REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE (Capítulos XXV, XXVI e XXVII)

Capítulo XXV
Enquanto Anabel subia à cozinha para saciar a fome; Cibele, no casarão, dizia a Eliel:

– A sua irmã e o seu cunhado foram muito gentis. Espero, um dia, poder retribuir.

Sentindo-se incomodada com o silêncio de Eliel, Cibele aconselhou:

– Vá para a árvore e procure repousar. Passar a noite em claro neste porão não trará Anabel de volta. Eu acredito que a minha mãe, antes de abrir a passagem em seu quarto, usou a chave para fechar a que havia na floresta.

Cibele fez uma pausa esperando que Eliel fizesse algum comentário. Em vez disso, ele permanecia calado e se fechava cada vez mais em si mesmo. Sentando-se ao lado dele, Cibele confidenciou:

– Você não é o único que está sofrendo. Quando a minha mãe levou Tadeu para a nossa dimensão, eu tinha cinco anos e ele, doze. Ele me dava tanta atenção, tratava-me com tanta estima que acabei me afeiçoando a ele. Essa afeição, com o passar dos anos, transformou-se em amor, e eu me tornei egoísta a ponto de não revelar a ele o caminho que o conduziria à liberdade. Agora eu sei que ele já havia descoberto a saída, mas preferiu ficar. A minha mãe sempre fez com que eu acreditasse que havia um abismo intransponível entre mim e ele. Nós nunca falamos sobre os nossos sentimentos. Ele nunca me beijou. Nunca segurou a minha mão. Eu não sei que sabor tem um beijo. Você teria coragem de me beijar mesmo sabendo que sou uma bruxa?

Com a intenção de fazê-la sorrir, Eliel comentou:

– Crisélia e Felizardo aconselharam-me a não contar a Anabel, porque ela não conseguiria entender: eu beijei um gênio certa vez. Naturalmente ele estava com outra aparência… Sílvia era o nome da jovem por quem ele se passava. Foi embaraçoso e engraçado ao mesmo tempo. Você seria capaz de me beijar mesmo sabendo que eu já beijei um gênio chamado Derlo?

Cibele, contraindo levemente o rosto, exclamou:

– Que nome horrível!

A princípio, Eliel sorriu; mas depois assumiu um ar de seriedade quando confidenciou:

– Quando eu quebrei o bastão, e a minha magia e a sua dançaram naquela explosão de luz, eu senti algo que nunca havia experimentado antes. Você também sentiu o mesmo, e é isso que está tentando me dizer.

Cibele sorriu antes de confessar:

– Eu pude perceber que éramos almas gêmeas quando você usou a sua magia para conduzir-me à sua árvore. A luz branca, que já apresentava filamentos esverdeados, tingiu-se totalmente de verde. Naquele instante, a minha magia cedeu lugar à sua para que eu compreendesse que é você e não Tadeu o meu verdadeiro amor. Nascemos um para o outro, e o destino escolheu um modo estranho de nos unir. Mas não se preocupe porque, do mesmo modo que você seria incapaz de magoar Anabel, eu também seria incapaz de magoar Tadeu.

Eliel, não conseguindo mais esconder seus sentimentos, confessou:

– Eu me apaixonei por você no momento em que ouvi sua voz através do espelho do porão. Eu gosto de Anabel e daria a minha vida para trazê-la de volta… Mas agora eu compreendo que nunca a amei. Eu conheci o amor quando encontrei você.

Eliel sorriu antes de acrescentar:

– Respondendo à sua pergunta: eu não me importo que você seja uma bruxa.

Permitindo-se mergulhar nos olhos de Eliel, Cibele disse:

– E eu não fiquei escandalizada por você ter beijado um gênio. Agora é sério: vá para a sua árvore descansar. Faremos de conta que nunca conversamos a esse respeito. Precisamos continuar acreditando que eu amo Tadeu e você ama Anabel.

Eliel, colocando o braço ao redor dos ombros de Cibele, disse:

– Eu irei, mas só depois de beijá-la. Mesmo que as aparências provem o contrário, eu sempre amarei você.

Quando o beijo terminou, Eliel despediu-se de Cibele com o coração em pranto.

FIM DO CAPÍTULO XXV
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE
Capítulo XXVI
Naquela mesma noite, Tadeu saíra para nadar no rio e, quando retornou ao castelo, Anabel esperava-o sentada à mesa da cozinha. Ao vê-lo, ela exclamou:

– Como você demorou! Eu já estava ficando preocupada. Coma esse pão com queijo e tomate… Não é muito, mas dá para tapear a fome.

Tadeu, lívido como o queijo dentro do pão, comentou nervoso:

– Depois que saí do rio e me vesti, certifiquei-me de que a chave estava no meu bolso. Aproveitando a claridade da lua, resolvi caminhar pela floresta para tentar localizar o portal. Procurei-o por toda a parte, mas não consegui mais encontrá-lo. Houve uma época em que eu contemplava aquele retângulo recortado na grama diariamente. Atualmente não há mais nem sinal dele. Eu sabia que seria inútil; entretanto, eu precisava tentar. Quando eu estava entrando no castelo, percebi que a chave não estava mais no meu bolso. Eu a perdi.

Sentando-se para comer o sanduíche que Anabel havia preparado, ele se surpreendeu ao ouvi-la dizer calmamente:

– Não fique se torturando porque aquela chave não teria utilidade para nós. Foi melhor assim. Imagine o que a bruxa faria conosco se a encontrasse em seu bolso!

Ele comentou:

– Amanhã, terça-feira, será um dia muito difícil porque a mãe de Cibele estará preparando novas poções para exibir às suas amigas na quarta-feira, dia em que costumam trocar receitas. Ela ficará exigindo os nossos serviços o dia inteiro; mas, em compensação, quando ela sair na quarta-feira após o almoço, teremos a tarde todinha livre. Será uma boa oportunidade para descansarmos e tentarmos fazer um novo contato com Eliel e Cibele.

FIM DO CAPÍTULO XXVI
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE
Capítulo XXVII
Na manhã seguinte, Crisélia e eu estávamos sentados à mesa quando Cibele apareceu inesperadamente, e nós a convidamos para tomar café conosco. Crisélia, ao vê-la em sua túnica preta, perguntou:

– Não gostou dos vestidos?!

Cibele, delicadamente, respondeu:

– Eu gostei muito. Mas a minha mãe ficaria enfurecida se me visse com algo tão alegre e florido. Pensaria que eu tive uma crise súbita de rebeldia.

Curiosa, Crisélia não perdeu a oportunidade de perguntar:

– Eliel sabe que tenciona partir?

Eliel, chegando de repente e servindo-se de uma xícara de café, após cumprimentar-nos, disse:

– Eu a ouvi pronunciando o meu nome, Crisélia. O que dizia a meu respeito?

Sem rodeios, Crisélia comentou:

– Perguntei a Cibele se você sabia que ela tencionava partir.

Eliel, apanhado de surpresa pela revelação de Crisélia, perguntou a Cibele:

– Quando pretendia me contar?

Ela respondeu com firmeza:

– Eu o estava esperando para ajudar-me a voltar. Se a sua magia não der suporte à minha fortalecendo-a, eu não conseguirei transportar-me. Lembra-se de quando eu estava presa no corredor abaixo do porão?!… Você me ajudou a sair e me conduziu à sua árvore porque era um lugar neutro. Se estivermos em sua árvore, talvez você consiga ajudar-me a voltar para casa. Precisamos agir logo. Enquanto estamos aqui conversando, Tadeu e Anabel estão à mercê dos caprichos da minha mãe. Hoje é terça-feira, dia em que ela prepara suas poções para competir com suas amigas. Ela os fará trabalhar até não lhes restar uma gota de energia. Preciso voltar para protegê-los.

O silêncio contemplativo de Eliel constrangia Cibele, porque a expunha aos olhos inquisidores de Crisélia. Cibele olhou para mim em busca de ajuda e eu, sensível ao seu desconforto, levantei da mesa e aproximei-me de Crisélia para dizer:

– É melhor irmos para não chegarmos atrasados. Hoje eu a acompanharei à biblioteca antes de resolver alguns assuntos.

Crisélia exclamou:

– É cedo! Temos tempo de sobra.

Depois, endereçando um olhar a Cibele, ela comentou destilando ironia:

– A sua dedicação aos dois jovens que sua mãe escravizou é comovente! Caso seja preciso escolher entre Anabel e o rapaz, liberte primeiro o seu namorado, porque ele é mortal como você e não poderá recuperar os anos perdidos nesse desatino. Anabel, apesar de sua aparente fragilidade, conserva em seu sangue a água cristalina da imortalidade. Eliel contou-lhe que ofertou a ela a água da Fonte da Juventude? Apenas quem ama profundamente pode oferecer um presente assim.

Cibele, com a voz maculada de tristeza, murmurou apenas:

– Tadeu não é meu namorado.

Ainda não satisfeita, Crisélia acrescentou:

– Mas você o ama. E eu lamento sinceramente a sua desventura: ficará sozinha na dimensão à qual pertence, porque terá que libertá-lo para reparar o crime que sua mãe cometeu.

Eliel ouvia as palavras de Crisélia sem conseguir entender por que ela odiava tanto Cibele. Se ele interrompesse o maldoso diálogo, seria o mesmo que entregar a Crisélia a confissão que ela tanto receava. Eliel conhecia bem o coração de sua irmã. Ela não era má; apenas desejava proteger Anabel. Ele não havia jurado amá-la eternamente?!… Todavia, eternamente agora parecia tempo demais. Os comentários inoportunos de Crisélia, no entanto, continuavam a jorrar e ele, não conseguindo mais conter-se, exclamou:

– Já chega! O que espera conseguir com essa conversa mais fora de propósito?

Esquadrinhando o rosto de Eliel, Crisélia respondeu:

– A verdade.

Procurando desviar o assunto, Eliel declarou:

– A verdade é uma só: Cibele é inocente e não pode ser punida pelos crimes de sua mãe. Ela merece o nosso respeito e a nossa gratidão. Não percebe que ela é a única pessoa capaz de resgatar Anabel e Tadeu?!

Depois, voltando-se para Cibele, ele libertou-a daquela tortura quando disse:

– Venha, meu anjo, precisamos unir a nossa magia para ajudá-los.

Eliel, mal acabou de pronunciar essas palavras, desapareceu acompanhado de Cibele. Em sua árvore, ao contemplar as lágrimas que transbordavam dos olhos de Cibele, ele a abraçou, e o seu silêncio dizia mais do que as palavras poderiam expressar. Ainda mantendo-a protegida em seu abraço, Eliel sentiu o coração morrer no peito quando ela, revelando o seu ciúme e a sua desesperança, afirmou:

– Eu envelhecerei e morrerei sem amor enquanto Anabel viverá ao seu lado para sempre.

Eliel abraçou-a ainda mais forte e beijou-a enquanto girava o anel. Num piscar de olhos, Eliel e Cibele foram transportados para a dimensão na qual ela nascera. Cibele, surpresa, perguntou:

– Como chegamos aqui tão facilmente?!

Ainda abraçado a ela, ele afirmou:

– A magia do nosso amor nos trouxe.

Soltando-se gentilmente de seu abraço, ela disse:

– Você não deveria estar aqui. Era para eu ter vindo sozinha. Agora terei que me preocupar também com você.

Com a voz exalando carinho, ele sorriu antes de dizer:

– Eu saberei me cuidar.

Devolvendo a fragrância que sentiu na voz de Eliel, Cibele afirmou:

– Eu o liberto do meu amor. Agora é a sua vez de dizer o mesmo. Diga, Eliel, por favor…

Abrindo o seu coração, ele disse:

– Não me obrigue a mentir para você do mesmo modo que você está mentindo para mim.

Eliel preocupou-se quando Cibele, cobrindo o rosto com uma máscara de frieza, rebateu:

– Eu não menti ao dizer que o libertei. O nosso amor, se é que por um momento existiu, terminou. Você não me deixou alternativa.

Eliel contemplava o rosto altivo de Cibele e não conseguia mais decifrá-lo. Era como se a magia do amor tivesse desaparecido de seus olhos. Antes de virar as costas e caminhar em direção ao castelo, ela comentou friamente:

– Você é um elfo e não terá dificuldade de ocultar-se entre as árvores. Só apareça quando eu o chamar. Se me desobedecer e algo sair errado, não me responsabilize por sua imprudência.

FIM DO CAPÍTULO XXVII
Sisi Marques

No próximo segmento, não perca o Capítulo XXVIII da 4ª Parte (Cibele) da história “Realidade Mágica” – livro 1.

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
This entry was posted in REALIDADE MÁGICA LIVRO 1 - PARTE 4 (CIBELE). Bookmark the permalink.

Leave a Reply