REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE (Capítulos I, II e III)

Capítulo I
Meu nome é Felizardo, e sou um contador de histórias. Antes de conhecer Eliel e Crisélia, essa frase teria sido suficiente para definir quem eu era. Atualmente definir quem eu sou deixou de ser tão simples, especialmente depois que ingeri a água da Fonte da Juventude e tornei-me imortal.

Lembro-me, como se fosse hoje, da emoção que senti ao beber o precioso líquido. Eu mal acreditava que o meu sonho de poder viver ao lado de Crisélia para sempre havia se tornado realidade. Crisélia, Eliel e Anabel também estavam radiantes. A partir daquele momento, a minha vida ganhara uma perspectiva mais ampla, mais abrangente, e eu me sentia imensamente feliz. Mesmo depois de alguns dias, eu ainda parecia estar flutuando sobre as nuvens. Tudo o que eu fazia refletia a paz que tranquilizara o meu coração. Até as histórias que eu contava na biblioteca tornavam-se cada vez mais atraentes, mais coloridas.

Após uma dessas sessões, Anabel comentou certa vez:

– Você esteve ótimo! Hoje você se superou!

Agradeci:

– Obrigado por suas palavras de incentivo. Você também tem sido muito gentil e prestativa ajudando-me a colocar em ordem toda aquela papelada na sala de Sílvia.

Com a intenção de fazer um gracejo, ela comentou:

– Na sala de Derlo, você quis dizer. Como aquele gênio pôde se passar por secretária sem que nem mesmo o seu próprio irmão o reconhecesse? Felizmente já são águas passadas, e ele está bem preso na ânfora de Aldo.

Agora foi a minha vez de corrigi-la:

– Na ânfora de Afrânio, você quis dizer.

Ela sorriu antes de perguntar:

– Iremos à confeitaria ou você prefere tomar café aqui mesmo?

Respondi:

– O que você decidir, eu aceito.

Anabel surpreendeu-me quando disse:

– Prefiro continuar aqui para ganharmos tempo… Preciso que me ajude a preencher aquela ficha de solicitação de emprego. Já faz quase um mês que o cargo está vago, e logo aparecerá alguém qualificado para preenchê-lo. Eu estava presente quando o diretor agradeceu-lhe por estar realizando o trabalho temporariamente e pediu-lhe que colocasse o anúncio no jornal e entrevistasse os candidatos à vaga.

Curioso, perguntei:

– Contou a Eliel que pretendia trabalhar aqui?

Desviando o olhar, Anabel respondeu:

– Não, porque receei que ele não fosse concordar. Por favor, ajude-me a conseguir a vaga. É verdade que não tenho experiência nenhuma, mas você mesmo elogiou-me. Disse que eu era inteligente e aprendia depressa. Por favor!…

Ela fez uma carinha tão linda que eu não consegui dizer não. Tomamos o café, e eu a ajudei a preencher a ficha.

FIM DO CAPÍTULO I
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE
Capítulo II
Enquanto estávamos na biblioteca; Eliel, em sua árvore, dizia a Crisélia:

– Obrigado por ter vindo. Eu tenho um assunto muito delicado para tratar com você. Responda-me: notou alguma diferença em Felizardo?

Demonstrando interesse, Crisélia respondeu:

– Não. Por que perguntou? Ele disse algo que eu deveria saber?

Eliel confidenciou:

– Há dias que não o vejo. Quem me preocupa é Anabel. Eu não consigo compreender por que ela insiste em ir à biblioteca todos os dias para ajudá-lo. Eu já pensei em acompanhá-la, ou até mesmo aparecer lá na hora do almoço para evitar que os dois almoçassem sozinhos, mas não tive coragem. Eu não quero magoá-la com o meu ciúme.

Entristecida, Crisélia disse:

– Mas magoou a mim com a sua desconfiança. É do homem que eu amo que você está falando.

Ele exclamou ternamente:

– Por favor, não se aborreça! Eu não tive a intenção de ferir os seus sentimentos. O problema é que não estou acostumado a ficar tanto tempo longe de Anabel. Ela era tão constante, tão presente… Agora mal para em casa e, quando nos encontramos, ela conversa sobre ele o tempo todo. Crisélia, nós somos muito diferentes deles! Nós somos elfos e vivemos em árvores! Eles são humanos e vivem em casas! Quanto tempo levará até eles se cansarem dessa vida dupla? E se nós mesmos acabarmos nos cansando dessa vida superficial dos humanos? Somos seres encantados, e o nosso lar é a natureza; estariam eles dispostos a abrir mão de suas ilusões e futilidades para seguir-nos? Tanto Anabel quanto Felizardo ingeriram a água da Fonte da Juventude, e isso os torna ainda mais parecidos. Não há nada que possamos fazer se eles decidirem seguir um caminho diferente do nosso.

Crisélia calou-se pensativa. Após longos minutos de hesitação, ela confessou:

– Serei franca: menti para você. Também receio que Felizardo possa apaixonar-se por Anabel. Eles nunca estiveram tão próximos! Não há como negar: desde que ela começou a cobri-lo para evitar que ele faltasse em seus outros compromissos, Felizardo só abre a boca para pronunciar o nome dela.

FIM DO CAPÍTULO II
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 4 – CIBELE
Capítulo III
Quando Anabel e eu deixamos a biblioteca após a minha segunda e última apresentação daquele sábado, ignorávamos a enorme teia de ciúme que Eliel e Crisélia haviam tecido. Preferimos caminhar em vez de usarmos a magia dos anéis que Eliel nos ofertara. Durante o trajeto, comentei:

– Crisélia deve ter preparado uma refeição deliciosa. Você e Eliel poderiam almoçar conosco.

Com ar de seriedade, ela exclamou:

– É uma grande ideia! Assim, você me ajuda a convencer Eliel a permitir que eu trabalhe na biblioteca.

Ao chegarmos em casa, Crisélia comentou:

– Vocês se atrasaram.

Depois de beijar o rosto de Crisélia, enderecei um olhar significativo a Anabel antes de dizer:

– Convidei Anabel e Eliel para almoçarem conosco. Anabel quer que a ajudemos a convencer Eliel a deixá-la ocupar a vaga de Sílvia.

Crisélia não perdeu a oportunidade de corrigir-me:

– De Derlo, você quis dizer. Podem abandonar a ideia porque Eliel não consentirá.

Fiquei surpreso ao ouvir Anabel exclamar em tom áspero:

– Já estou cansada de ser tratada como criança! Eu conseguirei esse emprego, e nem você, nem Eliel…

Anabel não completou a frase porque Eliel apareceu de repente. Ele perguntou:

– Por que não termina o que pretendia dizer?

Ela corou e, desviando o olhar, murmurou:

– Não importa. Você não entenderia.

Eliel atirou uma flecha de ciúme em minha direção quando Anabel, depois de beijar o meu rosto, disse:

– Desculpe-me por não ficar para o almoço. Perdi o apetite. Na segunda-feira, você passa na árvore para irmos juntos à biblioteca?

Respondi tristemente:

– Sim. Passarei lá às 7h40.

Senti um frio no estômago quando Eliel, com o olhar colado em meu rosto, disse:

– Não perca o seu tempo porque ela não irá. As visitas de Anabel à biblioteca terminaram. Se está faltando um funcionário, que contratem alguém.

Calei-me, porque não me atreveria a desafiá-lo. Foi Anabel quem disse:

– Felizardo indicará o meu nome para o preenchimento da vaga, e você não conseguirá impedir. Pode voltar sozinho para a sua árvore, porque eu passarei a morar aqui.

Crisélia, que permanecera o tempo todo calada, quebrou o silêncio para dizer a Anabel:

– Venha comigo à minha árvore; precisamos conversar.

Crisélia e Anabel giraram seus anéis e desapareceram.

Fiquei confuso quando Eliel, após sentar-se no sofá, perguntou sereno:

– O que você sente por Anabel?

A pergunta apanhou-me de surpresa, e a única resposta que me veio à mente foi:

– Ternura.

Eliel esquadrinhou o meu rosto antes de comentar:

– Eu já deveria ter imaginado que a aproximação de vocês dois seria inevitável. Você e Anabel são muito diferentes de nós, mas muito parecidos entre si. Crisélia e eu sairemos de suas vidas assim que disserem que não precisam mais de nós.

Eu fui sincero quando disse:

– A admiração que sinto por você é maior do que a ternura que sinto por Anabel. Grave em seu coração esta verdade: Crisélia é o único amor da minha vida. Por favor, Eliel, não veja maldade onde só há inocência. Reconsidere o pedido de Anabel e permita que ela ocupe o seu tempo trabalhando na biblioteca. Ela ficará feliz por você ter respeitado a sua decisão e o amará ainda mais por isso.

Ele sorriu e levantou-se para abraçar-me. Num piscar de olhos, a magia contida em nossos anéis levou-nos ao encontro de Crisélia e Anabel.

FIM DO CAPÍTULO III
Sisi Marques

Não perca os Capítulos IV, V, VI e VII da 4ª Parte (Cibele) da história “Realidade Mágica”
– livro 1, na próxima 3ª feira, dia 16/07/13.

Até breve.
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
This entry was posted in REALIDADE MÁGICA LIVRO 1 - PARTE 4 (CIBELE). Bookmark the permalink.

Leave a Reply