REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE (Capítulos XXIX e XXX)

Capítulo XXIX
Naquela noite de terça-feira, depois que Tadeu e Anabel se recolheram em suas celas, Cibele, em vez de encontrá-los, preferiu ficar sozinha em seu quarto. Ela sabia que a sua proposta descabida teria o poder de afastá-la da insistência de Eliel para sempre. Cibele desejava chorar, mas as lágrimas não saíam. Suspirou profundamente e apanhou seu espelho para ver se conseguia localizar Eliel. Surpreendeu-se ao vê-lo recostado naquela mesma árvore com o rosto banhado em lágrimas. Decidida, guardou o espelho e desceu ao porão.

As celas estavam abertas, porque a mãe de Cibele ainda não havia retornado da casa de sua amiga para trancá-las. Cibele, ao encontrá-los, disse a Tadeu:

– Por favor, vá buscar Eliel e convide-o a juntar-se a nós. Não é prudente que ele passe a noite na floresta.

Depois, olhando para Anabel, Cibele perguntou:

– Está com fome?

Anabel respondeu tristemente:

– Não. Eu não consigo parar de me preocupar com Eliel.

Cibele, procurando desviar o assunto, insistiu:

– Você deve estar com fome. Por que não subimos para que eu possa lhe oferecer algo?

Anabel surpreendeu-a quando perguntou:

– Você sabe guardar segredos?… Eu preciso muito conversar com você.

Cibele sugeriu:

– Podemos ir ao meu quarto.

Anabel e Cibele, aproveitando-se da ausência da bruxa, subiram ao quarto e sentaram-se em um confortável sofá que havia debaixo de uma das janelas. Anabel começou a dizer:

– Esta tarde quando Tadeu foi à cozinha para me ajudar, a sua mãe não estava, e nós pudemos conversar um pouco enquanto trabalhávamos. Eu disse a ele que desejava ter uma vida normal, e era por esse motivo que eu insistia tanto em trabalhar na biblioteca e morar em uma casa. Eu gostaria que Eliel e eu pudéssemos levar uma vida como Crisélia e Felizardo. Crisélia passa um tempo mínimo em sua árvore e até gosta de cozinhar. Embora Eliel procure realizar todos os meus desejos, nem sempre estamos felizes, porque ele prefere viver em sua árvore.

Cibele, aproveitando-se da pausa de Anabel, perguntou:

– Você sabia que ele era um elfo antes de se unir a ele?

Ela respondeu:

– Sim. Mas a minha vinda para cá fez com que algo mudasse entre nós. Ele parece ter deixado de me amar, e eu começo a duvidar dos meus sentimentos em relação a ele.

Cibele afirmou:

– Você tem passado por momentos difíceis, e é natural que esteja cansada e confusa. Assim que retornarem, a felicidade certamente voltará a abençoá-los.

Cibele surpreendeu-se ao ouvi-la exclamar:

– Completamente felizes nunca fomos e jamais seríamos! Eu quero a minha independência emocional e financeira e me afasto dele para conseguir pensar e realizar as coisas por mim mesma. A minha felicidade não está no interior daquela árvore! Antes de conhecê-lo, eu estava acostumada a cantar, dançar, contar histórias, me divertir!… Eu sou grata a Eliel por ter me oferecido a imortalidade, mas isso não significa que eu tenha que permanecer ao lado dele para sempre. Como posso dizer isso a ele sem ferir os seus sentimentos?…

O silêncio de Cibele levou Anabel a perguntar:

– Está decepcionada? Deve estar imaginando que nós humanos somos inconstantes e egoístas.

Cibele, em parte surpresa e em parte aliviada, respondeu:

– Não. Apenas o seu coração poderá avaliar os seus motivos e os seus sentimentos. Era esse o segredo que desejava que eu guardasse?

Anabel revelou:

– O que eu lhe disse é apenas parte do segredo. Eu preciso saber se você ama Tadeu, porque ele sugeriu que ficássemos juntos depois que conseguíssemos sair daqui. Se você disser que não o ama, eu falarei com Eliel e aceitarei a proposta de Tadeu.

Cibele não conseguiu evitar a pergunta:

– Já pensou no que dirá a Crisélia?… Acredita que ela conseguirá aceitar a sua decisão de abandonar Eliel para viver ao lado de Tadeu?

Anabel respondeu:

– O tempo acabará convencendo-a de que foi uma decisão acertada. No momento, eu só consigo pensar em Eliel.

Cibele, com o coração em festa, perguntou:

– Quando pretende contar a ele?

Anabel, com o olhar distante, respondeu:

– Preciso me abastecer de coragem. Talvez eu espere até amanhã. Tadeu disse que, às quartas-feiras, as tardes são livres porque a sua mãe sai logo depois do almoço. Acredita que será uma boa ocasião para eu conversar com ele?

Cibele aconselhou:

– A sua hesitação demonstra que você não está muito segura para dar esse passo decisivo em sua vida. Aproveite o silêncio e a tranquilidade da noite para refletir sobre o seu relacionamento com Eliel.

FIM DO CAPÍTULO XXIX
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE
Capítulo XXX
Quando Cibele e Anabel desceram, Tadeu estava sentado à mesa da cozinha conversando com Eliel. Ele comentou:

– Eu tomei a liberdade de preparar uma salada.

Cibele exclamou:

– Ótima ideia, Tadeu! Eu estou faminta.

Ele perguntou:

– Não gostou do chocolate?

Um pouco sem jeito, ela confessou:

– Ainda não me encorajei a experimentá-lo. Embora tenha um aroma delicioso, parece um alimento um pouco estranho. E que alimento era aquele em sua taça?

Ele respondeu:

– Aquilo era sorvete. E eu nunca provei um tão delicioso quanto àquele.

Eliel, alheio ao que Tadeu e Cibele conversavam, inesperadamente quebrou o silêncio para dizer a Tadeu:

– Você e Anabel partirão. Eu decidi permanecer ao lado de Cibele.

Anabel, recusando-se a crer no que ouvia, enviou um olhar de desconfiança a Cibele antes de exclamar:

– Eu confiei em você! Por que não foi sincera comigo?! Como pôde exigir de Eliel tamanho sacrifício?… Esse é o preço para deixar-nos partir?!

Anabel levantou-se e deixou a mesa. Cibele, com o intuito de abraçá-la e explicar tudo, levantou-se também. Mas afastou-se quando Anabel, completamente fora de si, exclamou:

– Não me toque, bruxa! Deixe-me em paz!

Anabel desceu para o porão chorando, e Eliel a seguiu. Cibele estava transtornada com o inesperado desenrolar dos fatos, mas teve que se recompor quando ouviu sua mãe gritar:

– Cibele! Cibele! Por que não responde? Onde você está?

Cibele fez um sinal para Tadeu descer e, depois de trancar a porta que dava para o porão, deixou a mesa limpa num estalar de dedos. Sua mãe ao encontrá-la sentada à mesa servindo-se de uma xícara de chá, perguntou:

– Por que mentiu para mim?… Eu estava na casa de Milanda, e Lindaura apareceu por lá. Eu comentei com ela sobre a sua embriaguez desta manhã, e ela jurou que não a vê há meses. Responda-me: onde você esteve? Por que deixou esta dimensão sem me avisar? Onde você escondeu a chave e a bola de cristal?

Cibele respondeu calmamente:

– Mãe, eu estou cansada, com dor de cabeça, e a senhora fica aí gritando! Por que não se senta e toma este chá quentinho que eu acabei de preparar? Vamos, sente-se! Por favor, não me negue este prazer.

A mãe de Cibele sentou-se à mesa enquanto perguntava desconfiada:

– Por que está agindo de modo tão estranho? Eu mal a reconheço!

Cibele cimentou mentira sobre mentira quando disse:

– Eu inventei aquela história sobre Lindaura, porque fiquei com receio de que a senhora se aborrecesse se eu lhe dissesse a verdade.

Receosa, a mãe de Cibele perguntou:

– E posso saber qual é a verdade?

Cibele, rindo interiormente, respondeu:

– Eu estava com Florêncio. Nós estamos namorando.

Entusiasmada com a falsa revelação de Cibele, a bruxa exclamou:

– Eu sou a favor do seu casamento com ele! Você finalmente está criando juízo! Eu receava tanto que você me desafiasse, e eu me visse obrigada a consentir a sua união com o imprestável. E, por falar nele, aqueles dois já foram dormir?

Cibele respondeu:

– Sim, mamãe. Pode verificar por si mesma: a porta da cozinha já está até trancada. Agora é melhor que façamos o mesmo, porque amanhã a senhora terá que estar bem descansada para exibir suas poções.

Cibele saiu da cozinha acompanhada de sua mãe e foi direto para o quarto. Uma confusão de sentimentos a impedia de descer ao porão. Sentia-se aliviada com a revelação que Anabel lhe fizera. Sentia-se magoada com as palavras que ela pronunciara em seu descontrole. Sentia-se feliz com a prova de amor que Eliel lhe ofertara. Sorriu. Confiava no discernimento de Tadeu para contornar a situação e dissolver o mal-entendido. Sentindo-se melhor do que nunca, Cibele retirou a barra de chocolate da fronha do travesseiro e a saboreou com o coração saltitando de alegria.

FIM DO CAPÍTULO XXX
Sisi Marques

No próximo segmento, não perca os Capítulos XXXI e XXXII da 4ª Parte (Cibele) da história “Realidade Mágica” – livro 1.

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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