UNIDOS NA BUSCA PELA PAZ (Parte 6)

Duas semanas se passaram desde o encontro do príncipe Leopoldo com o rei Clemêncio. Em seu castelo, o rei Adelmo deliciava-se com o impacto que suas constantes ameaças de invasão causava no reino vizinho. Sentado em seu rico trono, ele disse a Teotônio, o único homem em quem ele confiava:

– Tenha paciência, meu caro. O ataque pode esperar, porque o inimigo já está aterrorizado. Clemêncio sabe que podemos calcar o seu reino como se extermina um inseto desprezível. Muito em breve, tudo o que é dele será nosso, e aí sim a minha vingança estará completa.

Deixando transparecer certa preocupação, Teotônio aventurou-se a dizer:

– Perdoe-me contrariá-lo, Majestade; mas creio estarmos desperdiçando um tempo valioso. Enquanto esperamos, o exército do rei Clemêncio pode estar aprimorando suas técnicas de combate. O momento é agora. Basta que Vossa Majestade dê o comando, e estaremos prontos para aniquilar o inimigo.

O rei Adelmo, com o cotovelo apoiado sobre o braço de seu confortável trono, acariciava o queixo com o polegar e o indicador da mão esquerda, enquanto dizia:

– Meu amigo, não estrague a minha diversão! Ainda terei o prazer de ver Clemêncio ajoelhar-se pedindo clemência humildemente. Essa foi boa!… Clemêncio pedindo clemência!… Aquele verme há de vir aqui rastejar-se, implorando para que essa guerra não se inicie.

Nem bem o rei acabou de falar e rir de suas próprias palavras, uma mensagem foi entregue a Teotônio por um dos subordinados. Abrindo-a imediatamente, Teotêonio comunicou ter sido enviada pelo rei Clemêncio. Um brilho malicioso nos olhos do rei Adelmo ordenava a Teotônio que lesse a tão aguardada missiva.

Após ouvir atenciosamente, sem interromper Teotônio uma única vez, o rei soltou uma estrondosa gargalhada ao comentar:

– Compreendeu agora, meu caro, como vale a pena esperar?! O covarde receia enfrentar-me e manda o casal de pombinhos em seu lugar. Como é patético! A pirralha casou-se e virá acompanhada de um fedelho qualquer, para negociar um tratado de paz!… Clemêncio superou-se!… A vitória será ainda mais doce do que eu imaginava.

Imitando o rei, Teotônio colocou um sorriso matreiro nos lábios antes de dizer:

– Naturalmente, Vossa Majestade proporcionará a eles uma acomodação duradoura!

Saboreando o que parecia ser uma vitória certa, o rei Adelmo exclamou:

– Você compreendeu a essência da vingança! Ela tem que ser degustada aos poucos, lentamente… Não imagina o prazer que terei ao separar aqueles dois e prendê-los em lugares tão distantes que jamais terão a ventura de reencontrar-se. Talvez, depois; mas não nesta vida! Eu odeio aquela pirralha! Só o seu nome já me leva à loucura!… Clemêncio, aquele infame, retirou apenas uma letra do nome de Lauara, na tentativa de camuflá-lo. Cretino! Foi o mesmo que declarar publicamente que ainda a amava. Não é de se admirar que Adamantina, a esposa desprezada, tenha morrido logo depois que a filha nasceu.

O príncipe Leopoldo e a princesa Luara só chegaram ao reino de Adelmo após três dias. O rei, com sua satisfação diabólica, mal conseguia caber em si. Deu ordens e mais ordens; mas tudo caiu por terra no momento em que ele fitou o rosto do esposo da princesa Luara. Colérico, ele bradou:

– Sua víbora! Como pôde apunhalar-me pelas costas?!… Eu, o seu pai!… Como pôde fazer isso comigo, com a minha própria casa, com o meu reino?!… Você, a única pessoa que eu amei, o meu único filho!… Eu deveria mandar matar você e essa sua mulherzinha de araque!… Só não faço isso em memória de sua mãe e em benefício próprio, porque Lauara certamente levantaria do túmulo para assombrar-me. Saia por aquela porta e volte pelo mesmo caminho por onde veio, antes que eu vomite todo o asco que a presença de vocês me causa!

O príncipe Leopoldo não parecia surpreso. Era exatamente desse modo que ele, em sua imaginação, vira o seu pai reagindo. Conhecendo-o como o conhecia, sabia que ele não poderia ter reagido de outra forma. Altivo, o príncipe Leopoldo segurou a mão de sua jovem esposa, virou as costas para o pai e nunca mais o viu.

Felizmente, apesar da tristeza que tal encontro deixara no coração do príncipe Leopoldo, a partir desse dia, as ameaças de guerra cessaram, e os habitantes do reino de Clemêncio puderam abraçar a paz tão almejada.

Após a morte do rei Adelmo, o príncipe Leopoldo recebeu a solicitação do povo para retornar e ocupar o seu lugar de direito. Desse modo, Leopoldo e Luara tornaram-se regentes dos dois reinos, exatamente como a vida havia previsto.

F I M

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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