REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE (Capítulos X, XI e XII)

Capítulo X
Enquanto Anabel procurava conformar-se temporariamente com a situação para conseguir conciliar o sono; Crisélia e eu, na casa de Eliel, ainda tentávamos ajudá-lo a amenizar seu sofrimento. Foi Crisélia quem sugeriu:

– Vá para a árvore e procure descansar. Anabel ingeriu a água da Fonte da Juventude; que mal poderia acontecer a ela?

Eliel permanecia calado. Infelizmente eu não consegui evitar o comentário:

– Deve haver algo errado com esta casa. Eu deveria ter desconfiado quando a adquiri tão facilmente e bem abaixo do preço.

Eliel endereçou-me um olhar tão cortante que eu pensei que fosse desfalecer. Com a voz carregada de amargura, ele exclamou:

– Você sabia o tempo todo e não disse nada!

Crisélia aconselhou:

– Acalme-se, Eliel; estamos aqui para ajudar.

Ele disse pesaroso:

– Eu só gostaria que ele me explicasse por que comprou esta maldita casa se suspeitou que houvesse algo errado com ela.

Preferi calar-me, porque nada que eu dissesse poderia inocentar-me. Ele estava certo: eu realmente deveria ter investigado antes de fechar o negócio. A culpa e o remorso apoderaram-se de mim, e eu senti o estômago enjoado e a cabeça rodando. Levantei e corri para vomitar no banheiro. Eu me sentia péssimo e comecei a chorar.

Crisélia, preocupada com a minha demora, bateu à porta perguntando se eu estava bem. Não, eu não estava. Sentado no chão do banheiro, eu permitia que as lágrimas escorressem pelo meu rosto em abundância. Eu nunca me sentira tão mal em toda a minha vida. Preocupada com o meu silêncio, Crisélia disse:

– Por favor, saia. Se você não sair, nós entraremos.

Levantei, me recompus e girei o anel desejando estar no escritório de Anabel. Num piscar de olhos, lá estava eu em frente à mesa com o olhar perdido no material que ela retirara da biblioteca. Com o coração pesado, juntei tudo, girei o anel e fui para casa. Entrei no escritório, tranquei a porta e, num ato insano, dei continuidade ao trabalho de Anabel. Quando amanheceu, eu o havia terminado. Tomei banho e desci. Eu já estava saindo quando ouvi Crisélia perguntar:

– Não vai tomar café? Eu já arrumei a mesa.

Voltei alguns passos para dizer:

– Estou sem fome. Por favor, não se preocupe comigo; eu estou bem. Obrigado por ter respeitado o meu desejo de ficar sozinho no escritório. Como está Eliel? Ele tem todo o direito de estar zangado. Peço a vocês dois que me perdoem. Eu não sei como pude ser tão negligente.

Crisélia sugeriu:

– Vá à cozinha e alimente-se um pouco. Não conseguiremos ajudar Anabel se não nos disciplinarmos e não planejarmos nossas ações. Você está desorientado e abatido. Eliel também está arrasado. Por que não o procura para fazerem as pazes?

Envergonhado, balbuciei:

– Não tenho coragem de olhar para ele. Eu sou o único responsável por essa tragédia: a minha imprudência foi a causa de tudo.

FIM DO CAPÍTULO X
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE
Capítulo XI
Saí e fui à delegacia. Entrei e um guarda de plantão atendeu-me. Acabei dizendo:

– Perdoe-me por incomodá-lo em pleno domingo. Como eu estava passando aqui por perto, pensei em conseguir uma boa história para o sábado. Eu sou um contador de histórias e realizo apresentações na biblioteca. Você está convidado a ir. Conhece algum caso estranho que tenha ocorrido pelas redondezas?

O guarda não foi muito gentil quando respondeu:

– Todas as ocorrências que são registradas nesta delegacia são confidenciais. Lamento não poder ajudá-lo. Tenha um bom dia.

Calei-me. Olhei para ele e a decepção deve ter ficado estampada em meu rosto, porque quando virei as costas, ele sugeriu atenciosamente:

– Se conseguir essas histórias é tão importante para você, pare na sapataria. Ela está aberta inclusive hoje. O sapateiro adora contar histórias; talvez, ele possa ajudá-lo.

Eu disse:

– Não sabe o quanto estou agradecido. De repente, fiquei faminto. Pretendo passar na padaria antes de falar com o sapateiro; gostaria que eu lhe trouxesse algo?

Ele hesitou um pouco antes de comentar:

– Eles fazem rosquinhas de leite deliciosas, e o café de lá também é muito bom.

Sorri e afastei-me. Fui à padaria, tomei um chocolate quente e comi algumas rosquinhas. O guarda não mentiu quando disse que eram deliciosas. Depois pedi um pacote daquelas rosquinhas e um café para viagem. Ao voltar à delegacia, enquanto eu lhe entregava as rosquinhas e o café, surpreendi-me ao ouvi-lo dizer:

– Eu trabalho nesta delegacia há muitos anos e, na sua ausência, acabei me lembrando de uma história bastante estranha. No momento, eu não me recordo o nome da rua, mas ela fica aqui perto. Bem, como eu ia dizendo, nessa rua havia um casarão que estava abandonado há muito tempo, e uma família mudou-se para lá. Certo dia, o pai estava trabalhando, a mãe estava dando banho na filha, e o garoto de doze anos estava brincando no porão. Quando a mãe terminou de vestir a garotinha, desceu ao porão para chamar o filho e nunca mais o encontrou. As portas estavam trancadas, e não havia nenhum sinal de arrombamento. O menino desapareceu.

Fingindo desinteresse, comentei:

– Como você sugeriu, farei uma visita ao sapateiro. De qualquer forma, muito obrigado.

Ele agradeceu o café e as rosquinhas, e eu fui à sapataria ouvir a versão do sapateiro.

FIM DO CAPÍTULO XI
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE
Capítulo XII
Enquanto eu procurava descobrir algo sobre o misterioso casarão; Anabel limpava a cozinha do castelo. A bruxa dizia:

– Vamos logo com isso, porque hoje teremos visitas para o almoço, e a refeição deverá estar perfeita. Você já deveria ter começado a cozinhar. Até parece que nunca realizou esse serviço na vida! Que espécie de dona de casa é você? Responda-me: você viu minha filha?

Anabel balançou a cabeça para os lados, e a bruxa resmungou:

– O que há com você? O gato comeu sua língua? De qualquer modo, é melhor assim, porque odeio criados tagarelas! E, por falar em criados, onde está aquele imprestável do Tadeu?… Tadeu!… Tadeu!…

A bruxa saiu e continuou gritando o nome do jovem. Nesse momento, Cibele entrou na cozinha para dizer a Anabel:

– Tadeu contou-me que o bastão está em seu poder. Quando a minha mãe não estiver olhando, agite-o e ordene que ele facilite o seu trabalho. Ficará surpresa com os resultados.

Anabel não teve tempo de agradecer, porque a bruxa voltou à cozinha e começou a reclamar:

– Aí está você, Cibele! Por que não está energizando as minhas poções?! Cuidado para não arruiná-las porque, da última vez, tive que jogar tudo fora. Também, em vez de você se concentrar para fortalecer a sua magia, você a desperdiça ajudando aquele imprestável a realizar suas tarefas. Pensa que eu não sei a respeito do bastão? No dia em que eu conseguir pegá-lo, aquele seu protegido levará uma boa surra com ele. E, por favor, faça hoje a refeição em seu quarto; não posso permitir que me envergonhe na frente de minhas amigas. Todas elas têm coisas interessantíssimas para contar de suas filhas, menos eu. Agora vá, porque não tenho tempo a perder.

A agitação da mãe de Cibele ainda levou algumas horas para cessar. Quando as outras bruxas chegaram, ela enxotou Tadeu e Anabel do castelo:

– Para fora, vocês dois. Não permitirei que estraguem a nossa diversão.

Tadeu e Anabel sentiram-se aliviados com o inesperado descanso. Tadeu exclamou:

– Que sorte! Parece um sonho podermos descansar uma tarde inteirinha!

Cibele apareceu do nada para dizer:

– Não fique tão feliz, porque a minha mãe está tramando algo. Eu menti para você durante todos esses anos: eu conheço a passagem e posso lhes mostrar o caminho. Leve Anabel para longe deste pesadelo.

Tadeu, para surpresa de Cibele, confidenciou:

– Não precisa nos mostrar, porque eu também conheço o caminho. Eu o descobri há alguns anos. Eu lhe imploro: não me obrigue a partir sem você.

Anabel ouvia atentamente o que os dois conversavam. Com os olhos úmidos, Cibele disse:

– Você precisa tirá-la daqui. Eu também sentirei sua falta.

Cibele calou-se porque sua mãe surgiu de repente. A bruxa exclamou:

– Ora, ora, que belas palavras! Não ouviram o que Cibele disse?!… Podem ir.

Tadeu endereçou um olhar significativo a Cibele, e ela fez um sinal assertivo com a cabeça. Ele segurou a mão de Anabel, e os dois começaram a correr em direção à passagem. A mãe de Cibele repreendeu-a:

– É assim que retribui os meus esforços e a minha dedicação? Eu trouxe a mulherzinha do elfo para cá com o propósito de provocar ciúme em você. E o que você fez?… Em vez de sentir ódio dela, você pediu ao seu protegido para acompanhá-la. Você é mesmo um caso perdido!

Cibele segurou as lágrimas para não enfurecer sua mãe ainda mais. Ela correu para o castelo e trancou-se no quarto.

FIM DO CAPÍTULO XII
Sisi Marques

No próximo segmento, não perca os Capítulos XIII e XIV da 4ª Parte (Cibele) da história “Realidade Mágica” – livro 1.

Grata,
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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