REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE (Capítulos XXXI e XXXII)

Capítulo XXXI
Enquanto Cibele se deliciava com a barra de chocolate; Anabel e Eliel conversavam na cela de Anabel. Tadeu, por sua vez, quando foi obrigado a descer para não despertar a ira da mãe de Cibele, preferiu refugiar-se em sua própria cela e aguardar o momento apropriado de participar do diálogo que se desenrolava e parecia interminável.

Anabel dizia a Eliel:

– Você não compreende!… Não se trata mais de nós!… Ela é má! Eu me preocupo com o seu bem-estar. Cibele sabe que você não pode ficar longe da sua árvore. Como pôde ser tão cruel a ponto de exigir que você abrisse mão da sua imortalidade?!

Eliel confidenciou:

– Ela não exigiu coisa alguma. Eu fui insistente com o meu amor, e ela colocou uma condição para aceitá-lo. Foi só isso. Eu amo Cibele, e ela também me ama. Eu não sei se conseguiremos convencer a mãe dela a aceitar a minha presença; mas, de qualquer forma, estou disposto a tentar.

Anabel não conseguiu evitar a pergunta:

– Por que Cibele não me contou sobre vocês quando confidenciei a ela a minha decisão de terminar o nosso compromisso e aceitar a proposta de Tadeu? Se ela fosse sincera, poderia ter confiado em mim do mesmo modo que confiei nela.

Eliel explicou:

– Ela gosta muito de você e preza a sua amizade. Se dependesse dela, o meu relacionamento com você não teria terminado nunca, porque ela receava magoá-la. Agora eu preciso encontrar um meio de sair deste castelo porque me sinto sufocado aqui.

Anabel comentou:

– Quando a bruxa chegou gritando, Cibele deve ter trancado a porta da cozinha para evitar que ela descesse e o encontrasse aqui. Consegue abri-la?

Eliel respondeu:

– É isso que vamos descobrir. Obrigado por sua compreensão.

Ao ver Eliel e Anabel deixarem a cela, Tadeu juntou-se a eles para sugerir:

– Amanhã Anabel e eu teremos a tarde de folga… Nós quatro poderíamos nos reunir para tentarmos descobrir como a esfera funciona. Só ela poderá nos mostrar onde está a chave. Quanto antes sairmos deste lugar, melhor. Cada vez Cibele se envolve mais naquele emaranhado de mentiras, e eu receio que um dia ela acabe presa em sua própria teia. Eu fico abismado com as histórias que ela inventa para afastar a desconfiança de sua mãe. Quando ela fez um sinal para que eu descesse, não consegui evitar e fiquei ouvindo atrás da porta. A mãe dela disse que ela não esteve na casa de sua amiga Lindaura como afirmara. Para escapar dessa mentira, ela inventou outra ainda pior: disse que estivera namorando o bruxo Florêncio.

Anabel esforçou-se, mas não conseguiu segurar o riso. Ao perceber que Eliel permanecia calado com uma expressão sombria, ela perguntou ternamente:

– Você está bem?

Ele respondeu com o rosto levemente contraído:

– Sinto-me um pouco cansado. Vou subir para ver se consigo destrancar a porta.

Antes de caminhar em direção à escada, entretanto, ele endereçou um olhar cordial a Anabel e Tadeu enquanto dizia:

– Faço votos para que sejam muito felizes.

Tadeu colocou o braço ao redor dos ombros de Anabel e os três sorriram. Minutos depois, o barulho da porta da cozinha abrindo fez com que Anabel e Tadeu voltassem cada um para a sua cela; e Eliel, para ocultar-se, recorreu à magia da invisibilidade. Os três respiraram aliviados e voltaram a se reunir quando viram o vulto de Cibele.

Ao vislumbrar a felicidade no rosto de Tadeu e Anabel, Cibele sorriu antes de perguntar a ela:

– Consegue me perdoar?

Olhando profundamente nos olhos de Cibele, Anabel disse:

– Eu só não consigo compreender o que a prende a este lugar.

Cibele sorriu, e o seu olhar brincava no rosto de Anabel quando ela sugeriu de braços abertos:

– Dê-me um abraço para provar que não há ressentimentos.

Enquanto as duas se abraçavam, Eliel e Tadeu entreolharam-se sorrindo. Eliel disse:

– Vocês poderão residir no casarão quando saírem daqui. Cibele e eu fecharemos a passagem, e ninguém tornará a importuná-los.

Anabel desprendeu-se do abraço de Cibele e correu para abraçar Eliel e beijar-lhe o rosto em agradecimento. Ele disse a Anabel:

– A propósito, Crisélia tem se passado por você para assegurar o seu emprego na biblioteca.

Ela exclamou entusiasmada:

– Isso é ótimo!

Após um breve silêncio, o olhar de Eliel procurou o olhar de Cibele enquanto ele dizia:

– Precisamos conversar.

Ela sugeriu:

– Podemos ir à cozinha. A minha mãe está dormindo e não acordará nem mesmo se o castelo vier abaixo.

Os dois subiram a escada de mãos dadas. Quando chegaram à cozinha, sentaram-se à mesa; e ele, segurando as mãos de Cibele entre as suas, perguntou:

– Você tem consciência do sacrifício que me pede?… Eu me sinto mal neste lugar, porque estou a uma distância imensurável da minha árvore. Ela é mágica e provê a minha existência e a minha imortalidade. Todos os artefatos que fabrico, incluindo o meu anel, têm sempre um pouco das fibras de sua casca. Eu amo a natureza como um todo, mas apenas a minha árvore me fornece a energia de que preciso para ser eu mesmo. Se continuarmos aqui, você terá apenas parte de mim, e não será a melhor parte. Para permanecer vivo nesta dimensão, eu precisarei me fortalecer frequentemente com a sua energia. Você me quer como eu verdadeiramente sou, ou quer apenas um parasita ao seu lado que deixará de existir quando você morrer? Venha comigo para a minha dimensão, e eu providenciarei para que beba a água da vida eterna. Mantenha-me neste mundo, e eu definharei ao seu lado. Seja qual for a sua escolha, eu jamais desistirei do nosso amor.

Eliel, embora dilacerado interiormente, olhava para ela em doce expectativa. Cibele, acariciando suas mãos, confessou:

– Eu lhe fiz aquela proposta descabida apenas para proteger o seu relacionamento com Anabel. Mas agora tudo mudou porque ela está feliz ao lado de Tadeu.

Eliel sorriu, e os dois trocaram um longo e apaixonado beijo antes de descerem ao porão para partilharem sua felicidade com Tadeu e Anabel. Os quatro conversaram animadamente por alguns minutos e teriam ficado reunidos por muito mais tempo se Eliel não tivesse afirmado:

– Eu preciso sair e respirar ar fresco. Se eu ficar mais um pouco neste castelo, acabarei passando mal outra vez.

Cibele, preocupada, disse:

– Não posso permitir que passe a noite na floresta porque você estaria se expondo a inúmeros perigos.

Ele sorriu antes de perguntar:

– Esqueceu-se de que sou um elfo? Há mais perigos aqui do que ao redor daquela árvore que se parece com a minha.

Cibele sugeriu:

– Tadeu lhe fará companhia. Ele costuma nadar à noite e conhece a floresta como ninguém.

Anabel protestou:

– Eu é que não passarei a noite aqui sozinha.

Cibele, abraçando-a, disse:

– Você dormirá no meu quarto, mas amanhã teremos que levantar bem cedo para que a minha mãe não desconfie de nada. Quando ela sair para exibir suas poções, sairemos em busca da chave. Vamos torcer para que amanhã seja o último dia que passaremos nesta dimensão.

FIM DO CAPÍTULO XXXI
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE
Capítulo XXXII
Quando Eliel e Tadeu saíram do castelo, Eliel sugeriu:

– Poderíamos começar a procurar a chave agora mesmo.

Tadeu disse:

– Eu a perdi quando estava tentando encontrar a passagem na floresta. A mãe de Cibele a fechou para que Anabel e eu não fugíssemos. Eu fico me perguntando como a esfera poderia nos ajudar.

Eliel retirou a esfera do bolso e colocou-a no chão para ver se ela começava a rolar. Depois começou a jogá-la para cima e a apanhá-la várias vezes. Numa terceira tentativa, para ver se a bola apresentava alguma alteração, começou a arremessá-la de encontro a uma árvore. Posteriormente, atirou-a a certa distância, para verificar se ela começava a pular na direção da chave. Numa última tentativa, segurou-a simplesmente com a palma da mão voltada para cima, e foi aí que ele sentiu algo puxá-lo levemente numa determinada direção. Conforme Eliel avançava, a força de atração parecia mais intensa. Tadeu comentou:

– Eu tenho a certeza de que estamos caminhando direto para a antiga passagem.

Eliel disse:

– Veja: a esfera começou a brilhar! Devemos estar bem próximos.

Eliel mal acabou de pronunciar essas palavras e a esfera, parecendo ganhar vida, saltou de sua mão, caiu no chão e começou a rolar até chocar-se em algo que produziu um som metálico. Ele exclamou radiante:

– Encontramos! Só pode ser a chave!

Tadeu comentou:

– Eu sempre carrego uma vela em meu bolso para alguma emergência… Deixe-me acendê-la… Pronto! Consigo ver a esfera e a chave. Que interessante: a chave está fincada no chão! Será que basta apenas girá-la para a passagem abrir?

Eliel aconselhou:

– É melhor não tocarmos na chave enquanto não tivermos a intenção de abrir a passagem. Por que esperar até amanhã se podemos ir embora agora mesmo? O que me diz, Tadeu? Está disposto a voltar ao castelo para buscar Cibele e Anabel, enquanto eu espero aqui para não perdermos a chave de vista?! Quanto antes partirmos melhor.

Tadeu, resoluto, disse:

– Irei o mais rápido que puder.

Tadeu saiu em disparada e, quando chegou ao castelo, bateu à porta do quarto de Cibele e disse baixinho:

– Por favor, Cibele, abra.

Cibele abriu a porta e deixou Tadeu entrar em seu quarto. Perguntou:

– O que houve?… Eliel está bem?!…

Ele respondeu esbanjando satisfação:

– Sim. Encontramos a chave e a passagem. Se você concordar, poderemos partir hoje mesmo.

Cibele olhou para Anabel e disse:

– A única coisa que levarei comigo será o meu espelho. Está pronta, Anabel, para voltar ao seu mundo?

Os olhos de Anabel brilharam quando ela disse:

– Eu mal posso esperar!

Os três deixaram o castelo e caminharam ao encontro de Eliel. Com o olhar colado no rosto de Cibele, ele sugeriu:

– Coloque a sua mão sobre a minha; giraremos a chave em sentido anti-horário.

Eliel e Cibele viraram a chave juntos. Quando a passagem se abriu, a chave pulou, e Tadeu, num golpe de sorte, conseguiu apanhá-la no ar. A esfera também já estava em seu poder; e foi ele quem utilizou a chave para fechar a passagem depois que Eliel ajudou Cibele e Anabel a descer a escada.

Anabel murmurou:

– Estou com medo… Não enxergo nada…

Tadeu tornou a acender a vela, e eles caminharam pelo longo corredor até avistarem a escada que conduzia ao alçapão invisível. Tadeu subiu a escada e, com o auxílio da esfera, conseguiu localizar o centro da passagem. Quando ele inseriu e virou a chave, o alçapão abriu, e ele precisou se desvencilhar do tapete para atravessá-lo e ajudar Cibele e Anabel a sair. Eliel foi o último a subir, e o alçapão desapareceu no momento em que Tadeu girou a chave para trancá-lo. Os quatro se abraçaram irradiando uma alegria indescritível. Eliel comentou:

– Está muito tarde para irmos à casa de Crisélia e Felizardo para comemorarmos o nosso retorno. Eles já devem estar dormindo. É melhor deixarmos a surpresa para amanhã.

Depois, com o olhar repleto de carinho, ele disse a Cibele:

– Você deseja ser minha esposa?

Ela retribuiu o olhar e sorriu ternamente antes de dizer:

– Sim. A partir deste momento, a sua árvore será o nosso lar.

Ele a beijou; e os dois, após receberem as felicitações, se despediram de Tadeu e Anabel.

FIM DO CAPÍTULO XXXII
Sisi Marques

No próximo segmento, não perca os 3 Últimos Capítulos (XXXIII, XXXIV e XXXV) da 4ª Parte (Cibele) da história “Realidade Mágica” – livro 1.

Grata,
Sisi Marques

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Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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