REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE (Capítulo XXVIII)

Enquanto Eliel tentava assimilar a atitude inesperada e fria de Cibele, ela entrava no castelo disposta a acabar com o sofrimento de Tadeu e Anabel. Procurou sua mãe para dizer:

– Olá, mamãe, estou de volta!

A mãe de Cibele começou a resmungar:

– Que história é essa de sair sem dizer aonde vai? Depois retorna com a maior naturalidade do mundo! Por que pensa que expulsei seu pai deste castelo? Ele entrava e saía quando bem desejava, e foi por esse motivo que o mandei passear em outra dimensão. Da próxima vez que sair sem avisar, não será mais bem-vinda.

Esforçando-se para contornar o gênio terrível de sua mãe, Cibele, abraçando-a ternamente, disse antes de beijar-lhe o rosto:

– Quer dizer que, desta vez, eu ainda sou bem-vinda?

A mãe de Cibele, demonstrando não gostar de beijos e abraços, afastou-a dizendo:

– Cibele, por favor, pare com essas manifestações tolas de afeto!… Se fizer isso na frente de minhas amigas, eu a tranco com aqueles imprestáveis.

Cibele aproveitou a oportunidade para perguntar:

– E como estão eles? Espero que não tenham dado muito trabalho à minha mãezinha!

A mãe de Cibele olhou-a friamente antes de perguntar:

– Você bebeu?

Cibele mentiu:

– Só um pouquinho. Sabe a Lindaura?!… Ela veio aqui numa noite dessas e me convidou para uma festa. Quando a festa acabou, eu continuei lá e estaria lá até agora se eu não precisasse ajudar a minha mãezinha a preparar as poções. Falando em poções, por que está aqui no sótão em vez de estar na cozinha ou em seu laboratório?!

A mãe de Cibele, continuando a remexer em uma pilha de utensílios velhos e empoeirados, resmungou:

– A culpa é sua! Se não tivesse levado a chave, eu não estaria aqui procurando a bola de cristal do seu pai nesta imundície.

Cibele, fazendo-se de desentendida, exclamou:

– Chave?!… Que chave é essa?!… Por que eu levaria uma chave se nós nunca trancamos o castelo?!

Impaciente, a bruxa respondeu:

– Aquela chave de ouro pendurada no pescoço da coruja! Não pense que conseguirá me enganar!

Cibele disse:

– Eu não peguei nada. Se não acredita em mim, pergunte a Tadeu ou a… Como é mesmo o nome dela?… Talvez uma de suas amigas tenha roubado a chave. Já pensou nisso?… Vocês estão sempre competindo!… Mãe, eu preciso ver os imprestáveis, quero dizer, Tadeu e… Como é mesmo o nome da outra?…

Repreendendo-a, a bruxa exclamou:

– Recomponha-se, Cibele! O que Lindaura lhe deu para beber?! Preciso ter uma conversa muito séria com aquela irresponsável!

Cibele, dando de ombros, exclamou:

– Eu estou bem, mamãe! Eu estou ótima! Encontrou a bola de cristal?…

A bruxa respondeu:

– Ainda não. Perguntarei àqueles imprestáveis o que fizeram com ela. Eu preciso daquela bola para encontrar a chave.

Continuando a fingir que estava embriagada, Cibele perguntou:

– Que chave, mãe?!

Impacientando-se, a bruxa exclamou:

– Não recomece! Não abuse do pouco de paciência que me resta!

Nesse momento, Cibele fingiu perder o equilíbrio e simulou um desmaio. Sua mãe começou a gritar:

– Tadeu! Tadeu! Onde está você, imprestável?! Tadeu! Tadeu!

Tadeu, que já se acostumara aos gritos da mãe de Cibele, não se alarmou e caminhou tranquilamente até o sótão. Entretanto, ao deparar-se com Cibele caída no chão, ele abaixou-se e, segurando-a cuidadosamente, atreveu-se a perguntar:

– O que houve?

A bruxa resmungou:

– Não é da sua conta, seu imprestável! Só faltava essa: agora o imprestável deu para fazer perguntas! Apenas leve a minha filha para o quarto e peça para aquela outra imprestável cuidar dela.

Anabel, atraída pelos gritos da bruxa, assustou-se ao ver Cibele desmaiada nos braços de Tadeu. Perguntou:

– O que aconteceu?

A bruxa tornou a resmungar:

– Desde quando criados fazem perguntas?! Cuide da minha filha e pare de me amolar!

Anabel, preocupada, seguiu Tadeu até o quarto de Cibele. Abrindo os olhos, Cibele perguntou baixinho:

– A minha mãe nos seguiu?

Anabel, contente por rever Cibele e saber que ela estava bem, exclamou:

– Você quase nos matou de susto! Fique tranquila, porque a sua mãe não desceu. Ainda deve estar procurando a bola de cristal.

Cibele, depois de pedir a Anabel que trancasse a porta do quarto, disse a Tadeu:

– Já pode colocar-me no chão. Eu estou bem; apenas fingi que desmaiei. Obrigada e desculpe o trabalho que lhe dei.

Tadeu, encabulado, depois de colocá-la no chão, disse:

– Não foi trabalho algum. Não imagina como estou feliz em revê-la.

Sorrindo, Cibele comentou:

– Foi muito engraçado fingir-me de bêbada! Vocês precisavam ter visto a cara da minha mãe! Onde está meu espelho?

Anabel respondeu:

– Está aqui. Nós o levamos para a cela, mas como não conseguimos utilizá-lo, resolvemos trazê-lo de volta.

Fitando o rosto de Anabel, Cibele ordenou, sorrindo:

– Apanhe-o e traga-o para mim; tenho uma surpresa para você.

Entregando o espelho a Cibele, Anabel perguntou:

– Eliel está esperando para entrar em contato conosco?

Cibele respondeu:

– Mais do que isso: ele está lá embaixo. Eu pedi a ele que se escondesse entre as árvores. Fale com ele, mas procure controlar a empolgação para evitar que a minha mãe desconfie.

Segurando o espelho de Cibele, Anabel perguntou:

– Eliel, consegue me ouvir?!… Eliel?!…

Cibele admirou-se com a ausência de resposta. Eliel estava próximo dali e não precisaria do globo de cristal para comunicar-se. Impacientando-se com a insistência de Anabel em chamá-lo e com a demora de Eliel em responder, Cibele ordenou:

– Passe o espelho para cá. Deixe-me ver o que está acontecendo.

Cibele mal segurou o espelho e conseguiu ver Eliel deitado confortavelmente sobre o galho de uma árvore. Ela devolveu o espelho a Cibele, dizendo:

– O espelho conseguiu captar a imagem: pode chamá-lo agora.

Cibele surpreendeu-se novamente ao verificar que bastou Anabel segurar o espelho para que a imagem desaparecesse. Ela tornou a pegar o espelho e lá estava o rosto triste de Eliel. Dessa vez, foi ela quem perguntou:

– Eliel, consegue me ouvir?

Eliel, feliz por ouvir a voz de Cibele, respondeu:

– Sim, meu anjo. Eu só lamento não poder vê-la.

Tadeu e Anabel entreolharam-se, reparando no modo carinhoso como Eliel dirigiu-se a Cibele. Receando que o seu amor por Eliel fosse descoberto, Cibele passou o espelho para Anabel enquanto dizia:

– Ele deve ter confundido a minha voz com a sua. Fale com ele, Anabel.

Eliel, que esperava uma resposta de Cibele, pôde ouvi-la conversando com Anabel e redescobriu em sua voz a mesma doçura de antes. Só havia uma razão para ela tê-lo tratado com tanta frieza: estava disposta a afastar-se dele a qualquer preço. Os pensamentos conflitantes de Eliel foram interrompidos quando ele ouviu Anabel dizer:

– Eliel, você poderia usar o anel para vir ao quarto de Cibele.

Anabel e Tadeu surpreenderam-se ao ouvir Cibele exclamar:

– Não! Encontre-o em qualquer outro lugar!

Eliel também pôde ouvi-la e sugeriu a Anabel:

– Do alto da árvore, eu pude avistar um rio. Encontre-me em sua margem.

Quando Anabel deixou o quarto, Tadeu, ao contemplar a profunda mágoa nos olhos de Cibele, perguntou:

– O que há? Quer desabafar? Eu nunca a vi assim tão triste!

Para desviar a atenção de Tadeu, Cibele perguntou:

– O que vocês estavam fazendo antes da minha mãe chamá-los?

Ele respondeu:

– Tirando água do poço. A sua mãe precisará de muita água!

Ela disse:

– Segure a minha mão para que possamos ir até lá. Quanto antes terminarmos o serviço, mais depressa você poderá se reunir a eles para traçarem um plano.

Tadeu segurou a mão de Cibele e, num estalar de dedos, estavam diante dos potes que a bruxa ordenou-lhes que enchessem. Havia dezessete potes e apenas três deles estavam cheios. Tadeu não conseguiu evitar o comentário:

– Pior do que enchê-los, será carregá-los.

Cibele, estalando os dedos várias vezes, declarou:

– Se depender de mim, vocês não farão nem uma coisa, nem outra.

Quando Anabel e Eliel aproximaram-se de mãos dadas para encontrá-los, os potes já estavam todos cheios. Anabel comentou:

– Eu não imaginei que estivesse aqui nos ajudando. Obrigada. Eu vim apresentar Eliel a Tadeu.

Cibele disse:

– Faça isso enquanto eu transporto os potes para dentro.

Conforme Cibele estalava os dedos, os potes iam desaparecendo um de cada vez. Eliel ofereceu-se para ajudá-la:

– Se permitir que a minha magia sustente a sua, poderemos transportá-los todos de uma só vez.

Sem olhar para o rosto de Eliel, Cibele disse:

– Preocupe-se com eles. Eu ficarei bem.

Cibele, continuando a transportar os potes, fixou o olhar no rosto de Tadeu antes de aconselhar:

– Não desperdice a oportunidade que estamos tendo: mostre a ele a chave. A propósito, esconda bem a bola de cristal, porque a minha mãe não desistirá de procurá-la.

Retribuindo o olhar de Cibele, Tadeu disse:

– Há algo que preciso lhe confessar…

As palavras de Tadeu colocaram o coração de Eliel em alerta. Ele, que pensava já ter conhecido o ciúme, percebeu que tinha visto o seu vulto apenas de relance e nunca o havia enfrentado como naquele momento em que o seu olhar não desgrudava dos rostos de Tadeu e Cibele.

Impacientando-se com a hesitação de Tadeu e com o modo insistente que Eliel observava o diálogo entre eles, Cibele ordenou:

– Seja o que for, diga logo porque não temos o dia todo!

Tadeu revelou:

– Eu perdi a chave, e Anabel destruiu a bola de cristal.

Anabel, para defender-se, comentou:

– Eu só arremessei a bola contra a parede para soltá-la da chave. Vocês não se lembram de que a comunicação foi interrompida quando Tadeu aproximou a chave da bola de cristal? Então, a partir daquele momento, a chave ficou colada à bola, e não conseguíamos separá-las. Quando a bola se partiu em vários pedaços, vejam o que encontramos dentro dela.

Dizendo isso, Anabel enfiou a mão no decote do vestido improvisado, para retirar a esfera de ouro do bolso interno que fizera para guardá-la. Ela estendeu a mão revelando o que escondera com tanto cuidado. Cibele exclamou:

– Então é isso! Não é a bola de cristal que a minha mãe quer, e sim a esfera para ajudá-la a localizar a chave.

Eliel, que também desejava atrair a atenção de Cibele, comentou:

– Receio ter outra má notícia: eu pretendia usar o meu anel para tirar-nos daqui, mas ele desapareceu inexplicavelmente.

A surpresa desarmou Cibele, e ela inadvertidamente fitou o rosto de Eliel quando concluiu:

– O seu anel ficou para trás como o anel de Anabel. Você consegue usar seus outros poderes?

Aproveitando-se da gravidade da situação, Eliel continuava acariciando o rosto de Cibele com o olhar enquanto dizia:

– Felizmente a minha magia não foi bloqueada, e eu posso recorrer à magia da invisibilidade.

Cibele, entregando-se ao carinho de seu olhar, parecia interessar-se pelo assunto. Eliel, por sua vez, satisfeito pela oportunidade de poder exibir-se para ela, desapareceu bem diante de seus olhos. Ela exclamou impaciente:

– Por favor, Eliel, apareça! Não é hora para brincadeiras!

Quando Eliel tornou-se visível, Cibele, ao contemplar o seu rosto, lembrou-se da atração da chave pela esfera. Os seus olhos eram igualmente atraídos pelos olhos de Eliel. Teria forças para quebrar aquele encanto?! Que magia poderosa seria aquela?!

Tadeu e Anabel, sentindo-se excluídos, entreolharam-se em busca de respostas. Cibele, sentindo-se vulnerável e exposta, recorreu à única estratégia que conhecia para camuflar o seu amor: a frieza. Endereçando a Eliel aquele mesmo olhar intransponível, ela afirmou:

– A sua invisibilidade lhe será muito útil, porque permitirá que você fique ao lado de Anabel.

Depois se afastou dizendo:

– Preciso ir porque, se eu demorar muito, minha mãe poderá desconfiar que estamos tramando algo.

Anabel e Tadeu perceberam que Eliel acompanhou Cibele com o olhar até perdê-la de vista. Os dois entreolhavam-se desconfiados quando Eliel perguntou:

– O que faremos agora?

Tadeu respondeu:

– Temos que reunir os ingredientes desta lista.

Eliel, estendendo a mão, disse:

– Deixe-me vê-la… Há itens que desconheço. A minha magia não pode reproduzir aquilo que eu não faço a menor ideia do que seja.

Tadeu sugeriu:

– Consiga o que puder; o restante, eu me encarrego de procurar.

Tadeu ficou maravilhado ao ver surgir em sua frente, num piscar de olhos, a grande maioria das plantas e dos insetos que, se não fosse por Eliel, ele passaria horas coletando. Embrenhando-se na floresta, ele disse entusiasmado:

– Não se preocupem se eu demorar a voltar.

Aproveitando-se da ausência de Tadeu, Anabel comentou:

– Eu imaginava que o nosso reencontro aconteceria de um modo bem diferente.

Eliel olhou nos olhos de Anabel e não conseguiu encontrar o que buscava. Receando magoá-la, confessou o amor que não sentia e beijou-a como se estivesse perdidamente apaixonado. A confusão de sentimentos que Eliel experimentou ao beijá-la foi terrível! Se ele pudesse morrer, imaginou que o momento da morte deveria ser daquela forma. Em poucos segundos, a sua vida ao lado de Anabel desenrolou-se numa velocidade alucinante. Ele sentiu uma vertigem e afastou-se.

Anabel a princípio sentiu-se magoada com a interrupção brusca do beijo, mas depois, ao contemplar a palidez no rosto de Eliel e o esforço que ele fazia para manter o equilíbrio, ela o amparou e o conduziu a uma árvore para que ele pudesse ter onde se apoiar. Tremendamente preocupada, ela perguntou:

– Você está bem?!… O que houve, Eliel?!… Responda, por favor.

Eliel não respondeu. Recostado à sombra da árvore, ele não saberia como explicar aquele mal-estar repentino. Desejou estar em sua árvore para poder recompor suas energias. Anabel, ajoelhada ao seu lado, disse:

– Eu não sei o que fazer. Chamarei Cibele.

Antes que Anabel se levantasse, Eliel segurou-a pelo braço enquanto dizia:

– Não é nada. Eu me senti meio zonzo de repente, mas já estou bem melhor. Deve ser a atmosfera deste lugar. Precisamos ir embora o quanto antes. O que resta ainda para vocês fazerem?

Anabel, sentando-se ao seu lado, respondeu desanimada:

– Cozinhar, cozinhar, cozinhar! Depois que sairmos daqui, eu jamais ficarei à beira do fogão novamente.

Eliel ensaiou um sorriso antes de dizer:

– Entregue-me a esfera. Enquanto eu estiver escondido na floresta, tentarei descobrir como ela funciona.

Anabel, entregando-lhe a esfera, perguntou desapontada:

– Você não vai continuar ao meu lado? Poderia recorrer à invisibilidade quando a bruxa aparecesse.

Eliel disse:

– Eu amo a natureza. Não creio que conseguiria suportar permanecer muito tempo cercado pelas paredes maciças daquele estranho castelo. Eu só o vi de relance e já pude notar que a construção toda exala intriga e maldade. Pedirei a Cibele para não permitir mais que durmam no porão. O lugar deve estar infestado de baratas e ratos.

Anabel exclamou:

– Engana-se! No início, eu também receei que estivesse. Mas Tadeu contou-me que a magia de Cibele protege o lugar. Você acredita que, mesmo na ausência dela, não apareceu um único pernilongo para nos incomodar?! Eu só lamento não termos mais o bastão.

Eliel perguntou preocupado:

– Vocês passam a noite deitados no chão frio?!… Eu temia que você adoecesse.

Anabel tornou a surpreendê-lo agradavelmente quando disse:

– A magia de Cibele, além de higienizar o lugar, também nos proporciona um ambiente agradável. O que me incomoda é ter que me vestir tão mal. Na ausência de Cibele, Tadeu sugeriu que eu tomasse banho no quarto dela. Ao sair do banho, eu procurei algo para vestir e senti até calafrios ao olhar dentro do armário porque só havia túnicas pretas! Tive sorte de encontrar este camisolão em uma das gavetas da cômoda; ele é tão feio que nem atraiu a atenção da bruxa!…

Eliel disse:

– Levante-se. Deixe-me ver o que consigo fazer para melhorar a sua aparência.

Anabel levantou-se e, num piscar de olhos, viu-se em um vestido parecido com o que ela usava quando chegou. Após agachar-se para abraçá-lo e beijar-lhe o rosto, ela comentou:

– Não imagina o quanto eu fiquei triste quando tive que jogar o meu vestido no lixo! Ele estava irrecuperável! Aquela bruxa nos obrigou a limpar o sótão, e ficamos cobertos de poeira. Se eu lhe pedisse um favor, você não se zangaria?

Ainda recostado à árvore para recuperar suas energias, Eliel sorriu antes de dizer:

– Eu nunca me zango com você. O que deseja?

Anabel respondeu:

– São três coisas: roupas melhores para Tadeu, três barras de chocolate e uma taça de sorvete. Eliel, eu não queria ficar me queixando; mas, na ausência de Cibele, passamos fome. Eu mal consigo acreditar que vocês dois estão aqui. Veja só: é Tadeu chegando… E como está ofegante com o peso daquela bolsa em seu ombro! Vamos alegrá-lo?

Tadeu aproximou-se dos dois e parou para contemplar o rosto de Eliel. Colocando a bolsa no chão e agachando-se ao lado dele, comentou preocupado:

– Você está pálido. Não se sente bem? Há algo que eu possa fazer? Se desejar, posso chamar Cibele.

Eliel, sorrindo, disse:

– Há uma coisa que você pode fazer: fique em pé e feche os olhos.

Um pouco desconfiado, Tadeu levantou, olhou para Anabel, fechou os olhos e sorriu. Deixando transparecer certo nervosismo pelo inusitado da situação, perguntou:

– Já posso abrir os olhos?

Anabel, colocando-se ao seu lado, respondeu irradiando felicidade:

– Pode sim, Tadeu. Veja como você ficou bonito! Eu só espero que a bruxa não note a diferença.

Profundamente agradecido por sua nova aparência, Tadeu comentou:

– Eu não sei como lhe agradecer. Quando eu era pequeno, eu sempre ganhava roupas novas; mas, depois que cheguei aqui, tive que aprender a confeccionar as minhas próprias roupas com os retalhos que Cibele me ofertava às escondidas. Houve uma ocasião em que ela presenteou-me com uma camisa. Quando a mãe dela viu a satisfação estampada em meu rosto, ordenou-me que a tirasse, apanhou uma tesoura e cortou-a em pedacinhos.

Anabel sentou-se em frente a Eliel e, para animar Tadeu e fazê-lo esquecer das tristezas, disse:

– Sente-se aqui ao meu lado e espere pelo restante da surpresa.

Tadeu, em alegre expectativa, sentou-se ao lado de Anabel e mal conseguiu acreditar quando viu as barras de chocolate e o sorvete aparecerem bem diante de seus olhos. Felicíssimo, depois de agradecer a gentileza de Eliel, Tadeu entregou uma barra de chocolate a Anabel e guardou uma para Cibele. Depois, ao apanhar a última barra, partiu-a ao meio e ofereceu uma das partes a Eliel. Disse:

– Não pode recusar, porque é só o que tenho para lhe oferecer.

Eliel sorriu e aceitou a metade da barra de chocolate que Tadeu lhe ofertara. Os três estavam comendo alegremente quando Cibele, conduzida por sua magia, surgiu de repente. Inconformada com a tranquilidade dos três sentados à sombra da árvore, ela perguntou espargindo farpas de intolerância:

– O que pensam que estão fazendo?! É dessa forma que esperam sair daqui?! Não pensem que poderão abandonar o serviço completamente! Pelo menos, não por enquanto! Posso ajudá-los longe dos olhos da minha mãe; mas não debaixo deles. Se não se apressarem, não conseguirão terminar de cozinhar as poções antes do anoitecer e terão que continuar trabalhando noite adentro. É isso o que desejam?!

Anabel levantou-se para dizer:

– Tadeu, termine logo o sorvete e venha me ajudar. Cibele tem toda a razão: continuamos escravos daquela bruxa. Eliel já está melhor, e nós precisamos trabalhar.

Anabel afastou-se, e foi só nesse momento que Cibele olhou na direção de Eliel. Contemplando a palidez em seu rosto, ela perguntou procurando esconder a aflição:

– Por que está prostrado dessa forma? O que houve?

Eliel disse abertamente:

– Eu não quis preocupar Anabel. Ainda me sinto fraco demais para levantar.

Sem perder a altivez, Cibele desviou o olhar do rosto de Eliel quando perguntou:

– Há algo que eu possa fazer?

Eliel confidenciou:

– Esta é a primeira vez que me sinto mal. Deve ser a atmosfera deste lugar que não se casa com a minha energia.

Esquecendo-se da presença de Tadeu, Cibele intuitivamente ajoelhou-se ao lado de Eliel e inclinou-se para beijá-lo. Tadeu estava boquiaberto e ficou imóvel, segurando no ar a colher que usava para tomar o sorvete. Ele presenciou a cena, e um turbilhão de pensamentos invadiu a sua mente e o seu coração.

Alheia à presença de Tadeu, Cibele, ao afastar-se de Eliel, perguntou-lhe com a voz exalando ternura:

– Sente-se melhor? Não me diga que fez toda essa encenação só para atrair-me!

Levantando-se e segurando a mão de Cibele para ajudá-la a se levantar, Eliel afirmou:

– O único obstáculo que impede o nosso amor é a sua desconfiança. Agradeço-lhe por ajudar-me a reequilibrar a minha energia. Agora, se precisa ir, vá. Prefiro afastar-me a tornar a ver em seus olhos aquela frieza que lhe é tão peculiar.

Sentindo-se magoada, Cibele exclamou:

– Está sendo injusto! Sabe que só estou tentando proteger Anabel.

Eliel perguntou:

– E quanto a mim? Quer saber o que eu estava fazendo quando passei mal?… Beijando Anabel!… A minha natureza não me permite mentir ou enganar, e eu estaria mentindo e enganando Anabel toda vez que dissesse que a amo. Eu não tenho a sua frieza interior para trair o meu coração negando o amor que sinto.

Cibele afirmou:

– Anabel é adorável e você a ama tanto que lhe ofereceu a imortalidade. Não permita que o benefício que a união de nossa magia nos traz macule o amor que você ainda sente por ela.

Eliel bateu palmas enquanto exclamava ironicamente:

– Belo discurso! E todo ele baseado no veneno que Crisélia destilou sobre o nosso amor. Se você aceitar viver ao meu lado, eu lhe prometo que não descansarei enquanto não lhe ofertar a água cristalina da imortalidade.

Cibele murmurou hesitante:

– E quanto à sua esposa?… Não lhe parte o coração trocá-la por outro amor?

Com a seriedade estampada em seu rosto, Eliel afirmou:

– A minha afeição por Anabel está intacta, porque desejo de coração que ela seja feliz. Ela terá a eternidade para encontrar sua própria alma gêmea. Eu prefiro usar de sinceridade e libertar Anabel do compromisso que assumimos, oferecendo-lhe a oportunidade de ser feliz, a trair a confiança que ela deposita em mim com mentiras. Eu olho em seus olhos, Cibele, e encontro a felicidade que só você pode me ofertar. E você, o que sente quando mergulha nos meus?

Cibele suspirou e calou-se entristecida. O amor de Eliel era persistente, e ela não possuía mais argumentos para combatê-lo. Foi só naquele instante que ela disse a Tadeu:

– Obrigada por ter ficado ao meu lado no momento em que mais precisei de você. Quando percebi que nos observava atentamente sem se escandalizar ou nos agredir com palavras de revolta ou indignação, preferi tê-lo como testemunha a pedir-lhe que se retirasse. Em nome da nossa amizade, eu só lhe peço que esqueça o que viu e ouviu. Por favor, não comente nada com Anabel.

Tadeu já estava em pé, parado em frente a Cibele quando disse:

– Perdoe-me a indiscrição… Se você ama Eliel tanto quanto ele ama você, não adiantará nada tentar esconder a verdade de Anabel, porque você é tão transparente quanto ele. Anabel é uma pessoa extraordinária e saberá compreender. Agora eu preciso ir ajudá-la.

Antes que ele se afastasse, Cibele exclamou com os olhos úmidos:

– Vá, meu amigo! Em breve eu estarei lá para tentar minimizar o trabalho.

Cibele, entretanto, surpreendeu-se ao vê-lo voltar após ter caminhado alguns passos. Aproximando-se dela, Tadeu entregou-lhe a barra de chocolate enquanto dizia:

– Guardamos este chocolate para você.

Entre surpresa e curiosa, Cibele perguntou:

– O que é?

Tadeu disse:

– Experimente. É fruto da magia de Eliel.

Guardando a barra no bolso do avental, Cibele exclamou:

– Tivemos sorte! Eu não sei como a minha mãe ainda não saiu para me procurar!

Tadeu afastou-se, e ela aconselhou:

– Abrigue-se nas árvores e não se exponha de forma alguma.

Eliel perguntou:

– E quanto a nós?!… Não pense que estou disposto a desistir de você.

Cibele, olhando-o fixamente, exclamou:

– Por favor, não me pressione! É bem provável que eu resolva continuar morando aqui, porque este é o meu lar.

Abanando a cabeça na tentativa de libertar-se do desespero, ele disse:

– Aceite a realidade: sua mãe é má e busca a companhia de outras bruxas que talvez sejam até piores do que ela. Como pode pensar em continuar vivendo aqui?! Como poderei protegê-la se estiver longe de mim?!

Eliel sentiu o coração despedaçar quando a ouviu dizer:

– Eu lhe faço uma proposta: fique comigo nesta dimensão.

Aproveitando-se do silêncio e da hesitação de Eliel, Cibele retirou-se sem acrescentar uma única palavra. Quando entrou na cozinha, Tadeu e Anabel disseram-lhe que sua mãe havia saído com uma de suas amigas. Ela teve a oportunidade de que precisava para ajudá-los a terminar o serviço antes do anoitecer.

FIM DO CAPÍTULO XXVIII
Sisi Marques

No próximo segmento, não perca os Capítulos XXIX e XXX da 4ª Parte (Cibele) da história “Realidade Mágica” – livro 1.

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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