REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE (Capítulos XVII e XVIII)

Capítulo XVII
Enquanto Crisélia, Eliel e eu nos preparávamos para enfrentar o dia seguinte; Anabel e Tadeu, cada um em sua cela, conversavam para que a noite se tornasse menos longa. Ele comentou:

– Já é tarde. É bem provável que Cibele não venha nos visitar.

Anabel disse:

– Se ela viesse, eu gostaria de pedir-lhe que me emprestasse o espelho para que eu pudesse ver Eliel novamente.

Tadeu ponderou:

– É melhor contentar-se com pouco; porque, do contrário, não terá mais nada.

Intrigada, Anabel perguntou:

– Por que diz isso?

Tadeu explicou:

– Toda vez que Cibele usa seus poderes, grande parte dessa energia é atraída para um amuleto que sua mãe esconde em seu laboratório. Sabemos de sua existência, mas não conseguimos localizá-lo e nem sabemos o formato que ele tem.

Desconfiada, Anabel perguntou:

– Se nunca o viram, como podem ter tanta certeza de que ele existe?

Tadeu afirmou:

– Eu já ouvi a mãe de Cibele comentar sobre ele com suas amigas. Ele tem que estar no laboratório. Pense bem: quanto mais próximo o amuleto estiver do local onde a magia é realizada, mais energia ele conseguirá reter. Como a mãe de Cibele insiste para que ela use seus poderes no laboratório, eu concluí que é lá que ele deve estar. Ouça, Anabel, há algo que eu observei ontem que você precisa saber: não foi apenas a magia de Cibele que fez o rosto de Eliel aparecer no espelho. Embora o espelho de Cibele tenha magia, ela não é tão forte assim e logo se esvai. Foi a magia de Eliel que deu sustentação à magia de Cibele e permitiu que ela se expandisse. Em outras palavras: a magia dele é muito poderosa e consegue extrair da magia de Cibele o que ela tem de melhor.

Receosa, Anabel não conseguiu evitar a pergunta:

– Acredita que eles poderiam se apaixonar?

Tadeu surpreendeu Anabel quando disse:

– Você interpretou mal as minhas palavras. Em nenhum momento, eu insinuei que eles pudessem se apaixonar. O que existe entre eles é outro tipo de atração. Cibele só teria a ganhar se abandonasse este lugar e confiasse o aprimoramento de sua magia a Eliel.

Anabel preparava-se para dizer algo, mas não o fez, porque Cibele apareceu subitamente. Com um estalar de dedos, as celas se abriram, e ela os conduziu à cozinha. Disse-lhes:

– Quando terminarem a refeição, iremos ao meu quarto para que possamos nos comunicar com Eliel. Preciso pedir a ele que me ajude a abrir o alçapão que conduz ao porão.

Tadeu sugeriu a Cibele:

– Você poderia pedir a ele que a ajudasse a localizar o amuleto.

Para a decepção de Tadeu, Cibele comentou:

– Eu já lhe disse que o amuleto é o bastão. Não existe nenhum outro. Isso é fruto de sua imaginação.

Tadeu insistiu:

– Eu ouvi a sua mãe comentando com as outras bruxas sobre ele.

Pacientemente, ela sugeriu:

– Discutiremos esse assunto em outra ocasião. Agora precisamos nos concentrar em abrir o alçapão.

Anabel sentiu-se à vontade para perguntar:

– Posso lhe mostrar algo que observei?

Cibele respondeu:

– Sim, mas seja breve, porque precisamos falar com Eliel.

Anabel comentou:

– Eu só queria lhe contar sobre a mudança que ocorreu no interior do bastão: a luz branca ficou mesclada de verde. Veja.

Dizendo isso, Anabel exibiu o bastão, e Cibele surpreendeu-se ao verificar o verde luminoso unindo-se à luz branca. Exclamou:

– Estranho! O que terá acontecido?!… Esse também é outro assunto que teremos que deixar para depois. Vamos logo para o meu quarto antes que minha mãe volte.

Os três se dirigiram ao quarto de Cibele e conseguiram, através da magia do espelho, entrar em contato com Eliel. Foi Anabel quem perguntou:

– Eliel, consegue me ouvir?

Felicíssimo, ele respondeu:

– Sim, Anabel, posso vê-la e ouvi-la claramente.

Ela comentou:

– Cibele precisa falar com você.

Anabel afastou-se e Cibele, aproximando-se do espelho, disse:

– Eliel, eu preciso que vá ao porão e concentre sua magia no alçapão sob o tapete. Eu pretendo ir ao quarto da minha mãe e utilizar a passagem que ela construiu até o porão. Juntos, talvez consigamos levantar o alçapão e estabelecer o contato entre as duas dimensões. Eu só receio que minha magia não seja forte o bastante para isso.

Eliel ensaiou um gracejo:

– Lá vem você novamente subestimando a sua energia. Precisa ter mais confiança em si mesma. Perdoe-me por ter exigido tanto de você esta tarde. Cheguei a me sentir culpado pela minha insistência.

Cibele respondeu:

– Não se culpe. Se não tivéssemos persistido, não teríamos descoberto o que realmente aconteceu. Eu estou indo. Aguarde-me no porão. Até breve.

Ao ver o rosto de Eliel desaparecer da face do espelho, Anabel comentou magoada:

– Você poderia ter deixado eu me despedir.

Cibele, aprontando-se para sair do quarto, exclamou:

– Não temos tempo para isso. Você terá que confiar em mim. Importa-se que eu leve o bastão? Ele servirá para iluminar o caminho.

Anabel entregou o bastão a Cibele e abraçou-a desejando-lhe sorte. Cibele, por sua vez, endereçando um olhar carinhoso a Tadeu, disse:

– Por favor, cuide de Anabel na minha ausência. Voltem às celas. Quando a minha mãe perguntar por mim, finjam que não sabem aonde eu fui.

FIM DO CAPÍTULO XVII
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE
Capítulo XVIII
Cibele, sorrateiramente, entrou no quarto de sua mãe, afastou o tapete com sua magia, abriu o alçapão e desceu a escada. Percorreu o imenso corredor e começou a subir a escada que conduzia ao porão, mas não conseguiu abrir o alçapão. Gritou:

– Eliel, está me ouvindo?

Ele respondeu:

– Sim. Consegue ver o alçapão?

Ela respondeu com a voz ofegante:

– Sim, mas não consigo abri-lo. Precisamos coordenar nossos esforços. Procure fortalecer a minha magia.

Após algumas tentativas frustradas, Eliel exclamou:

– Eu desisto! Dessa forma não dará certo!… Teremos que tentar de outro modo.

Eliel surpreendeu-se quando a ouviu dizer:

– Eu não consigo entrar no porão porque a casa toda está impregnada com a energia da minha mãe. Você me conduziria à sua casa abaixo da árvore?… Precisamos muito conversar.

Eliel disse:

– Feche os olhos e concentre-se… Lembre-se do rosto de Anabel e do meu rosto no espelho…

Cibele estava segurando o bastão e ficou confusa ao verificar que o empenho de Eliel em ajudá-la a deslocar-se para sua árvore intensificava a luz verde no interior do bastão. Numa fração de segundos, ela conseguiu compreender o que estava acontecendo e sorriu assustada. Após refazer-se da emoção, sugeriu:

– Vamos contar até três. Você fecha os olhos e me conduz mentalmente à sua árvore.

Num piscar de olhos, Eliel e Cibele estavam frente a frente na casa da árvore. Os dois sorriram ao exclamar quase ao mesmo tempo: “Conseguimos!”.

Encabulado, Eliel disse:

– É um prazer conhecê-la. Por favor, sente-se. Gostaria de uma xícara de chá?

Cibele, pouco à vontade, respondeu:

– Sim, por favor.

Enquanto Eliel servia o chá, Cibele disse:

– Além de Tadeu e Anabel, você é a única pessoa em quem confio. Olhe para este bastão e diga-me o que vê.

Eliel contemplou o bastão luminoso na mão de Cibele e disse sorrindo:

– Você me pegou!… O que esperava que eu respondesse?

Sem rodeios, ela afirmou:

– É a sua magia mesclada à minha.

Eliel, intrigado, contemplou o rosto de Cibele antes de perguntar:

– Como isso é possível?…

Ela respondeu sorrindo:

– Eu não sei… Ganhei este bastão quando criança… Ele parece armazenar parte da minha magia, e isso é conveniente, porque ela se torna fraca e insuficiente para atender aos propósitos da minha mãe. Ela e suas amigas se referem a ele como “o amuleto” e armaram uma cilada para Tadeu e Anabel com o intuito de roubá-lo. Quando a minha mãe fingiu libertá-los, não desejava apenas aterrorizá-los. Ela desejava apoderar-se do bastão com o auxílio de suas amigas. O que eu não compreendo é como ele começou a armazenar também a sua magia. Há uma ligação muito forte entre nós. Consegue senti-la?…

Fixando o olhar em seu rosto, Eliel afirmou:

– Sim. É algo que transcende o meu entendimento.

Com a voz vacilante, Cibele perguntou:

– Você teme essa sintonia?… Tem preconceito por eu ser uma bruxa?…

Eliel, encantado com a meiguice no olhar de Cibele, respondeu:

– Não. E quanto a você?… O fato de eu ser um elfo a incomoda?

Ela respondeu sorrindo:

– Não. Se não tememos um ao outro, talvez possamos abrir a passagem. Meu único receio é o impacto que a magia armazenada durante todos esses anos, e agora acrescida da sua, possa provocar.

Eliel, confuso, disse:

– Não entendi.

Cibele explicou:

– Se quebrássemos o bastão no assoalho do porão, a magia contida nele poderia ser mais do que suficiente para unir as duas dimensões. Está disposto a tentar?

Retirando o anel de Anabel de seu bolso, Eliel disse:

– Coloque este anel e gire-o enquanto se imagina dentro do porão.

Num piscar de olhos, Eliel e Cibele encontravam-se no porão. Cibele, com sua magia, ergueu o tapete antes de dizer:

– Segure o bastão e jogue-o bem no centro do alçapão.

Eliel comentou:

– Você mesma terá que fazer isso, porque não consigo vê-lo.

Cibele expressou sua hesitação quando disse:

– Eu não posso. Esperava que você o arremessasse porque a sua magia é mais poderosa do que a minha. Há um modo de eu lhe conceder a visão. Confia em mim?

Eliel respondeu afirmativamente. Cibele pediu-lhe que abaixasse um pouco e fechasse os olhos para que ela pudesse beijar suas pálpebras. Quando Eliel abriu os olhos, exclamou:

– Agora sim: entregue-me o bastão e afaste-se.

Eliel atirou o bastão no centro do alçapão e afastou-se em seguida para abraçar Cibele com a intenção de protegê-la. Uma explosão de luz em tonalidades alternadas de branco e verde os envolveu e, para a decepção de ambos, o alçapão desapareceu. Ela murmurou:

– O que faremos agora? Como poderemos resgatar Tadeu e Anabel?

Eliel não respondeu. Cibele, contemplando a tristeza em seu rosto, acrescentou:

– Vá para a árvore e descanse. Eu ficarei aqui. Quando amanhecer, conversaremos. A claridade do dia há de desanuviar as nossas mentes e mostrar-nos a solução.

Calado, Eliel beijou-lhe o rosto, girou o anel e retornou ao seu refúgio.

FIM DO CAPÍTULO XVIII
Sisi Marques

No próximo segmento, não perca os Capítulos XIX, XX e XXI da 4ª Parte (Cibele) da história “Realidade Mágica” – livro 1.

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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