REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE (Capítulos VIII e IX)

Capítulo VIII
Cerca de uma hora depois, o riso de Crisélia transformara-se em pranto. Estávamos na casa de Eliel e já havíamos esgotado todas as possibilidades. Eliel estava transtornado, e Crisélia não parava de se responsabilizar:

– Você sugeriu que eu fosse verificar se os dois estavam juntos, e eu não lhe dei ouvidos! Se eu tivesse escutado você, poderíamos ter agido antes.

Para tranquilizá-la, eu disse:

– Não teríamos feito mais do que pudemos fazer agora. Ela simplesmente desapareceu. É melhor comunicarmos à polícia.

Crisélia comentou:

– Não podemos. Não há como explicar o desaparecimento de Anabel sem mencionar o anel.

Sugeri:

– Use o espelho. Talvez ele nos diga onde ela está.

Ela exclamou desanimada:

– É inútil! Eu já tentei, mas não consegui vê-la.

Enquanto Crisélia e eu conversávamos sem parar, tentando afastar o nervosismo e o desespero; Eliel permanecia calado, perdido em pensamentos e lembranças.

FIM DO CAPÍTULO VIII
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE
Capítulo IX
Perdida em pensamentos e lembranças também estava Anabel, trancada naquela cela úmida e escura. A pobrezinha chorava quando ouviu alguém dizer:

– Por favor, não chore. Quando Cibele chegar, tudo ficará bem.

Anabel levantou-se do chão frio e caminhou para espiar através da grade da pequena abertura que havia na porta. Ela perguntou:

– Quem é Cibele?

O jovem, que estava preso na cela oposta, respondeu:

– Cibele é a filha da bruxa. Qual é o seu nome?

Ela respondeu:

– Anabel. E o seu?

Ele não respondeu, porque uma voz roubou-lhe a atenção:

– Perdoe-me o atraso, Tadeu. Hoje a minha mãe demorou a sair.

Era Cibele. Ela estalou os dedos, e a porta da cela se abriu. Depois de agradecer-lhe, ele comentou:

– Temos companhia.

Como Tadeu mantinha o dedo indicador apontado para a cela de Anabel, Cibele aproximou-se da porta para perguntar:

– Quem é você?

Anabel respondeu:

– O meu nome é Anabel. Por favor, abra esta porta.

Anabel surpreendeu-se ao ouvir Cibele dizer:

– Eu abrirei se você prometer não gritar e não fugir.

Ela concordou:

– Eu prometo.

Cibele, empurrando levemente a porta para dentro, disse:

– Já está aberta; pode sair.

A única claridade que havia era fornecida pela chama da vela que Cibele carregava. Tadeu segurou a mão de Anabel para conduzi-la através do longo corredor. Ele avisou:

– Cuidado com a escada, porque os degraus são muito irregulares.

Quando eles atravessaram a porta que havia no final da escada, Tadeu soltou a mão de Anabel e disse:

– Agora você poderá andar com segurança: não há mais perigo de cair ou tropeçar.

Ela perguntou:

– Onde estou? Por que aquela bruxa me trouxe a este lugar?

Cibele explicou pacientemente:

– Você está em um antigo castelo construído em uma dimensão paralela à sua. Deve estar faminta. Colocarei mais um prato à mesa.

Anabel perguntou:

– Por que você não acende mais velas para que possamos enxergar melhor?

Cibele respondeu:

– Não posso. Quando a minha mãe sai, ela leva consigo um espelho que lhe mostra o castelo. Ela sempre mantém um olho nas cartas e o outro no espelho. Se ela perceber alguma luz acesa, virá direto para cá. Tadeu sabe o que acontece quando ela se zanga. Coma antes que esfrie.

Anabel murmurou desanimada:

– Não tenho fome. Eu só quero voltar para Eliel.

Cibele disse:

– Sua vida, neste castelo, não será fácil: você trabalhará o dia todo e, à noite, se tiver sorte, o máximo que poderei proporcionar-lhe é um momento de paz como este.

Anabel começou a chorar e Tadeu, para confortá-la, comentou:

– Não se desespere. Se eu descobrir um modo de sair daqui, levarei você comigo. Agora é melhor voltarmos para as celas antes que a mãe de Cibele retorne.

Quando Tadeu e Anabel se afastaram, Cibele continuou sentada à mesa pensando… Por que sua mãe resolvera levar Anabel para aquela dimensão?… O que estaria tramando?… O motivo só poderia ser um: afastá-la de Tadeu. Ela se perguntava que sentimento novo seria aquele que espetava seu coração e machucava tanto.

Enquanto Cibele se debatia em seu ciúme; os dois já estavam cada um em sua cela. Tadeu, segurando na grade da pequena abertura, disse:

– Não se preocupe se amanhã a mãe de Cibele fizer você trabalhar. O trabalho parecerá árduo, mas Cibele sempre consegue atenuá-lo com sua magia.

Aproximando o rosto da grade, Anabel perguntou com a voz entrecortada pelo choro:

– Há quanto tempo você está preso neste castelo?

Ele respondeu:

– Eu não sei dizer. Eu tinha doze anos quando a mãe de Cibele tirou-me dos meus pais e afastou-me da minha irmã. Eu me lembro como se fosse hoje: eu estava brincando no porão quando uma mulher desconhecida apareceu do nada e perguntou-me se eu queria brincar na floresta com sua filhinha. Ela conseguiu atrair-me. Conheci Cibele, e ela se parecia com a minha irmã de cinco anos: tão pequenina e tão bela! Brincamos a tarde toda. Ela parecia feliz e fazia muitas perguntas sobre “o mundo lá fora”. Quando anoiteceu, eu disse à mulher que desejava voltar para casa. Ela zombou de mim e começou a gargalhar de uma forma tão terrível que eu tremia dos pés à cabeça. Chorei, e Cibele segurou a minha mão e chorou também. A mulher ralhou com ela; ficou tão furiosa de ver aquelas lágrimas vertendo de seus olhos que a trancafiou na cela em que você está agora, dizendo: “Se está chorando de pena dele, faça-lhe companhia.” Ela estava ainda mais assustada do que você, porque era apenas uma criança. Ela chorou a noite inteirinha e, desde então, para evitar ser punida, começou a ajudar-me às escondidas.

Anabel murmurou:

– Eu não deveria ter ficado sozinha naquela casa. Deveria ter ido com Eliel para a árvore. Ele deve estar desesperado. Por favor, ajude-me a voltar para casa.

Ele comentou:

– Eu procurei a saída por algum tempo, mas depois acabei desistindo porque me apaixonei por Cibele. Vocês duas devem ter aproximadamente a mesma idade… Consegue imaginar quão solitária ela se sentiria se eu fugisse e a abandonasse aqui?

Anabel, ouvindo sua intuição, aventurou-se a dizer:

– Você mentiu quando disse que me ajudaria a fugir se encontrasse a saída. Você já a encontrou. Não foi a bruxa e sim o seu amor por Cibele que o manteve prisioneiro. Por favor, conduza-me para fora deste lugar!

Ele respondeu tristemente:

– Eu não posso ajudá-la a fugir daqui. Se utilizarmos a passagem, receio que ela se feche e eu não consiga nunca mais voltar.

Anabel exclamou:

– Filha de bruxa, bruxinha é! Não há a menor esperança de seu amor florescer. Como pôde sujeitar-se a viver em condições tão precárias?! Se ela também o amasse, já o teria libertado, ou talvez já teria até mesmo concordado em fugir com você. E quanto aos seus pais e à sua irmã? Nunca pensou neles? Não sente saudades?

Tadeu ordenou rispidamente:

– Pare de me torturar! É evidente que sinto saudades de minha família. No entanto, eles são apenas fantasmas de uma dimensão que só existe no passado. Já faz tanto tempo! Para eles, não passo de um fantasma também, porque provavelmente pensam que morri e até já se conformaram com a minha morte. Quanto a Cibele, ela não desafia a mãe porque receia ser punida.

Anabel rebateu:

– Ela poderia sentir medo quando tinha cinco anos, mas agora ela já é uma mulher e pareceu-me fria e segura. Deve ser tão cruel e insensível quanto a mãe! A diferença é que a mãe dela não esconde a megera que é, enquanto que Cibele se faz de boazinha apenas para manipular e seduzir.

Impacientando-se, Tadeu esbofeteou Anabel com as palavras:

– Cibele pode ser filha de uma bruxa, mas é você quem abriga a maldade em seu coração! Como se atreve a julgá-la sem conhecê-la?! Eu estou aqui há quinze anos e…

Tadeu interrompeu a frase porque se sentiu apanhado na teia lançada por sua mentira. Foi a vez de Anabel comentar com a voz mesclada de ironia:

– Pensei que não soubesse há quanto tempo está aqui. Quinze anos! E, durante todos esses anos, Cibele não se compadeceu de você, não o ajudou a fugir. Ela é cruel e egoísta! Mas eu não ficarei aqui! Não permitirei que ela me enfeitice com sua pretensa bondade e me afaste de Eliel. E mesmo que aquelas duas bruxas me enfeitiçassem, o rosto de Eliel, elas não conseguiriam me fazer esquecer, porque você é muito parecido com ele. Bastaria eu olhar para o seu rosto, para lembrar-me do rosto que tanto amo!

Tadeu calou-se ao compreender que Anabel não era má; só estava desiludida e cansada. Ele precisava protegê-la.

Anabel, incomodada pelo seu silêncio, desculpou-se:

– Perdoe-me. Não tive a intenção de magoá-lo. Se deseja acreditar que ela o ama, prometo não dizer mais nada em contrário. Eu também desejo acreditar que um dia conseguirei sair daqui e voltar para os braços de Eliel. Como fui tola! Eu queria trabalhar e não lhe dava atenção. Eu tenho a certeza de que ele só se retirou para a árvore porque não queria recomeçar a discussão de sempre.

Tadeu aproveitou-se da pausa de Anabel para aconselhar:

– Procure dormir; amanhã será um longo dia.

Anabel perguntou receosa:

– Há ratos aqui? Está tão escuro que eu não consigo ver nada! Eu tenho pavor de ratos!

Ele respondeu ternamente:

– Sossegue! A magia de Cibele protege este lugar e o mantém higienizado. Afaste-se da grade para que eu possa jogar um objeto que ela me entregou quando eu ainda era criança e tinha medo de ficar aqui sozinho.

Anabel afastou-se e ouviu um ruído no chão de sua cela. Ela perguntou enquanto agachava e tateava o chão para encontrá-lo:

– O que é?

Ele respondeu:

– É um bastão que poderá fornecer luz ou qualquer outra coisa que você desejar.

Anabel segurou o estranho objeto e utilizou-o para fazer um reconhecimento do espaço no interior da cela. Exclamou surpresa:

– Que estranho! Há uma cama aqui e parece limpa e aconchegante. Ela não estava aqui quando cheguei; se estivesse, eu a teria visto.

Ele comentou satisfeito:

– É a magia de Cibele amenizando o seu sofrimento. Conserve o bastão, e tudo ficará bem. Mas seja discreta e não permita que a mãe de Cibele o encontre.

Anabel agradeceu e ameaçou um gracejo:

– O bastão poderia trazer-me um copo de leite quente.

Ela conseguiu esquecer a tristeza por alguns segundos quando viu aparecer uma mesinha e sobre ela um copo com leite. Exclamou:

– E não é que ele trouxe mesmo o meu leite!

Tadeu aconselhou:

– Use o bastão, mas não abuse da magia para não enfraquecer Cibele. A mãe dela costuma esgotar o seu poder diariamente quando pede para ela energizar suas poções. Descanse e sonhe com Eliel.

FIM DO CAPÍTULO IX
Sisi Marques

Não perca os Capítulos X, XI e XII da 4ª Parte (Cibele) da história “Realidade Mágica” –
livro 1, na próxima 5ª feira, dia 18/07/13.

Até breve.
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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