REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE (Capítulos XXII, XXIII e XXIV)

Capítulo XXII
Para Tadeu e Anabel, aquela manhã de segunda-feira também prometia ser bastante agitada. Eles acordaram com os empurrões e gritos da bruxa:

– Subam, subam, vamos, imprestáveis! Onde está Cibele? Ela roubou a minha chave! Onde está a minha chave de ouro? Vamos, digam. Morrerão de trabalhar se não disserem aonde ela foi. Aquela traidora! Sabem o que ela fez?!… Usou o amuleto para fechar todas as saídas que minhas amigas e eu abrimos para as outras dimensões. Como poderemos sair para assombrar os outros mundos?! Onde está o amuleto que abre os portais?!…

A bruxa não parava de falar e repetir sempre a mesma coisa enquanto os equipava de vassoura, escovão, balde e sabão. Ela dizia:

– Trabalhem!… Trabalhem, imprestáveis!… Se não me contarem onde está Cibele, eu os matarei de tanto trabalhar. Se isso é um jogo, vamos jogar! Se eu perder, vocês perdem também e muito mais do que eu. Trabalhem, imprestáveis! Trabalhem!

No final da tarde, Tadeu e Anabel estavam exaustos de tanto trabalhar. Anabel comentou:

– Eu preciso de um banho quente. Por que aquela megera nos fez limpar o sótão e comer toda aquela poeira?! Aquele lugar nunca tinha sido limpo antes?!

Tadeu disse animado:

– Não reclame, Bebel; foi uma verdadeira bênção nós termos arrumado toda aquela bagunça. Veja o que eu encontrei: uma bola de cristal.

Impaciente, Anabel exclamou:

– Jogue isso fora! Para ter sido deixada naquele amontoado de coisas velhas e inúteis, ela não deve estar funcionando! Eu preciso de um banho e de roupas limpas. Como conseguirei dormir toda coberta de poeira?! Enquanto tínhamos o bastão, ele realizava tudo e nós mal nos cansávamos. Agora, sem Cibele aqui, estamos perdidos. A megera não estava brincando quando disse que nos mataria de trabalhar. Você ouviu o que ela disse: Cibele fechou todas as saídas para as outras dimensões. Como ela poderá voltar?! Como poderemos sair?! O que faremos?!… A bruxa está mais intratável do que nunca!

Carpindo o quintal, Tadeu, com o olhar distante, mal ouvia as palavras que Anabel pronunciava. Estava sonhando com a liberdade e arquitetava um plano. Anabel tirou-o de seu devaneio quando gritou:

– Você está me ouvindo?!

Ele respondeu ternamente:

– Sim, irmãzinha. Assim que a bruxa sair ao anoitecer, você poderá tomar o seu banho no quarto de Cibele. Não se esqueça de levar o espelho para tentar entrar em contato com eles e falar sobre o amuleto.

Desanimada, Anabel colocou o regador no chão e começou a chorar. Abandonando a enxada, Tadeu perguntou:

– Por que está chorando?

Inconformada com a passividade dele, Anabel exclamou:

– Você ainda pergunta?! Como se não bastassem os maus tratos que sofremos, ainda somos totalmente desprovidos de magia! Eu já tentei entrar em contato com Eliel, mas a magia do espelho não funciona comigo. Estamos presos nesta dimensão para sempre. Não há esperança, Tadeu. Morreremos aqui. Se não for de trabalhar, será de solidão.

FIM DO CAPÍTULO XXII
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE
Capítulo XXIII
Na segunda-feira, à noite, Eliel, em sua árvore, dizia a Cibele:

– Temos que nos concentrar mais. Por que ela não responde?

Cibele aconselhou:

– Acalme-se. A sua impaciência não nos levará a parte alguma. Tadeu e Anabel devem estar trabalhando. Mais tarde, tentaremos novamente. O seu globo de cristal há de conseguir contatar o meu espelho. Não podemos esperar o contrário, porque eles não conseguirão acionar o espelho. Fizemos tudo errado, e eu me sinto péssima por isso.

Eliel, com a voz embargada pela tristeza, disse:

– Não foi culpa nossa. Como poderíamos prever que a passagem desapareceria em vez de abrir-se?

Cibele comentou pesarosa:

– A minha mãe os fará trabalhar em demasia para descontar sua raiva por eu ter partido. Eu os abandonei, Eliel. Eu os abandonei à própria sorte.

Eliel e Cibele surpreenderam-se ao receber a visita de Crisélia. Entregando duas sacolas de compras a Cibele, ela disse:

– São roupas e objetos pessoais. Se precisar de mais alguma coisa, é só pedir. Perdoe-me por ter sido tão grosseira.

Cibele abraçou-a, dizendo:

– É um prazer conhecê-la, Crisélia. Obrigada pelos presentes.

Eliel perguntou a Crisélia:

– Como foi o dia?

Crisélia respondeu:

– Tive que recorrer várias vezes à magia. E, por falar em magia, hoje estou exausta demais para cozinhar. Será uma refeição feita de magia mesmo.

FIM DO CAPÍTULO XXIII
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE
Capítulo XXIV
Enquanto Crisélia conversava com Cibele na árvore de Eliel; na cozinha do castelo, Tadeu dizia a Anabel:

– Precisamos encontrar um modo de evitar que a bruxa tranque as celas; do contrário, você não poderá ir ao quarto de Cibele.

Anabel sugeriu:

– E se colocássemos algo na comida que a fizesse dormir?

Tadeu, seguindo a sugestão de Anabel, colocou algumas ervas soníferas no chá que a bruxa costumava beber após o jantar; e ela adormeceu ali mesmo, debruçada sobre a mesa da cozinha. Anabel suspirou aliviada e correu para o quarto de Cibele. Tomou um banho e procurou algo que pudesse vestir sem chamar a atenção da bruxa. Entretanto, no armário de Cibele, só havia túnicas pretas. Anabel examinou as gavetas da cômoda e conseguiu encontrar uma camisola grossa de algodão branco que poderia servir-lhe de vestido. Após sentir-se melhor consigo mesma, ela desceu e chamou Tadeu em sua cela para dizer-lhe:

– Está na hora de tentarmos entrar em contato com Eliel.

Tadeu perguntou:

– Quando você passou pela cozinha, a bruxa ainda estava dormindo?

Anabel, sentada em sua cama, convidou Tadeu para sentar-se ao seu lado. Respondeu:

– Sim. Vamos logo antes que a megera acorde. Por que você está segurando essa bola de cristal? Eu já lhe disse que isso não presta. Está tão velha que poderá até interferir na magia do espelho.

Tadeu, fingindo ignorar as palavras de Anabel, aconselhou:

– É melhor nos apressarmos. Você se concentra no espelho, e eu me concentro na bola de cristal.

Ela protestou:

– Temos que somar forças e não dividi-las. Pensando bem, faça como quiser! Não temos magia mesmo!… Como podemos esperar que o espelho ou a bola de cristal funcionem?!… Eu estou desesperada!

Anabel sobressaltou-se quando ouviu a voz de Eliel:

– Não se desespere, Anabel, porque essa desventura terminará muito em breve.

Tadeu comentou satisfeito:

– A voz saiu da bola de cristal. Eu não lhe disse?… Veja como ela está iluminada!

Anabel, irradiando felicidade, comentou:

– Eliel, eu ouço a sua voz, mas não consigo vê-lo. O contato está sendo realizado através de uma bola de cristal que Tadeu retirou do sótão. Você sabe por que Cibele não retornou? Sem ela, a nossa vida aqui é um tormento! Ela deveria ter deixado o bastão conosco.

Eliel disse:

– Anabel, eu consigo ver o seu rosto refletido no globo de cristal. Cibele está sugerindo que você segure o espelho e concentre sua atenção nele para que possamos energizá-lo.

Anabel perguntou:

– Por que devo me concentrar se não tenho magia?

Anabel surpreendeu-se ao ouvir Cibele dizer:

– A magia vem do coração. Pare de falar e concentre-se!

Cerca de um minuto depois, Cibele perguntou ternamente:

– Consegue ver o meu rosto?

Anabel respondeu:

– No espelho, não; mas consigo vê-lo na bola de cristal. Cibele, Tadeu deseja falar com você.

Tadeu aproximou-se da bola de cristal para dizer a Cibele:

– Encontramos o amuleto.

Cibele interrompeu-o quando afirmou:

– O bastão era o amuleto, e Eliel e eu o destruímos na esperança de que o alçapão se abrisse, mas foi inútil. Só o que conseguimos foi fazer o alçapão desaparecer. Agora, vocês estão isolados, e eu não tenho como retornar. Contudo, não percam a esperança, porque nunca desistiremos de vocês. Quer dizer mais alguma coisa, Tadeu? Eu posso ver o seu rosto no globo de cristal e posso ouvi-lo perfeitamente.

Ele respondeu:

– Também posso vê-la e ouvi-la nitidamente. Quando falei sobre o amuleto, não me referia ao bastão. A sua mãe está desesperada porque escondemos a chave de ouro que estava pendurada no pescoço da coruja do laboratório. Você sabe o quanto ela fala quando está zangada e, pelo que ela disse, aquela chave pode ser usada para abrir e fechar portais. Ela pensa que você a usou e a levou consigo.

Eliel interrompeu o diálogo entre Cibele e Tadeu para dizer:

– Aproxime a chave da bola de cristal para que possamos vê-la. A imagem…

Anabel, decepcionada com a interrupção da comunicação, enquanto puxava a chave que havia ficado colada na bola de cristal, ainda tentou restabelecer o contato, perguntando:

– Por que não responde, Eliel?! Não me deixe! Por favor, não me deixe aqui sozinha!

Procurando confortá-la, Tadeu disse:

– Não chore; você não está sozinha. Tem a mim, lembra-se? Enquanto tivermos um ao outro, não estaremos sozinhos.

Anabel, procurando controlar o desespero, perguntou:

– Como poderemos utilizar a chave para sair desta dimensão se ela ficou presa? Eu lhe disse que essa bola deveria estar com defeito, que não servia para nada!

Tadeu afirmou:

– A bola de cristal estava funcionando perfeitamente. Foi a proximidade da chave que provocou a interferência. Segure a bola bem firme enquanto eu puxo a chave.

Todas as tentativas de separar a bola da chave foram inúteis. Tadeu, por fim, disse:

– Eu não conseguirei esconder a chave se ela estiver colada a essa bola. Se quebrarmos a bola, a chave ficará ligada a um pedaço menor. Não há outro jeito.

Tadeu tencionava deixar a cela de Anabel em busca de um martelo quando ela, preparando-se para arremessar a bola contra a parede, disse:

– Não será preciso. Afaste-se e proteja os olhos.

Tentando impedi-la, Tadeu gritou:

– Não!…

Tarde demais! A bola desfez-se em pedaços. Preocupado com a chave, Tadeu não teve coragem de ir examinar o estrago. Deixando-se abater, ele sentou na cama de Anabel com os cotovelos sobre os joelhos e o rosto entre as mãos. Anabel, arrependida de seu gesto impulsivo, sentou-se ao lado dele e começou a alisar seus cabelos enquanto dizia:

– Não se aborreça. Veja: a chave está aqui e está intacta. Ela pulou no instante em que a bola bateu na parede. Pegue-a e torne a guardá-la em seu bolso.

Tadeu levantou-se, apanhou a chave, guardou-a no bolso interno que havia costurado na camisa e caminhou em direção à porta. Anabel, ressentida com o seu silêncio, perguntou:

– Está zangado?

Sem olhar para trás, ele respondeu:

– Não, Anabel, eu não estou.

Ela insistiu:

– Está sim. Do contrário, não teria me chamado de ”Anabel”.

Ele se virou e disse com frieza:

– Não é esse o seu nome? De que outra forma eu poderia chamá-la? Preciso subir para pegar uma vassoura.

Enquanto ele foi buscar a vassoura, Anabel, aborrecida, olhou na direção dos estilhaços, e um brilho que ela não havia notado chamou sua atenção. Levantou-se para ver o que era e surpreendeu-se ao fixar os olhos em uma pequena esfera dourada. Quando Tadeu entrou para recolher o que restara da bola de cristal, Anabel, ainda agachada, chamou-o para dizer:

– Veja isto: esta esfera estava presa dentro da bola. Só pode ter sido ela quem atraiu a chave. Empreste-me a chave para nos certificarmos de que há uma força de atração entre as duas.

Tadeu respondeu:

– Não! Se unirmos a chave à esfera, quem garante que conseguiremos soltá-las? Por precaução, é melhor você guardar a esfera. A chave continuará escondida no bolso interno da minha camisa. Agora procure dormir.

Anabel perguntou:

– A bruxa ainda está dormindo na cozinha?

Tadeu, empurrando os cacos para a pá com a vassoura, respondeu:

– Não. Ela já deve ter saído. Por que pergunta?

Anabel, massageando o estômago vazio, comentou:

– Eu estou com fome. Parece que não como há dias.

Tadeu sugeriu:

– Aproveite e suba para comer alguma coisa.

FIM DO CAPÍTULO XXIV
Sisi Marques

No próximo segmento, não perca os Capítulos XXV, XXVI e XXVII da 4ª Parte (Cibele) da história “Realidade Mágica” – livro 1.

Grata,
Sisi Marques

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Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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