se atormentar! Nada do que está acontecendo é responsabilidade sua ou de Cibele! Talvez fosse o destino de Tadeu. Vocês já se alimentaram?

Eliel respondeu:

– Eu fiz um chá, mas ela se recusou a beber.

Crisélia disse:

– Eu falarei com ela.

Quando Crisélia entrou no quarto, surpreendeu-se ao ver Cibele, sentada na banqueta da penteadeira, segurando o seu espelho. Crisélia perguntou:

– Está tentando comunicar-se com Tadeu?

Cibele em vez de responder, perguntou:

– Você já sentiu ódio alguma vez?… Você acha que a revolta poderia fazer eclodir a maldade que sempre consegui evitar?… Eu sinto raiva, Crisélia, uma raiva tão intensa que faz com que eu desacredite do bem. O meu coração escureceu e parece que vai explodir. Nada mais importa! Nada mais faz sentido! Eu odeio aquele gênio prepotente e as suas leis! Ele é cruel e perverso! Embora ele soubesse o destino terrível que aguardava Tadeu, ele teve o requinte de torná-lo ainda pior. Ao suspender a magia do cartão, ele condenou Tadeu a privações e tornou impossível qualquer contato através do espelho. Ele é insensível e arrogante, e eu o odeio! Eu o odeio mil vezes!… Eu…

Cibele parou de falar, porque o pranto não permitiu que continuasse.

Crisélia disse:

– É natural que esteja magoada. Contudo, desacreditar do bem é o mesmo que expulsar o amor que existe em seu coração. Se você se entregar ao ódio e à revolta, afastará de sua vida a felicidade que Tadeu desejou tanto lhe proporcionar. Se já sentiu alguma afeição por ele, honre-a para que ele possa viver ou até mesmo morrer em paz. Não o decepcione. Se não consegue salvar Tadeu, preserve o que ele mais amou em você: a pureza e a bondade.

Cibele, entristecida, comentou:

– Você foi a primeira a acreditar que eu era má. O que a fez mudar de ideia?

Crisélia respondeu:

– Eu a julguei sem conhecê-la. Quando você se hospedou na minha árvore, eu pude enxergar a sinceridade que havia no seu amor por Eliel. Eu a considero mais do que minha cunhada: eu a considero minha irmã.

Crisélia conseguiu convencê-los a tomar café conosco. Quando os três chegaram à nossa casa, no entanto, uma surpresa desagradável os esperava. Foi Crisélia quem perguntou:

– O que faz aqui, Afrânio? Se eu soubesse que pretendia visitar-nos, eu não teria ido buscar Eliel e Cibele. Você não é bem-vindo e já deveria ter percebido isso.

Anabel intercedeu a favor de Afrânio:

– Não se zangue, Crisélia. Afrânio apareceu em casa e pediu-me que o trouxesse aqui, porque ele tem algo importante a dizer.

Eliel e Cibele sentaram-se à mesa e, após entreolharem-se, permaneceram calados. Afrânio confidenciou:

– Ontem à noite, depois que vocês saíram, Anabel e eu ficamos conversando mais um pouco, e ela levantou uma possibilidade bastante interessante. Eu pensei a respeito e solicitei uma audiência com o Conselho de Gênios. Tive a oportunidade de expor a teoria de Anabel e tecer alguns argumentos sobre ela. Lamento dizer que a reunião, ao contrário do que eu imaginava, foi um verdadeiro fracasso. As minhas palavras voltaram-se contra mim, e a situação agravou-se.

Incomodado ao verificar que apenas Anabel demonstrava interesse em ouvir o que ele dizia, Afrânio exclamou:

– Ignorem-me se quiserem! Eu apenas sigo ordens ou, pelo menos, seguia até ontem. O Conselho distorceu as minhas palavras e afirmou que Cibele deveria ser detida como cúmplice de Tadeu, para revelar quem é o mentor do crime. Os Conselheiros desejam saber quem passou as informações confidenciais sobre o lugar e com que propósito Tadeu se encontra lá. Quando eu falei sobre a possibilidade de Tadeu ser o Escolhido, eles pisotearam a minha argumentação e declararam a ideia absurda. Eu já cometi um erro de julgamento uma vez e não desejaria tornar a fazê-lo. Quando a reunião terminou, eu pensei em apresentar a minha renúncia, mas não o fiz por temer que outro gênio fosse enviado em meu lugar.

Eliel afirmou:

– Cibele não irá à parte alguma. Foi você com sua língua solta quem agravou a situação. Agora trate de descomplicá-la. Eu já lhe ordenei que saísse de nossas vidas.

Afrânio, aparentando sinceridade, perguntou:

– É assim que você me agradece? Estou disposto a desligar-me da Irmandade dos Gênios porque começo a acreditar que Tadeu possa ser o Escolhido. Eu só preciso ganhar tempo para evitar que venha outro em meu lugar.

Aventurei-me a perguntar:

– O que muda se Tadeu for mesmo o Escolhido?

Afrânio respondeu:

– Muda tudo. Segundo a lenda, o Escolhido obteria acesso ao Coração das Fontes da Juventude para restabelecer o equilíbrio. Consequentemente, se Tadeu for o Escolhido, existe mais alguém naquele lugar.

Cibele, num gesto de impaciência, levantou-se e caminhou até a sala. Parou em frente à janela e afastou a cortina para observar a chuva que começara a cair. Lembrou-se das palavras de Crisélia em relação a Tadeu e sentiu a serenidade voltar ao seu coração. Eliel aproximou-se para abraçá-la e disse:

– Não precisamos ficar aqui. Quer voltar à nossa árvore?

Cibele respondeu afirmativamente, e os dois desapareceram.

Na cozinha, Afrânio comentou:

– Tadeu, de qualquer modo, correrá perigo. E, graças à minha precipitação, ele está entregue à própria sorte! Uma vez interrompido o fluxo de magia para o cartão, não há como reverter o processo.

Fiquei surpreso quando Crisélia sugeriu a Anabel:

– Por que não acompanha Afrânio à sala enquanto Felizardo e eu preparamos o almoço?

Afrânio disse:

– Agradeço a gentileza, mas não posso ficar.

Crisélia, para a minha decepção, insistiu:

– Terá que inventar uma boa desculpa para fugir à nossa companhia. Sabemos que você é nosso amigo e está fazendo de tudo para proteger Cibele. Fazemos questão que fique para almoçar conosco.

Afrânio, encabulado, respondeu:

– Se você insiste, Crisélia, eu aceito. Confesso que nunca fui tratado com tanta amabilidade. A companhia de outros gênios só reforça os atributos que possuímos em comum… Há partes da minha personalidade que eu gostaria de desenvolver. Depois que tudo isso acabar, deixarei de pertencer à Irmandade como fez Ermínio, o diretor da biblioteca.

Anabel exclamou surpresa:

– Ermínio também é um gênio?!… Quem diria?!…

Afrânio declarou com austeridade:

– O segredo deve ser mantido.

Anabel, como Crisélia havia sugerido, acompanhou Afrânio à sala para continuarem a animada conversa. Enquanto isso, eu perguntava a Crisélia:

– Se desejava companhia para o almoço, por que não convidou Eliel e Cibele?! A refeição será indigesta, e você sabe disso melhor do que ninguém. É domingo, Crisélia! Esta semana será cheia! Além dos compromissos que tenho, ainda há essa preocupação com Tadeu e Cibele.

Crisélia afirmou:

– Ele está escondendo algo, Felizardo. E só conseguiremos descobrir o que é se o embebedarmos.

Protestei:

– Não conte comigo! Sairei para comer em um restaurante ou até mesmo poderei almoçar na árvore de Eliel e Cibele… Irei para qualquer lugar só para não participar dessa deslealdade.

Para convencer-me a permanecer em casa, Crisélia disse:

– O meu plano não surtirá efeito sem a sua presença. Ele só se sentirá à vontade para revelar-nos tudo se você estiver por perto, incentivando-o a beber. Por favor, querido, faça isso por mim. Precisamos descobrir o que ele esconde para conseguirmos ajudar Cibele.

FIM DO CAPÍTULO XI
Sisi Marques

No próximo segmento, não perca a continuação da 5ª Parte (O Coração das Fontes da Juventude) da história “Realidade Mágica” – livro 1.

Grata,
Sisi Marques

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