REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 5 – O CORAÇÃO DAS FONTES DA JUVENTUDE (Capítulos VI e VII)

Capítulo VI
Quando Crisélia, Eliel e Cibele chegaram para o jantar, eu estava na sala conversando com Anabel. Após os cumprimentos, Anabel disse:

– Eu duvidei que Crisélia conseguiria convencê-la a vir. Como está, Cibele?

Ela respondeu:

– Eu estou bem melhor, obrigada. Eu sinto muito por Tadeu. Eu tencionava acompanhá-lo para evitar que algum mal lhe acontecesse. Infelizmente a situação fugiu ao meu controle. Mas não podemos perder a esperança; ele há de retornar.

Anabel disse destilando ironia:

– Ele agiu por conta própria. Eu me recuso a ficar chorando pelos cantos. Agora que você e Eliel se separaram quando pretende voltar à sua dimensão?

Cibele, que não esperava a pergunta, sentiu-se vulnerável e desprotegida. Eliel, sentado ao seu lado, abraçou-a carinhosamente enquanto dizia a Anabel:

– Cibele e eu nunca nos separamos. Se depender de mim, ela jamais colocará os pés naquela dimensão novamente.

Eliel olhou para o rosto de Cibele e viu em seus olhos a mesma expressão que ele aprendera a amar. Ela sorriu e ele, esquecendo-se da nossa presença, beijou-a ternamente.

Naquela mesma noite após o jantar, eu disse a Eliel:

– Lembra-se de quando tentamos contatar Afrânio? Desde aquele dia, a caneta e o cartão ficaram com Tadeu. Ele poderia utilizá-los para comunicar-se com Cibele.

Eliel e Cibele entreolharam-se, e ele desapareceu. Ao retornar com o espelho, ele disse a Cibele:

– Vamos para a sala; lá ficaremos mais confortáveis.

Anabel já havia se despedido e retornado à sua casa meia hora antes. Apenas Crisélia e eu os acompanhamos à sala. Sentando-se no sofá ao lado de Cibele, Eliel pediu-lhe que segurasse o espelho. Ele a abraçou enquanto dizia:

– Concentre-se. Pense em Tadeu e procure desenhar o rosto dele na tela da sua imaginação. Lembre-se do momento em que ele estava obcecado com a ideia de levá-la ao Poço das Fadas. Você consegue ver a cachoeira se abrindo como uma tênue cortina de água. Agora você está contemplando o quadro na pedra. A água do lago sofre ondulações devido à ação incansável do vento. As asas dos dragões se abrem majestosamente, e eles sobrevoam o magnífico castelo. Dentro desse castelo, uma voz ecoa por toda a paisagem, chamando por Tadeu. O fogo se agiganta e demarca o seu domínio. Você consegue sentir o contraste entre o frescor da água e o calor do fogo. Embora haja contraste, ainda existe harmonia e simetria. A praia circunda e delimita o alcance do fogo. A floresta é a moldura que esconde a preciosa paisagem. Você está no interior desse labirinto verde e escuta o farfalhar das folhas das árvores. A paz coloca em seus cabelos uma grinalda de flores perfumadas. Agradecida, você encontra a saída que se abre na pedra. Ela permanece aberta porque aceita a sua presença. A cachoeira também se abre e esse ambiente passa a lhe pertencer. Você tem o poder de abrir e fechar a passagem. Neste momento, você ordena que ela se mantenha aberta e lhe mostre o rosto de Tadeu. Consegue vê-lo, meu amor?…

Cibele murmurou:

– Não, ainda não.

Eliel disse:

– Concentre-se. Ele ama você e anseia ouvir o som da sua voz. Chame o nome dele. Chame-o e torne a chamá-lo. A sua voz atrai a atenção de Tadeu de um modo irresistível. Todos os outros sons se calam para que a sua voz ecoe em todas as direções até alcançá-lo.

Cibele exclamou finalmente:

– Eu consigo ver o rosto de Tadeu!

Cibele ficou radiante quando ouviu Tadeu perguntar:

– Cibele, é você?! Eu posso ouvir a sua voz e sentir a sua presença. Responda-me: onde você está?!… Eu me recuso a acreditar que este momento seja apenas um delírio, uma alucinação…

Foi Eliel quem disse:

– Você deve estar com o cartão mágico. Concentre a sua atenção nele e conseguirá ver o rosto de Cibele. Concentre-se, Tadeu. Não deixe a emoção anuviar o seu pensamento. O seu amor por Cibele é maior do que a distância que os separa. Consegue vê-la?… Ela está contemplando o seu rosto no espelho. Consegue ver o rosto dela refletido no cartão?…

Tadeu respondeu afirmativamente, e Eliel disse a Cibele:

– Converse com ele. O tempo é nosso recurso mais valioso.

Cibele, emocionada, respirou profundamente e disse:

– Tadeu, eu fiquei desesperada quando a passagem se fechou. Pensávamos que tivéssemos perdido você. Consegue voltar?

Tadeu confidenciou:

– Cibele, essa não foi a primeira vez que eu utilizei o portal. Eu já o havia testado antes e sabia que só havia tempo para uma pessoa atravessá-lo. Eu só pedi a você que me acompanhasse, porque precisava da força do seu olhar para ajudar-me a seguir em frente. Este lugar é muito estranho. Apesar do silêncio absoluto, eu tenho a sensação de estar sendo vigiado constantemente. Esta floresta é um imenso labirinto… Eu ainda não consegui localizar a praia.

Cibele murmurou:

– Tadeu, por favor, volte. O seu lugar é aqui ao nosso lado.

Tadeu confessou:

– Eu não amo Anabel. Só me aproximei dela para que você pudesse ser feliz ao lado de Eliel. Eu precisei partir porque não posso continuar vivendo à sombra do meu amor por você. Preciso descobrir quem sou e encontrar o meu próprio destino.

Cibele não teve a oportunidade de despedir-se de Tadeu porque a magia de seu espelho enfraqueceu, e a comunicação foi interrompida. Eliel perguntou:

– Você está bem, amor?

Cibele balançou a cabeça afirmativamente, e os dois continuaram abraçados no sofá.

Crisélia e eu saímos para deixá-los sozinhos.

FIM DO CAPÍTULO VI
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 5 –
O CORAÇÃO DAS FONTES DA JUVENTUDE
Capítulo VII
No sábado, quando eu começava a narrar a última história durante a minha sessão na biblioteca, um visitante inesperado entrou na sala e sentou-se em meio à plateia. Era Afrânio: rosto jovem; cabelo negro, liso e reluzente, todo puxado para trás e preso com uma discreta fivela. O seu semblante parecia nublado, e as nuvens de preocupação eram tão espessas que eu duvido que ele estivesse conseguindo me ouvir. Quando a apresentação terminou, aproximei-me dele para convidá-lo a ir à confeitaria. Nesse exato momento, Anabel, que também fizera uma pausa em seu trabalho, entrou na sala. Perguntei a ela:

– Gostaria de acompanhar-nos à confeitaria?… Lembra-se de Afrânio?

Cumprimentando Afrânio, Anabel comentou:

– Como eu poderia esquecê-lo? Eliel ficou fora de si quando ele se recusou a ofertar a água da Fonte da Juventude a Cibele pelo fato de ela ser uma bruxa. Até hoje Cibele pensa que não conseguimos contatá-lo. Lembro-me de que Eliel preferiu omitir a recusa para não magoá-la.

Sorrindo amigavelmente, Afrânio disse:

– O jovem elfo foi muito imprudente ao romper o seu relacionamento com você para unir-se àquela bruxa. Se consentir em acompanhar-nos, gostaria de contar-lhes uma experiência infeliz que tive ao me apaixonar por uma dessas criaturas.

Nós três começamos a caminhar e Afrânio, durante o trajeto à confeitaria, contou-nos a seguinte história:

– Ela se fez passar por uma jovem adorável e envolveu-me com os seus encantos. O nosso relacionamento passou de intenso a sério com uma rapidez impressionante. A pedido dela, fui à sua dimensão conhecer suas amigas. Ela disse que haveria uma festa para oficializarmos nosso romance. Ela me enganou terrivelmente: quando cheguei lá, só o que havia era uma emboscada fatal. Ela e suas amigas, aproveitando-se da minha inadaptabilidade àquela dimensão, fizeram um encantamento e prenderam-me em um garrafão velho e sujo. Eu passei algumas horas inalando aquele azedume, perguntando-me por que razão a bruxa teria se dado a todo aquele trabalho para atrair-me, e eu compreendi que só poderia haver um motivo: ela e suas amigas buscavam a localização das Fontes da Juventude. Foi então que o inesperado aconteceu: uma garotinha desceu à cozinha para apanhar algumas guloseimas e reparou no garrafão que estava abandonado a um canto. Ela se agachou e começou a observar-me com ternura. Lembro-me de tê-la ouvido pronunciar a palavra “duende”. Eu disse a ela que eu não era um duende e sim um gênio que precisava ser libertado. Ela empenhou-se em retirar o lacre do gargalo, e foi desse modo que eu consegui escapar. Se não fosse por aquela garotinha de aura branca que recendia a jasmim, talvez hoje eu não estivesse aqui.

Comentei:

– Essa experiência não pode eclipsar o seu julgamento sobre Cibele. Eu aprovei integralmente a reação tempestuosa que Eliel teve quando você começou a ofendê-la. Você certamente mudaria de opinião se viesse a conhecê-la.

Afrânio exclamou:

– De bruxas, eu quero distância! Só o que elas sabem fazer é praticar maldade sobre maldade. E é exatamente para falar a esse respeito que estou aqui.

A essa altura, nós já havíamos chegado à confeitaria e interrompemos a conversação para fazer o pedido à garçonete. Quando ela se afastou, Anabel perguntou:

– Poderia ser mais claro?!…

Afrânio, após respirar profundamente, revelou:

– O equilíbrio entre o Coração das Fontes da Juventude e esta dimensão foi quebrado. Mesmo que hoje eu mudasse de opinião a respeito dessa tal bruxa, eu não poderia ofertar a ela a água, porque as Fontes da Juventude secaram inexplicavelmente. Nós, gênios, nos reunimos para tentarmos identificar as causas e conseguimos levantar uma possibilidade que foi confirmada há dois dias: alguém invadiu aquela região sagrada. A princípio, receei tratar-se de Derlo porque infelizmente ele conseguiu escapar da ânfora. Mas anteontem pudemos verificar que os invasores são outros.

Endereçando a mim um olhar recriminador, ele comentou:

– Deveria guardar melhor os seus pertences. Eu não lhe ofertei a caneta e o cartão para servirem aos propósitos daquela bruxa e de seu cúmplice. Ele invadiu o santuário, e ela, através de seu espelho, conseguiu entrar em contato com ele para dar-lhe instruções. Graças à sua negligência, aquele ambiente foi violado duplamente: pela presença do jovem e pela comunicação invasiva da bruxa.

Anabel e eu nos entreolhamos perplexos. Eu expliquei ou, pelo menos, tentei explicar:

– Tadeu é apenas um jovem inocente e ingênuo que foi atraído pelo portal; e Cibele, preocupando-se com sua segurança, só conseguiu se comunicar com ele com a ajuda de Eliel. A ideia de usar o cartão e o espelho partiu de mim. Não há culpados.

Afrânio exclamou:

– É aí que você se engana! Tanto eu quanto a bruxa teremos que responder por esse crime. Eu, por ter ofertado a você a caneta e o cartão; e ela, por ter profanado o lugar com a magia de seu espelho. Quanto ao invasor, o próprio lugar encarregar-se-á de puni-lo. Eu só espero que isso aconteça antes que ele ouse tocar a água do lago.

FIM DO CAPÍTULO VII
Sisi Marques

No próximo segmento, não perca a continuação da 5ª Parte (O Coração das Fontes da Juventude) da história “Realidade Mágica” – livro 1.

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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