REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 5 – O CORAÇÃO DAS FONTES DA JUVENTUDE (Capítulos VIII e IX)

Capítulo VIII
Naquele mesmo dia em que Afrânio foi me procurar na biblioteca, convidei-o a jantar em casa para que pudéssemos ter a oportunidade de conversar melhor sobre o assunto que o afligia e interessava a todos nós. Eliel colocava uma resistência indestrutível àquele encontro, chegando mesmo a dizer:

– Você não conseguirá convencer-me a trazer Cibele. Embora eu seja pacífico, se ele começasse a ofendê-la, eu não responderia por mim. O que está feito está feito. Ele teve a oportunidade de entregar a ela a água da Fonte e recusou-se. Agora, que vá pedir ajuda em outro lugar. Eu não conseguiria nem mesmo olhar para ele depois dos absurdos que ele disse. A resposta é não, Felizardo. Não adianta insistir.

Aventurei-me a dizer:

– Ele não está pedindo a nossa ajuda. Ele está interessado em ajudar-nos a desfazer o mal-entendido em relação a Cibele.

Eliel exclamou:

– Que mal-entendido?!… Ele que responsabilize a mim e não a ela! Se Afrânio a ofender, ela não conseguirá se recuperar e ameaçará abandonar-me outra vez. Eu prefiro ignorar Afrânio a perder Cibele.

Afrânio, que surgira na sala conduzido por sua magia, perguntou:

– Como está, Eliel?

Com o semblante fechado, ele respondeu:

– Muito melhor antes de você chegar. Vá logo ao assunto. E estou lhe avisando: se ofender Cibele, eu esqueço tudo o que a minha mãe ensinou-me sobre a nossa natureza pacífica.

Revestindo-se de seriedade, Afrânio disse:

– Está bem, já entendi o recado. Eu preciso falar com sua esposa. Você estará presente, e eu prometo portar-me como um cavalheiro.

Eu insisti:

– Por favor, Eliel, se você não a trouxer, não poderemos resolver o assunto.

Eliel não respondeu. Usando a magia do anel, ele desapareceu e, minutos depois, retornava acompanhado de Cibele. Anabel, que chegara pouco antes, também estava presente na sala. Apenas Crisélia estava na cozinha preparando o jantar.

Afrânio, ao deparar-se com Cibele, comentou:

– Eu a conheço, só não consigo me lembrar de onde.

Cibele exclamou:

– Impossível! Se eu o tivesse visto antes, certamente me lembraria.

Eliel começou a incomodar-se com o modo insistente que Afrânio olhava para Cibele. Preparava-se para dizer algo quando Afrânio exclamou:

– Agora eu me lembro!… Você é a garotinha de aura perfumada!

Cibele preferiu calar-se e colocou o braço ao redor da cintura de Eliel como um convite para que ele também a abraçasse.

Afrânio aproximou-se de Cibele e preparava-se para tocar sua fronte quando Eliel segurou-o pelo pulso.

Anabel intercedeu a favor de Afrânio:

– Solte-o, Eliel. Está tudo bem. Ele não pretendia machucá-la.

Eliel soltou o braço de Afrânio; e ele, após massagear o pulso, colocou a mão na fronte de Cibele para ajudá-la a lembrar-se.

Logo em seguida, Cibele exclamou:

– Você era o homenzinho dentro do garrafão! Eu pensei que fosse um duende, e você disse que era um gênio. Eu o libertei, e você, receando que a minha mãe e as outras bruxas me castigassem, tornou a prender o lacre e fez um corte circular no garrafão, para que elas pensassem que você havia escapado através dele. Por que só estou me lembrando disso agora?…

Fitando o rosto de Cibele, Afrânio explicou:

– Eu ordenei a você que esquecesse para protegê-la das outras bruxas. Eu tive receio de que você, na sua ingenuidade, revelasse que havia me libertado. Elas a teriam punido certamente. Consegue lembrar-se do presente que lhe dei?…

Cibele sorriu ao responder:

– Sim. Foi você quem me deu o bastão. E eu acreditando o tempo todo que o bastão tivesse sido um presente do meu pai!…

Ele perguntou:

– Onde está o bastão?… Você sabe com que finalidade eu lhe dei aquele presente?…

Cibele respondeu:

– Eliel e eu o quebramos na esperança de reabrir o portal que conduzia à minha dimensão. Houve uma explosão de luz em duas tonalidades: branca e verde. Ao contrário do que pretendíamos, a explosão serviu apenas para fechar as passagens.

Esquadrinhando o rosto de Cibele, Afrânio perguntou:

– O bastão não lhe serviu para mais nada?!… Não houve um momento em que uma certeza súbita emergiu de seu coração?!…

Cibele, encabulada, respondeu sorrindo:

– Sim. Quando eu estava no corredor abaixo do porão, e Eliel usou sua magia para transportar-me à sua árvore; eu olhei para o bastão e pude verificar que a luz branca em seu interior cedera lugar à luz verde. Uma confusão de sentimentos invadiu todo o meu ser, e eu tive a certeza de que Eliel era a minha alma gêmea.

Afrânio afirmou:

– O bastão cumpriu sua função, porque era essa a sua finalidade. Um coração tão generoso quanto o seu não poderia sofrer uma decepção amorosa. Eliel soube escolher, Cibele. E você também.

Cibele, emocionada, agradeceu. Ele, porém, com o semblante contraído, disse:

– Não me agradeça porque estou em débito com você. Eu deveria ter confiado no julgamento de Eliel. Se você soubesse as coisas horríveis que eu disse movido pelo preconceito! Eu tive a oportunidade de retribuir o seu favor ofertando-lhe a água da Fonte, mas, em vez disso, zombei do pedido e do desespero de Eliel. Agora que estou arrependido, as Fontes secaram, e eu não tenho nada a lhe oferecer. Eu sou um monstro!… Imagine que ainda cheguei aqui com a ideia fixa de jogar mais acusações em seu rosto!… O que posso fazer para obter o seu perdão?…

Cibele desprendeu-se de Eliel para aproximar-se de Afrânio e beijar-lhe o rosto. Crisélia, que entrava na sala para convidá-los a sentarem-se à mesa, teve a oportunidade de ouvi-la dizer:

– Como posso desprezar o gênio que indicou a estrada certa para o meu coração?! Se não fosse por você, eu jamais teria me encorajado a conquistar o amor de Eliel. Além disso, o bastão que me ofertou prestou serviço inestimável ao minimizar a desventura de Tadeu e Anabel. Obrigada, Afrânio. Eu aceito a sua amizade.

FIM DO CAPÍTULO VIII
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 5 –
O CORAÇÃO DAS FONTES DA JUVENTUDE
Capítulo IX
O jantar transcorreu normalmente porque conversávamos sobre trivialidades. Entretanto, após o jantar, voltamos à sala, e o conflito reacendeu quando Afrânio disse a Cibele:

– O seu amigo não deveria estar naquele lugar, e você não deveria ter usado o seu espelho para comunicar-se com ele. Serei forçado a pedir-lhe que me entregue o espelho. Quando tudo terminar, prometo devolvê-lo.

Cibele exclamou:

– Você só pode estar brincando!…

Afrânio, fixando o olhar no rosto de Cibele, revelou:

– Na dimensão dos gênios, existe uma abóbada que exibe os lugares que precisamos proteger. Essas regiões são representadas por círculos luminosos, e um deles corresponde ao Coração das Fontes da Juventude. Como o próprio nome sugere, é esse local que abastece todas as Fontes. Quando as Fontes secaram, fomos examinar a abóbada e verificamos que havia uma nebulosidade sobre esse círculo. A presença do seu amigo, a utilização dos objetos que ofertei a Felizardo e a interferência da magia do seu espelho foram as causas apontadas. Eu só poderei protegê-la se você me entregar o seu espelho. Eu só conseguirei livrar-me se eu interromper a magia do cartão.

Cibele, entre preocupada e aflita, perguntou:

– E quanto a Tadeu, como conseguirá sobreviver?!…

Afrânio, implacável, respondeu:

– Lamento dizer que não haverá salvação para ele. A minha magia não lhe fornecerá mais suprimentos, e ele morrerá de fome e sede. Caso sobreviva, será uma presa fácil para os dragões.

Os olhos de Cibele encheram-se de lágrimas, e o seu semblante exibia sua relutância em acreditar no que ouvira. Descontrolando-se, ela exclamou:

– Você é um monstro!… Prestou atenção em suas próprias palavras?!… Estamos falando de um ser humano! Estamos falando de Tadeu! Ele é inocente.

Sem alterar o tom de voz, Afrânio disse:

– No seu modo de pensar, ele não é um criminoso. Entretanto, ele infringiu a lei dos gênios e receberá a punição que merece. Se o invasor morrer antes de tocar a água do lago, o equilíbrio poderá ser restabelecido. Certamente os dragões cuidarão para que ele não se aproxime do lago.

Cibele sentou-se pesadamente em uma poltrona e desligou-se do ambiente ao seu redor. Estava presa num emaranhado de emoções e sentimentos. Eliel agachou-se ao seu lado antes de perguntar:

– Você está bem?…

Cibele respondeu:

– Não, eu não estou. Preciso falar com Tadeu e avisá-lo sobre o destino trágico que o espera se ele insistir em continuar bancando o herói e não se afastar correndo daquele lugar.

Foi Afrânio quem perguntou:

– Que heroísmo pode haver em um aventureiro desmiolado?

Cibele levantou-se e, com o olhar incandescente, aproximou-se de Afrânio para dizer:

– Não projete as suas falhas de caráter em Tadeu. Ele só atravessou o portal porque a princesa que foi aprisionada no castelo chamou por ele e pediu-lhe que a salvasse.

Afrânio, após rir de gosto, declarou:

– Não há nenhuma princesinha em apuros naquele castelo. Quem reside lá é a Feiticeira. Segundo a lenda, ela é uma bela jovem que desconhecesse a fragilidade. Ela é a Guardiã do Coração das Fontes da Juventude e não mede esforços para perpetuar o abastecimento das Fontes. Ou o seu amiguinho inventou essa história, ou ele tem um parafuso a menos.

Cibele revelou:

– Tadeu não me contou nada. Eu vi o quadro em movimento na pedra atrás da cachoeira: havia uma floresta, uma praia, um círculo de fogo, um lago, um castelo no centro do lago e sete dragões alados sobrevoando o castelo.

Afrânio, desconfiado, esquadrinhou o rosto de Cibele antes de perguntar:

– Quem lhe deu essa informação?… Se não me disser, eu tenho meios de descobrir.

Antes que Eliel pudesse dizer algo com a intenção de protegê-la, Cibele perguntou exalando ironia:

– O que pretende fazer?… Deixe-me adivinhar… Você tem duas opções: ou me aprisiona em uma ânfora de ouro, como fez ao seu irmão; ou me aprisiona em um garrafão velho e fedorento, como a minha mãe e suas amigas fizeram a você. Agora, gênio, responda-me: quem é pior do que quem?

Após uma ligeira pausa, Cibele acrescentou:

– Preste bastante atenção, Afrânio, porque eu pretendo lhe dizer apenas uma vez: alertarei Tadeu, e você não conseguirá me impedir.

Afrânio disse:

– Você não está facilitando o meu trabalho, Cibele. Eu não acredito que tenha visto o quadro. Ninguém sabe como é o lugar. Ninguém jamais viu a Feiticeira. Desconhecíamos o local onde a conexão entre as duas dimensões poderia ocorrer. Você precisa mencionar a fonte dessa informação para que possamos averiguar que propósito maligno se esconde por trás dessa aparente ingenuidade de Tadeu.

Eliel estava abraçado à Cibele quando exclamou:

– Você é intratável e ridículo! Não posso mais submeter Cibele a essa situação desgastante!

Afrânio sentenciou:

– Você não tem escolha.

Eliel afirmou:

– Sempre há escolhas. Cibele tem suas próprias leis e jamais poderá curvar-se à lei dos gênios. Ela só ouve o próprio coração e a própria consciência. Nunca mais nos procure.

Endereçando um olhar carinhoso a Cibele, Eliel sugeriu:

– Vamos embora, meu anjo. A nossa paciência já ultrapassou o limite do tolerável.

Foi Crisélia quem disse ao vê-los desaparecer:

– Eu não sei como Cibele conseguiu permanecer aqui tanto tempo. Impulsiva como ela é, se não fosse o seu desejo sincero de ajudar Tadeu, ela já teria deixado você, Afrânio, falando sozinho desde o início dessa conversa absurda.

Afrânio, pensativo, não emitiu nenhum comentário. Anabel, aproveitando-se de seu silêncio, perguntou:

– Por que não acredita que ela tenha visto o quadro?

Afrânio, olhando nos olhos de Anabel, respondeu:

– Porque, segundo a lenda, apenas o Escolhido teria permissão de vê-lo.

Anabel arriscou uma nova pergunta:

– Poderia ser Tadeu o Escolhido?…

Afrânio exclamou:

– Pouco provável! O Escolhido teria que ser alguém muito especial. Alguns atributos seriam indispensáveis: mansidão, bondade, generosidade e retidão de caráter.

Anabel afirmou:

– Tadeu encaixa-se perfeitamente nessa descrição.

Afrânio discordou:

– Eu não acredito que você o tenha em tão alta conta. Desde que ele começou a usar a magia da caneta e do cartão, eu o tenho observado. Ele gosta de praticar esportes e trabalha em um restaurante. Cabeça vazia, bolsos vazios e coração transbordando de amor por Cibele. Como pode defendê-lo se ele nunca amou você? Ele a enganou para que Cibele tivesse a oportunidade de se aproximar de Eliel.

Anabel confessou:

– Ele não me enganou; eu sabia o tempo todo que ele amava Cibele.

Afrânio ousou perguntar:

– Por que desistiu de Eliel se ainda estava apaixonada por ele?

Anabel respondeu:

– Porque imaginei que era isso que Eliel esperava que eu fizesse; nem por um momento, ele se preocupou em esconder a sua fascinação por Cibele. Mas eu não quero mais ficar falando sobre esse assunto. São águas passadas! Ainda bem que Felizardo e Crisélia deixaram a sala. Eu não quero que saibam que ainda amo Eliel. Quando pensei que ele fosse se separar de Cibele, eu disse a ele que o aceitaria de volta. Eu sei que foi uma grande tolice!

Atencioso, Afrânio comentou:

– Seja paciente porque um grande amor ainda poderá surgir em sua vida. Agora, voltando a nos concentrar em Tadeu, a ligação entre ele e Cibele deve ser mesmo muito forte; do contrário, ela não teria conseguido ver o quadro e o portal através dos olhos dele. É impressionante! Ele viu essas imagens e encontrou um modo de fazer com que ela visse aquilo que só ele poderia ver. Anabel, infelizmente temos que encerrar este nosso encontro porque preciso solicitar uma audiência com os gênios responsáveis pela preservação daquele lugar. Espero vê-la em breve.

Anabel disse:

– Aguardo o seu retorno.

FIM DO CAPÍTULO IX
Sisi Marques

No próximo segmento, não perca a continuação da 5ª Parte (O Coração das Fontes da Juventude) da história “Realidade Mágica” – livro 1.

Grata,
Sisi Marques

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Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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