REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 5 – O CORAÇÃO DAS FONTES DA JUVENTUDE (Capítulos III, IV e V)

Capítulo III
Na manhã seguinte, Anabel foi à arvore de Eliel para perguntar:

– Você conseguiu localizá-la?

Ele respondeu sereno:

– Sim, ela está na árvore de Crisélia.

Anabel, pensativa, perguntou:

– E por que ela escolheu dirigir-se para lá? As duas não se falam.

Eliel, procurando esquivar-se do interrogatório de Anabel, respondeu:

– Talvez seja exatamente por esse motivo: ela desejava ficar sozinha.

Anabel comentou:

– Eu estive aqui ontem à noite para obter notícias, mas você não estava. Eu preciso saber onde Tadeu está e por que ele foi embora desse jeito. Se ele estava cansado das minhas cobranças, por que não disse?!… Nós mal nos víamos, e eu estava ressentida com a distância que ele colocava entre nós. Se não estava na praia, estava na academia. Depois que voltou a praticar artes marciais, como fazia antes da bruxa tê-lo raptado, ele começou a ir ao Poço das Fadas para meditar. Foi por essa razão que pedi a Cibele que conversasse com ele. Eu juro que nem por um momento imaginei que essa minha atitude pudesse reaproximá-los.

Eliel confidenciou:

– Ela mentiu para mim. Anteontem, você se lembra que eu retornei sozinho do jantar na sua casa porque Cibele desejava conversar com Tadeu. Quando ela apareceu mais de uma hora depois, disse que combinara de encontrá-lo no restaurante na manhã seguinte. Ontem, quando eu voltei da apresentação na biblioteca e fui ao restaurante, disseram que fazia mais de uma semana que Tadeu não comparecia ao trabalho, e o gerente já estava pensando em substituí-lo. Procurei por Cibele e fui encontrá-la no Poço das Fadas chorando, sentada em uma pedra, toda molhada e sozinha.

Anabel comentou:

– Eu não compreendo como o portal pôde se abrir para Tadeu e fechar-se para Cibele. É muito estranho!… Talvez Tadeu consiga encontrar o caminho de volta.

Receoso, Eliel perguntou:

– Acredita que ele possa voltar para buscá-la?

Anabel afirmou:

– Só uma coisa é certa: ele não pretendia partir sozinho. Ele nunca esteve apaixonado por mim; ele apenas fingiu estar para atrair-me e deixar o caminho livre para Cibele. Talvez ela tenha se arrependido da escolha que fez.

Eliel exclamou:

– Isso é impossível! Cibele nunca deixou de me amar!

Antes de girar o anel que a levaria de volta para casa, Anabel afirmou:

– O seu desespero confirma a minha teoria. Pense bem: não poderíamos censurá-los se decidissem voltar atrás em sua decisão. Nós dois também poderíamos fazer o mesmo. O meu sonho de felicidade ao lado de Tadeu já está destruído. O seu sonho de felicidade ao lado de Cibele está prestes a ruir. Eu temo a solidão mais do que a própria morte e não estou disposta a passar a eternidade sozinha. Eu já me senti atraída por você, e a recíproca é verdadeira. Poderemos reconstruir a nossa felicidade se nos permitirmos lembrar o que já significamos um para o outro. Se estiver disposto a recomeçar, eu também estarei.

Ao vê-la desaparecer, Eliel, sentado no sofá, apoiou os cotovelos sobre os joelhos e escondeu o rosto entre as mãos.

FIM DO CAPÍTULO III
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 5 –
O CORAÇÃO DAS FONTES DA JUVENTUDE
Capítulo IV
Enquanto Eliel se debatia em seu sofrimento; Cibele despertava tranquilamente sob a proteção de Crisélia. Sentando-se recostada à cabeceira da cama, ela perguntou:

– O que houve? Eliel está bem? Aconteceu alguma coisa?

Crisélia sorrindo, ofereceu-lhe uma bandeja e disse:

– Sossegue, está tudo bem. Você está na minha árvore. Precisa se alimentar.

Cibele, agradecida, comentou:

– A sua generosidade não tem preço… Contudo, existe algo que posso fazer para retribuí-la. Você nunca me aceitou porque se revoltou com a ideia de ver outra mulher ao lado de seu irmão. Tadeu se foi para sempre, e Anabel não suportará o peso da solidão.

Antes que Cibele pudesse concluir o seu raciocínio, Crisélia, inconformada com o que ouvia, perguntou:

– Está sugerindo que eu empurre Eliel para os braços de Anabel? O seu amor por ele foi tão passageiro?

Cibele sentiu-se à vontade para dizer:

– Minha afeição por Tadeu e o meu desejo de protegê-lo feriram Eliel, e a desconfiança paira nos olhos e no coração dele. Anabel também deve acreditar que eu tencionava partir com Tadeu. Eu perdi os três e me sinto péssima!… O único bem que poderia advir dessa desventura seria a reconciliação entre Anabel e Eliel.

Crisélia calou-se pensativa. Precisava de tempo para assimilar as palavras que ouvia. Começou a se perguntar quem era Cibele e por que a julgara tão mal sem antes procurar conhecê-la.

FIM DO CAPÍTULO IV
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 5 –
O CORAÇÃO DAS FONTES DA JUVENTUDE
Capítulo V
Cibele, naquele mesmo dia, imaginando que Eliel estivesse na biblioteca realizando uma de suas apresentações de mágica, resolveu ir à árvore para apanhar seu espelho. Num estalar de dedos, ela estava no quarto, em frente à penteadeira. Entretanto, ficou decepcionada ao verificar que o espelho não estava no lugar onde o deixara. Procurou-o dentro das gavetas, mas não conseguiu encontrá-lo. Caminhou até a sala com a intenção de olhar sobre os móveis e ficou surpresa ao ver Eliel, tão absorto, segurando e acariciando o espelho. Cibele parecia hipnotizada com a cena que lhe enternecia o coração. Aproximando-se devagar, ela disse baixinho para não assustá-lo:

– Você está bem?… Eu não desejo incomodá-lo; só vim buscar o espelho.

Entregando-lhe o espelho, Eliel afirmou com a voz encharcada de mágoa:

– Precisamos conversar. Não podemos fazer de conta que o dia de ontem não existiu.

Endereçando-lhe um olhar carinhoso, Cibele respirou profundamente antes de dizer:

– Eu vou lhe contar o que realmente aconteceu. Quando fomos jantar na casa de Anabel e Tadeu, ele disse que precisava me mostrar algo que o impressionara muito no Poço das Fadas. Na manhã seguinte, eu fui à casa dele, e nos dirigimos para lá de moto. O lugar estava deserto. Tadeu entrou na água e parou bem em frente à cachoeira. No mesmo instante, a cachoeira se abriu como se fosse uma cortina de água e exibiu uma espécie de quadro em movimento, como aquelas imagens que aparecem na televisão. A imagem ficou gravada na minha mente: Havia uma floresta… Depois da floresta, havia uma praia… Depois da praia, havia um círculo de fogo… Depois do círculo de fogo, havia um lago… E, no centro do lago, havia um castelo magnífico… Sobrevoando o castelo, havia sete dragões enormes, imponentes e aterrorizantes. Mas o que mais impressionou a alma sensível de Tadeu foi a voz que o chamava e lhe pedia ajuda. De repente algo fantástico aconteceu: o quadro cedeu lugar a um portal. O portal se abriu, e eu pude sentir o frescor e o aroma da floresta. Tadeu, sentindo-se protegido pela minha magia, fez a travessia confiante. E eu fiquei para trás porque o portal se fechou, e a cortina de água também.

Contemplando as lágrimas que transbordavam do rosto de Cibele, Eliel não conseguiu calar o comentário:

– Eu ainda não entendo por que você preferiu agir sem me consultar. Prometemos que não haveria segredos entre nós. O que fica martelando na minha cabeça é o fato de que você só não me deixou, só não foi embora para sempre, porque o portal impediu a sua passagem. Você não está aqui ao meu lado porque deseja estar. Você só está aqui ao meu lado porque o destino não permitiu que me abandonasse. Eu posso parecer egoísta de ficar batendo sempre na mesma tecla, mas eu perdi a fé no nosso amor. Talvez ele não seja tão perfeito quanto eu acreditei que fosse.

Cibele calou-se. Sentia-se triste, cansada… As últimas palavras de Eliel ficavam rodopiando em sua cabeça. Pensou em desistir de tudo e voltar para a sua dimensão, mas como poderia partir sem saber o que havia acontecido a Tadeu?!… Cibele assustou-se quando Eliel, mostrando-lhe a chave, comentou:

– Você estava tão distraída que eu saí da sala, voltei e você nem se deu conta da minha ausência. Eu fui buscar a chave e a esfera. Venha comigo… Talvez consigamos abrir o portal. Gostaria de tentar?

Cibele, após um longo suspiro, fez um sinal afirmativo com a cabeça, e os dois seguiram para o Poço das Fadas. Eles entraram na água e aproximaram-se da cachoeira. Eliel contornou a cachoeira para procurar uma abertura na pedra onde pudesse colocar a chave. Não havia abertura alguma. Ele aproximou a esfera da pedra, percorrendo no ar toda a sua extensão para verificar se havia alguma força de atração. Não havia atração alguma. Após várias tentativas frustradas, ele exclamou:

– Eu desisto! É melhor voltarmos.

Eliel sentiu o coração desfalecer e permaneceu calado quando Cibele perguntou:

– Você me acompanha à árvore de Crisélia?

Quando Eliel e Cibele chegaram à árvore de Crisélia, Cibele disse:

– Obrigada. Embora não tenhamos conseguido localizar o portal, resta-nos o consolo de termos tentado.

Eliel, beirando o desespero, aventurou-se a perguntar:

– Pretende ficar com a chave e a esfera ou prefere que eu as guarde?

Cibele respondeu:

– Guarde-as, por favor. Quando eu partir, não pretendo levá-las.

Ele perguntou, esforçando-se para não alterar o tom de voz:

– Está pensando em voltar à sua dimensão?!…

Ela respondeu, procurando esconder o nervosismo:

– Sim. Você está pensando em reatar o seu compromisso com Anabel?

Eliel sentiu-se atordoado. A confusão de sentimentos era tão grande que ele pensou que fosse explodir. Para vingar-se da aparente frieza de Cibele, respondeu:

– É provável! Ela já disse que me aceitaria de volta.

O coração de Cibele, ao contrário do que Eliel pensava, parecia mais uma caldeira. Os estilhaços de neve, que ela coletava para disparar em sua direção, derretiam com uma rapidez desanimadora. Não desejava perder Eliel para Anabel; mas, ao mesmo tempo, a lembrança do que ele dissera sobre o amor que os unira ecoava em sua mente. Para vingar-se da obstinação dele em feri-la, Cibele comentou:

– Talvez eu aceite a proposta de casamento de Florêncio. Ele é um jovem bruxo muito respeitado na minha dimensão. Ele se utiliza da hipnose frequentemente e é capaz de ir de um extremo a outro: ele pode tanto desenterrar as lembranças como varrê-las da mente.

Eliel, por um momento, ficou esquadrinhando o rosto de Cibele. Era evidente que ela estava mentindo. Ou não estaria?!… Ele não desejava que ela voltasse àquela dimensão tenebrosa. Mas uma pergunta o atemorizava: haveria esperança para aquele amor?

Cibele despertou-o de seu devaneio quando perguntou:

– Você perdeu mesmo a fé no nosso amor ou só disse isso com a intenção de ferir-me?

Eliel, olhando-a com seriedade, comentou:

– Você insiste em dizer que eu a faço sofrer propositadamente. Eu afirmo que é você quem não respeita os meus sentimentos. Quando eu estava desesperado e lhe perguntei se você ainda me amava, se ainda precisava de mim; você não respondeu… Abandonou o nosso lar para vir morar na árvore de Crisélia. Primeiro você disse que pretendia voltar para a sua dimensão. Depois você me perguntou se eu pretendia me reconciliar com Anabel. Para vingar-se da minha resposta, você levantou a possibilidade de casar-se com um bruxo que poderia “varrer as lembranças da sua mente”. Você insinuou que ele poderia varrer o nosso amor do seu coração. Não, Cibele! Eu não disse que perdi a fé no nosso amor apenas para feri-la. O nosso amor perdeu a pureza e transformou-se em um jogo do qual eu não quero mais participar. Considere-me apenas seu amigo.

Cibele, com o rosto banhado em lágrimas, disse:

– Eu não sei montar jogos. Em muitas ocasiões, eu usei a mentira e a frieza para me proteger, mas eu nunca abracei a indiferença. Confesso que menti para você sobre o meu desejo de aceitar Florêncio: eu não o amo, e ele não tem a leveza de caráter que você possui. Agora que Tadeu se foi, Anabel não tardará a perceber o engano que cometeu e não medirá esforços para reconquistar você. Eu pensei que pudesse sacrificar o meu amor pela felicidade dela, mas eu estava enganada. Se eu voltar para aquela dimensão, será apenas para não ver você ao lado de Anabel. Eu morreria mil vezes ao vê-lo endereçar-lhe um olhar carinhoso, ao vê-lo abraçá-la, ao vê-lo beijá-la. Por favor, Eliel, não me peça para ser sua amiga, porque eu não me contentaria em observá-lo à distância. Se o meu amor não significa mais nada para você, ajude-me a voltar à minha dimensão sem o uso da chave e da esfera para que elas não caiam em mãos erradas.

Cibele não estava mais chorando, e o seu desabafo também tranquilizara Eliel. Os dois sentiam-se mais leves e revigorados. Entretanto, ele não teve a oportunidade de reaproximar-se dela porque, naquele exato momento, Crisélia surgiu de repente para dizer:

– Cibele precisa se alimentar. Por que vocês dois não vêm jantar em casa?

Eliel olhou para Cibele antes de perguntar:

– Deseja ir?

Ela respondeu:

– Não, obrigada. Eu prefiro ficar aqui, na árvore de Crisélia.

Crisélia protestou:

– Pode esquecer! Recuso-me a continuar trazendo comida para você. Se quiser se alimentar, terá que ir à minha casa. Chega de ficar enfornada neste lugar.

Cibele, um pouco sem jeito com a insistência de Crisélia, desculpou-se:

– Perdoe-me, Crisélia, eu aprecio a sua dedicação, mas eu me sinto melhor na sua árvore.

Crisélia afirmou:

– Eu sei qual é o seu receio… Não conseguirá fugir de Anabel para sempre. Ela não pode responsabilizá-la pelo desaparecimento de Tadeu. Foi uma fatalidade! Você fez o que pôde para ajudá-lo. Como poderia imaginar que o portal se fecharia logo depois que ele passasse?!… Pare de se culpar, Cibele! Ele teria feito a travessia mesmo que você tivesse se recusado a acompanhá-lo.

Cibele murmurou:

– Acredita mesmo?!

Crisélia respondeu sorrindo:

– Sim. É melhor irmos antes que o jantar esfrie.

FIM DO CAPÍTULO V
Sisi Marques

No próximo segmento, não perca a continuação da 5ª Parte (O Coração das Fontes da Juventude) da história “Realidade Mágica” – livro 1.

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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