UNIDOS NA BUSCA PELA PAZ (Parte 5)

O príncipe acreditava estar sozinho em sua busca pelo monstro da guerra; mas, bem ao seu lado, sem que ele os pudesse ver, a vida e a morte caminhavam silenciosamente.

Ao se aproximar da fronteira dos dois reinos, o príncipe Leopoldo gritou:

– Apareça, vamos! Está na hora de nos conhecermos melhor. Você parece não ter nada a perder; e eu, muito menos! Vamos resolver esta questão de uma vez por todas!

O príncipe mal acabou de dizer essas palavras, e o monstro da guerra já o fitava impassível. O príncipe lançou-lhe o desafio:

– Vamos! Avance para que eu possa acabar com você!

O monstro da guerra perguntou:

– Por que deseja ferir-me com sua espada, se não lhe causei mal algum?

O príncipe respondeu:

– Você certamente não ignora ser o causador de toda essa discórdia que envolve os dois reinos.

Com voz aterrorizante, o monstro disse:

– Não procure fora o que está dentro. Eu não causo o mal; eu me alimento dele e do medo que vejo estampado nos rostos das pessoas. Eu também já fui humano. Mas eu era muito cruel e me sentia fortalecido ao aterrorizar os outros. Com o passar do tempo, a maldade em mim represada transformou-me nesta fera que hoje você vê. Por mais que eu tente escapar, sou sempre atraído por lugares, como este, onde o mal terá sempre a última palavra. Não culpe a mim pelo caos que se instalou porque também sou vítima. O mal está aprisionado nos corações dos homens. Enquanto ele não for extirpado, haverá muito pouco espaço para o amor e para a libertação. Pareço condenado a permanecer assim para sempre.

O príncipe deu de ombros e sentou-se na relva. Sentia-se embriagado sem ter bebido. Estava cansado; e nada daquilo fazia sentido. Talvez o monstro não estivesse mentindo. Havia mesmo muito pouco espaço para o amor, porque o ódio queria espremê-lo, sufocá-lo até reduzi-lo a nada. Permaneceu calado e deitou-se contemplando as estrelas. Não prestou muita atenção quando o monstro comentou:

– Você não é como os outros. Deveria sentir medo e não sente. Posso ser a solução para o término desse conflito. É só você desejar que eu me torne visível para todos, e eles terão que se unir para atacar-me.

Sem retirar os olhos das estrelas, o príncipe disse:

– O seu sacrifício só traria mais medo, ódio e violência. De qualquer modo, agradeço-lhe e devo admitir que ainda há algo de bom em você. Do contrário, não teria pensado em sacrificar-se por um bem maior.

O monstro, demonstrando certo embaraço, despejou as palavras:

– Posso assegurar-lhe de que não há nada de bom em mim. Menti para você ao dizer que eu não era responsável pela onda de ódio que varre os dois reinos há anos. Na verdade, fui eu quem causou todo o sofrimento ao obrigar a minha filha Lauara a renunciar seu amor por Clemêncio e casar-se com Adelmo. Sou Leopoldo, o seu avô materno. O seu nome igual ao meu foi exigência minha. Cometi muitas atrocidades; mas, a maior de todas, aquela que fez com que eu caísse na teia do remorso, foi a dor que causei à sua mãe. Após o seu nascimento, ela se tornou ainda mais infeliz ao imaginar a educação que você receberia e o homem cruel que poderia tornar-se, se seguisse o exemplo de Adelmo. Não demorou muito para que a sua alma aflita deixasse este mundo, e eu me revoltei contra a minha própria covardia, contra a minha própria prepotência. Foi a partir daí que a metamorfose ocorreu. Toda a deformidade em meu caráter foi esculpida em meu corpo, tornando-me um ser repugnante. A única bênção que recebi foi tornar-me invisível para todos. Não compreendo por que você consegue enxergar-me.

O príncipe Leopoldo perdera, momentaneamente, a fascinação pelas estrelas. Levantara-se no momento em que o monstro da guerra confidenciou-lhe ser seu avô materno. Ainda atordoado pela revelação, o príncipe quebrou o silêncio para dizer:

– Não sou o único que consegue vê-lo. Luara também consegue. Agora é a sua vez de ouvir… Perdoe-se. Vire as páginas do livro da vida e deixe o passado para trás. Se fizer isso, verá que há muitas páginas em branco, aguardando uma nova história mais feliz do que a anterior. Mamãe já o perdoou. É o senhor quem falta perdoar-se.

Comovido com as palavras de Leopoldo, o monstro da guerra disse:

– Você se esqueceu de Clemêncio. Ele jamais me perdoará. O ódio que ele sente por mim estende-se a Adelmo e estendeu-se a você também. O seu amor por Luara está condenado a ter o mesmo triste fim que teve o amor de Clemêncio por Lauara. E o idiota não percebe que, agora, ele é o causador da infelicidade. Se ele persistir nesse ódio, poderá ter o mesmo fim que eu.

O príncipe surpreendeu-se com a transformação que ocorria bem em frente aos seus olhos, enquanto o monstro da guerra falava. Aos poucos, quase imperceptivelmente, as feições foram mudando e, sem que o próprio monstro tivesse consciência do ocorrido, lá estava o rei Leopoldo, avô materno do príncipe Leopoldo, em carne e osso.

Emocionado com a inesperada metamorfose, Leopoldo abraçou o avô e entristeceu-se, depois, ao vê-lo afastar-se dizendo que não pertencia mais àquele mundo de ganância e poder. Inconformado com sua atitude, o príncipe Leopoldo começou a segui-lo na esperança de convencê-lo a ficar. Foi quando a vida e a morte apareceram à sua frente, para dizer-lhe:

– Volte; o seu lugar não é junto ao seu avô. Deixe-o encontrar o seu próprio caminho. Quanto a você, alguém o espera ansiosamente na casa de Miro.

Imaginando tratar-se de Luara, o príncipe Leopoldo correu até a casa do amigo. Entretanto, ao chegar lá, surpreendeu-se quando viu que não era Luara quem o esperava e sim o seu pai, o rei Clemênio.

O príncipe ficou sem ação. O rei Clemêncio aproximou-se para abraçá-lo, enquanto dizia:

– Perdoe-me, filho. Não imagina o quanto senti sua falta. Afeiçoei-me a você; e não é o fato de você ser filho de Adelmo que mudará isso. Nos seus olhos, vejo a sinceridade e a pureza que encontrei nos olhos de sua mãe. Lauara foi a única mulher que amei e continuarei amando enquanto houver um sopro de vida em mim. Volte comigo ao palácio para que eu possa revelar a você e à sua futura esposa o meu plano.

(Não perca, no próximo segmento, a 6ª e Última Parte da história “Unidos na Busca pela Paz”.)

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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