UNIDOS NA BUSCA PELA PAZ (Parte 4)

Após despedir-se, o príncipe Leopoldo entrou no castelo e surpreendeu-se ao verificar que as flores haviam desaparecido. Minutos depois, a princesa Luara procurava-o para dizer:

– Obrigada por ter devolvido as flores. Não foi nada agradável o meu noivo ter recebido aquela montanha de flores de uma admiradora secreta.

Segurando-a delicadamente pelos ombros e olhando fixamente em seus olhos, o príncipe disse:

– Eu não as devolvi. Elas simplesmente desapareceram. Aqueles dois não eram floristas. Vieram para ajudar-me a resolver o enigma.

A princesinha balbuciou intrigada:

– Enigma?! Que enigma?!

Mergulhando nos olhos de sua futura rainha, Leopoldo aventurou-se a dizer:

– Um descomunal dragão avermelhado faz e refaz a trilha que separa o reino de seu pai do reino de Adelmo.

Respirando aliviada, Luara perguntou:

– Então, você também o viu?! E eu pensando que estivesse enlouquecendo!Eu vejo aquele dragão desde o dia em que meu pai consentiu o nosso noivado e sugeriu que você se instalasse aqui no castelo como o seu futuro herdeiro. E você?… Há quanto tempo consegue vê-lo?

Em vez de responder, o príncipe exclamou:

– A jovem estava certa! Faz sentido!

Sem compreender o que ele afirmava com tanto entusiasmo, Luara indagou:

– Que jovem?! O que faz sentido?!

Transbordando de felicidade, ele declarou:

– Muito em breve, você será a minha esposa e a rainha dos dois reinos.

Ainda mais confusa, a princesa disse:

– Não compreendo. Primeiro, você está irradiando preocupação; e agora não cabe em si de felicidade. Serei sua esposa e rainha sim, mas de um único país, porque o meu pai nunca teve a intenção de dividi-lo. E se essa guerra não acabar bem, temo que nem haja país sobre o qual reinar.

O príncipe Leopoldo aventurou-se a dizer:

– Não haverá guerra; não, se nos unirmos e pudermos evitar. E você há de ser também a rainha do meu reino. Eu sou filho de Adelmo.

A revelação fez a princesa cambalear, e ela sentou-se atordoada.

Leopoldo ajoelhou-se ao seu lado para dizer:

– Perdoe-me, amor, por não ter lhe contado antes. Tive receio de que não seria aceito por ninguém se conhecessem a minha verdadeira identidade.

A princesa recobrou a voz e perguntou:

– Você é o príncipe Leopoldo que desapareceu há vários anos? Ouvi dizer que o seu pai ficou desesperado. Moveu céus e terras para encontrá-lo. Se ele descobrir que você esteve em nosso reino durante todo esse tempo, pensará que o meu pai mandou raptá-lo para vingar-se.

Atônito, o príncipe Leopoldo indagou:

– Vingar-se de quê? Que motivo teria o seu pai para vingar-se do meu?

Vasculhando um passado do qual ela simplesmente ouvira falar, a princesa respondeu:

– O meu pai e a sua mãe apaixonaram-se perdidamente, mas não puderam se casar porque o pai dela fez uma aliança com o seu avô e prometeu-a em casamento para o seu pai.

Leopoldo, nada surpreso, comentou pensativo:

– Eu sempre suspeitei que nunca houve amor entre os meus pais. Ouça, Luara, estou cansado de caminhar em círculos. Precisamos fazer algo que coloque um fim a essa ameaça de guerra de uma vez por todas.

Luara perguntou receosa:

– O que sugere?!… Cometerá a maior tolice se disser ao meu pai que é filho do rei Adelmo. Ele jamais o aceitará como genro; e, para nós, será o fim de tudo.

Abraçando-a para encorajá-la, o príncipe disse:

– A verdade é sempre a melhor política. O seu pai nunca me perdoará se eu continuar escondendo a minha identidade. Eu o respeito muito e ele, mais do que ninguém, tem o direito de saber quem sou antes de entregá-la a mim.

Abanando a cabeça inconformada, Luara exclamou entre lágrimas:

– Tolo! Depois, não diga que não o avisei.

Naquele mesmo dia, apesar dos protestos de Luara, o príncipe Leopoldo procurou o rei Clemêncio para dizer:

– Majestade, tenho uma revelação a fazer-lhe.

Com o semblante preocupado, o rei disse:

– Ora, Murilo, confesso que não gosto nada dessa expressão em seu rosto. Das duas uma: ou a guerra já começou, ou você desistiu do casamento. Estou enganado?

Após respirar profundamente para ganhar coragem, o príncipe despejou as palavras:

– Receio haver uma terceira opção da qual Vossa Majestade nunca suspeitou: eu não sou quem eu disse que era.

Sorrindo aliviado, o rei exclamou:

– Não dou a mínima para a sua origem! Só o que me importa é o brilho nos olhos da minha filha quando está ao seu lado. Sossegue rapaz; você não está aqui de favores. Em breve, ocupará o meu lugar. Preciso de um descanso e, além disso, quem melhor do que eu para orientar os meus netos?

O príncipe Leopoldo não conseguiu sorrir; uma nuvem escura pairava sobre o seu coração. O rei Clemêncio, por sua vez, guardando para si os seus projetos para o futuro, franziu o semblante enquanto dizia:

– Vamos acabar logo com isso. Se, para você, é importante que eu saiba, deixe-me ajudá-lo. Você não é órfão; fugiu de casa porque os seus pais o obrigavam a roubar. Acertei?

Olhando fixamente para o rosto do rei, o príncipe disse:

– Foi por outro motivo que fugi de casa: eu não tinha liberdade para ser eu mesmo.

Abraçando-o e incentivando-o a caminhar ao seu lado, o rei Clemêncio exclamou:

– Eu não disse… Não há nada com o que se preocupar! Faz parte da adolescência! É apenas uma crise de identidade! Diga-me onde moram os seus pais, e eu me comprometo a visitá-los e explicar-lhes tudo.

O príncipe revestiu-se de coragem para dizer:

– Não creio que seja assim tão simples. Sou Leopoldo, filho de Adelmo e Lauara.

O impacto da confissão de Leopoldo fez o rei Clemêncio emudecer. Envolto por sentimentos antigos e dolorosos, o rei não conseguia concatenar os pensamentos. Aos poucos, a dor cedeu lugar à revolta, e ele recobrou a fala e gritou, gritou extravazando todo o ódio que dilacerava o seu coração:

– Saia daqui agora! Desapareça! Se eu encontrá-lo novamente no meu reino, eu mandarei jogá-lo na masmorra e você jamais sairá de lá com vida!

Uma semana se passou desde o infeliz desentendimento entre Leopoldo e o rei Clemêncio. Miro, o leiteiro, não sabia mais o que fazer para levantar o ânimo do amigo Murilo. Cansado de suas tentativas frustradas, resolveu convidá-lo a sair para beber e afogar as mágoas. Murilo respondeu:

– Eu não seria uma boa companhia. Por que você não sai com o seu primo para distrair-se um pouco? Afinal de contas, não é sempre que ele vem visitá-lo.

Miro respondeu:

– Você conhece Lucélio. Ele seria o primeiro a não querer deixá-lo aqui sozinho.

Murilo calou-se. Parecia mesmo nem ter ouvido o que o amigo dissera. O silêncio de Murilo encorajou Miro a dizer:

– Se você confiasse em mim, tudo seria bem mais fácil. Por que o rei Clemêncio o expulsou do castelo?

Murilo respondeu:

– Porque não me quer como seu genro. Ele não me expulsou apenas do castelo. Eu não sou bem-vindo neste reino. Se eu tivesse para onde ir!…

Miro aventurou-se a arremessar-lhe uma nova pergunta:

– O que poderia ter feito o rei mudar de ideia?

Murilo procurou esquivar-se, dizendo:

– Ora, eu não sei. Ele deve ter os seus motivos.

Miro fitava o rosto de Murilo na esperança de que ele lhe dissesse a verdade. Cansado de esperar por algo que certamente não aconteceria nunca, Miro despejou as palavras:

– Pare de mentir para mim, porque eu sei de tudo. Sei que você é o príncipe desaparecido há mais de sete anos. Aposto que o rei Clemêncio o expulsou porque você contou tudo a ele.

Surpreso e, ao mesmo tempo, sentindo um grande alívio por não ter mais que ficar mentindo ao amigo, o príncipe perguntou:

– Como descobriu?

Miro explicou:

– Eu soube desde o início. Você não o reconheceu, mas Lucélio é o mesmo homem que está vivo até hoje graças a você. Lembra-se do dia em que poupou-lhe a vida?

Profundamente interessado na revelação de Miro, o príncipe Leopoldo respondeu:

– Eu me lembro que coube a mim a decisão; mas, para ser franco, não acreditei que ela seria respeitada. Alegra-me ter conseguido salvar a vida de seu primo.

Miro continuou narrando:

– Desde o momento em que a sua sentença salvou-lhe a vida, Lucélio sentiu-se devedor e jurou a si mesmo protegê-lo. Ele descobriu o seu disfarce e presenciou a fuga. Discretamente, ele o seguiu até aqui e chamou-me para encontrá-lo e escondê-lo. Quem procuraria pelo príncipe na casa do leiteiro? Durante esses anos todos, ele me manteve informado sobre o que acontecia no reino de seu pai. O rei Adelmo ainda não desistiu de encontrá-lo, e o seu compromisso com a duquesa Rosabela ainda não foi desfeito.

Ensaiando um gracejo, o príncipe comentou:

– Aí está um bom motivo para eu me embriagar! Você me acompanha?

Demonstrando entusiasmo, Miro exclamou:

– Com prazer! Convidarei Lucélio, e nós três esvaziaremos aquela garrafa de vinho que venho guardando para uma ocasião especial. Espere só um pouquinho e não vá mudar de ideia.

Ao se ver livre da presença de Miro, o príncipe saiu pela janela. Eram muitos os pensamentos angustiantes que o impulsionavam a ganhar distância rapidamente. Não estava disposto a voltar para o reino de seu pai e, muito menos, a macular o seu amor por Luara, casando-se com Rosabela. Sentiu que não tinha mais nada a perder e resolveu fazer algo que já deveria ter feito: enfrentar o dragão avermelhado.

(Não perca, no próximo domingo, dia 21/07/13, a 5ª Parte da história “Unidos na Busca pela Paz”.)

Até breve.
Sisi Marques

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Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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