REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE (Capítulos XIII e XIV)

Capítulo XIII
Precisamos voltar um pouquinho no tempo. Depois que saí da delegacia, fui à sapataria e ouvi uma história semelhante à que o guarda me contara, enriquecida apenas de alguns detalhes e temperada com gotas de uma imaginação cativante. Saindo da sapataria, fui direto para casa. Eliel estava lá, conversando com Crisélia, e eu disse a ambos:

– Nós deixamos passar alguma coisa. Precisamos vasculhar o porão. Foi lá que o garoto desapareceu.

Entre confusa e preocupada, Crisélia perguntou:

– Que garoto?!

Expliquei:

– Há mais de dez anos, um garoto desapareceu enquanto brincava no porão daquela casa. Localizando Anabel, talvez possamos trazê-lo de volta.

Desencostamos os móveis para verificar se atrás deles havia alguma passagem secreta. Depois, por precaução, puxamos até um criado-mudo, e foi atrás dele que Crisélia encontrou o anel de Anabel. Entregando-o a Eliel, ela comentou:

– Sem o anel, ela não conseguirá voltar. O que faremos agora?

A pergunta de Crisélia ficou sem resposta. Eliel guardou o anel no bolso da camisa e sentou-se no chão ao lado do pequeno móvel que o escondera. Foi nesse momento que ele teve uma ideia. Na parede oposta, havia um espelho. Ele levantou, retirou o espelho da parede e afirmou:

– Ele presenciou tudo. Posso fazê-lo contar-nos o que viu. Continuem procurando. Se encontrarem qualquer coisa, eu estarei na árvore.

Surpreso, perguntei a Crisélia:

– Ele pretende colocar um encantamento no espelho?!…

Enquanto Crisélia, através da magia, levantava um grande e pesado tapete para verificar se havia algo debaixo dele, ela respondeu:

– Vale a pena tentar.

Eu não consegui evitar a pergunta:

– Mas, se o seu espelho mágico não conseguiu revelar o paradeiro de Anabel, como aquele outro espelho poderia ser útil?

Crisélia explicou pacientemente:

– O meu espelho mostra o presente, e a sua magia não conseguiu penetrar o lugar onde Anabel se encontra. Não há dúvida de que há outro tipo de magia envolvido. O espelho que estava aqui é neutro. Se Eliel conseguir prepará-lo adequadamente, ele poderá revelar as cenas que foram refletidas em sua face no momento em que Anabel desapareceu. O espelho assemelhar-se-á a uma tela de televisão, e o passado desenrolar-se-á diante dos nossos olhos como se estivéssemos assistindo a um filme. Eu estou cansada. É melhor irmos para casa, porque não há mais nada que possamos fazer aqui. Você me ajuda a preparar o jantar?

FIM DO CAPÍTULO XIII
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE
Capítulo XIV
Enquanto Crisélia e eu preparávamos a refeição; Anabel e Tadeu caminhavam pela floresta. Anabel, ofegante, sentou recostando-se ao tronco de uma árvore. Exclamou:

– Estou exausta, faminta e não consigo dar mais um passo! Por favor, Tadeu, precisamos parar e descansar um pouco.

Ele aconselhou:

– É melhor continuarmos. Precisamos nos abrigar antes que anoiteça. Há muitos perigos nesta floresta. Eu não compreendo!… Contemplei tantas vezes a saída!… Por que não conseguimos encontrá-la?!… Só o que fizemos foi andar em círculos. Talvez seja melhor voltarmos. Embora o castelo não seja o lugar ideal, neste momento parece o mais seguro. À noite, quando a mãe de Cibele e suas amigas não estão jogando cartas ou trocando receitas de poções, elas ficam perambulando pela floresta. Elas costumam se reunir para comer, beber e gabar-se de suas maldades. A mãe de Cibele tinha a certeza de que não encontraríamos a saída… Onde você acha que a reunião das bruxas será realizada esta noite?

Anabel assustou-se terrivelmente quando Cibele apareceu dizendo:

– Tadeu está certo. Depois que vocês partiram, eu fui ao meu quarto e fiquei me perguntando por que a minha mãe os libertaria tão facilmente. Hoje é ela a escolhida para proporcionar a diversão. Ela já ofereceu o almoço, o jogo de cartas acompanhado do lanche… Agora só falta algum passatempo noturno. Tanto a minha mãe quanto suas amigas adoram assustar e pregar peças. Esta floresta é território delas. Aqui vocês não têm para onde escapar, nem onde se esconder. Precisamos voltar: segurem as minhas mãos e fechem os olhos.

Tadeu e Anabel obedeceram e, quando tornaram a abrir os olhos, surpreenderam-se ao verificar que estavam no quarto de Cibele. Ela confidenciou:

– Enquanto vocês se ausentaram, eu fiz uma descoberta maravilhosa. A minha mãe sempre se queixou de que a minha magia era fraca e ineficaz para energizar suas poções. A minha vida toda eu a ouvi reclamar e estabelecer comparações com as filhas das outras bruxas. Isso fez com que eu menosprezasse a minha magia e começasse mesmo a acreditar que eu a perderia se a usasse para o bem. Mas hoje aconteceu algo extraordinário que desmentiu o que a minha mãe me disse durante todos esses anos.

Cibele parou por alguns instantes, e Tadeu insistiu para que ela continuasse:

– Por favor, Cibele, prossiga. Eu nunca a vi tão entusiasmada!… Se não fosse algo importante, você não teria desafiado sua mãe duas vezes: retirando-nos da floresta e trazendo-nos para o seu quarto. O que houve?

Ela prosseguiu:

– Explicarei exatamente como tudo aconteceu. No momento em que minha mãe fingiu consentir que partissem, ela deixou escapar que Anabel era esposa de um elfo. Então pensei: “Se Anabel ama tanto o elfo, é porque ela o aceita como ele é. Eu também, nessa outra dimensão, poderia ser aceita pelo que sou.” A minha mãe sempre disse que seres mágicos como nós não poderiam viver fora desta dimensão; e eu compreendi que ela mentiu esse tempo todo apenas para evitar que eu desejasse explorar o “mundo lá fora”.

Anabel viu-se obrigada a dizer:

– O “mundo lá fora”, como você chama a dimensão de onde eu venho, não pode suspeitar que seres como Eliel e você existam. Imagine que você concordasse em partir conosco. Você poderia até se casar com Tadeu, mas jamais poderia revelar aos pais dele e às outras pessoas que você é uma bruxa.

Após endereçar um olhar de desesperança a Tadeu, Cibele exclamou:

– Então o “mundo lá fora” é mesmo hostil!

Depois procurando recobrar o entusiasmo, ela disse a Anabel:

– Pensando em você e em Eliel, eu energizei o meu espelho e consegui vê-lo em sua casa subterrânea!

Anabel, não cabendo em si de felicidade, perguntou com a voz entrecortada:

– Onde está o seu espelho? Eu também posso ver Eliel?

Cibele entregou o espelho à Anabel e disse satisfeita:

– Só você poderá responder a essa pergunta. Consegue vê-lo ou a visão do espelho se fecha para você?

Anabel, literalmente, pulou de alegria ao contemplar o rosto de Eliel. Suspirou ao exclamar:

– Se ele pudesse me ouvir!

Anabel ficou ainda mais extasiada quando ouviu Eliel dizer:

– Meu amor, eu consigo ouvi-la! Embora eu não consiga ver o seu rosto neste espelho, eu consigo ouvi-la! Onde você está? O que está acontecendo? Que magia é essa que permitiu que entrássemos em contato?

Anabel, Cibele e Tadeu entreolharam-se felicíssimos. Anabel respondeu a Eliel:

– Foi a magia do espelho de Cibele que nos proporcionou este momento inesquecível!

Entre feliz e preocupado, ele perguntou:

– Quem é Cibele?! Onde você está?! Estamos todos desesperados com a sua ausência.

Em vez de responder, ela perguntou:

– Por que está segurando esse espelho? Não é o espelho do porão? Por que você o levou para a nossa árvore?

Eliel respondeu:

– Eu esperava que ele revelasse o que aconteceu durante o seu desaparecimento; mas, por mais que eu me esforce, não consigo fazer a magia funcionar. Ele se fecha para mim como se estivesse coberto por algum tipo de feitiço. Aliás, aquele casarão deve estar todo impregnado com essa energia nefasta. Felizardo descobriu que um garoto também desapareceu daquele porão do mesmo modo que você.

Anabel, olhando para Tadeu, revelou:

– Ele está aqui ao meu lado. Seu nome é Tadeu, e ele não é mais um garoto. Agora ele está com vinte e sete anos e é parecidíssimo com você.

Anabel não pôde continuar conversando com Eliel, porque precisou esconder o espelho atrás de si para que a mãe de Cibele não o encontrasse. A megera já estava dentro do quarto quando disse a Cibele:

– Você é mesmo incorrigível! Quantas vezes terei que lhe dizer que não deve permitir a entrada de criados em seu quarto? Eles só têm permissão de entrar aqui para realizar a limpeza e nada mais. O que estavam fazendo?… Sinto cheiro de magia. Por que insiste em desperdiçar o pouco de magia que possui com esses dois vermes insignificantes?

Depois, endereçando um olhar petrificante a Tadeu, a bruxa afirmou:

– E você teve sorte dessa vez! Se não fosse a detestável intromissão de Cibele, você e a sua amiguinha, neste momento, estariam na floresta correndo esbaforidos para fugir às nossas garras. Da próxima vez que Cibele estragar a diversão, será ela quem tomará o lugar de vocês. Agora saiam enquanto estou de bom humor e entrem em suas celas!

Antes de deixar o quarto de Cibele, Anabel, desviando-se do olhar da bruxa, colocou o espelho em cima da cômoda com a face voltada para baixo.

FIM DO CAPÍTULO XIV
Sisi Marques

No próximo segmento, não perca os Capítulos XV e XVI da 4ª Parte (Cibele) da história “Realidade Mágica” – livro 1.

Grata,
Sisi Marques

About Gilberto Marques

Gosto muito dos textos que minha esposa escreve e, por esse motivo, decidi criar este blog para poder compartilhá-los com você, querido(a) leitor(a).
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