REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 3 – ENCONTROS E REENCONTROS (Capítulos XII, XIII e XIV)

Capítulo XII
Eliel deixou a biblioteca e foi direto para a árvore de Crisélia, ou melhor, para a nossa árvore. Depois de contar-nos tudo, ele declarou:

– Está terminado. Eu não quis presenciar a cena e também nem poderia. Prefiro continuar acreditando que beijei Sílvia e não o irmão de Aldo.

Eu sorri ao contemplar a careta que ele fez ao expressar a sua aversão.

Curioso, não consegui evitar a pergunta:

– Como descobriu que Sílvia era Derlo?

Ele revelou:

– Foi obra do acaso. O broche não era destinado a mostrar a ela o homem certo. Eu sabia que, se ela começasse a se interessar por mim, estaria na apresentação, e quando Derlo aparecesse com a pérola, a pedra no centro da flor acenderia. Usei a frequência da pérola de Osmar para calibrar a frequência do broche. Para tirar a pérola de Sílvia foi fácil. O beijo proporcionou a oportunidade de aproximação da qual eu precisava. Enquanto nos beijávamos antes da estreia, a pérola de Osmar, em meu bolso, atraiu a pérola de Eleomar. Para que Sílvia não desconfiasse de que não estava mais de posse da pérola, eu a substituí por outra qualquer. A propósito, eles conseguiram voltar a ser fadas?

Foi Crisélia quem respondeu:

– Anabel contou-nos que os dois ficaram em frente ao mar, cada um segurando a sua concha com a pérola, mas nada acontecia. De repente, outra concha gigantesca foi trazida pelas ondas e irradiava uma luz tão intensa que os envolveu completamente. Minutos depois, a luz que ofuscava os olhos de Anabel dissipou-se e ela pôde perceber que Eleomar e Osmar haviam partido.

Eliel perguntou:

– Onde está ela?

Crisélia respondeu:

– No quarto que ela costumava ocupar. Ela começou a ler e acabou adormecendo. Por favor, Eliel, não comente nada sobre os beijos que você e Sílvia trocaram. Anabel é muito sensível e levaria muito tempo para perdoá-lo e conseguir esquecer.

FIM DO CAPÍTULO XII
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 3 – ENCONTROS E REENCONTROS
Capítulo XIII
No sábado, quando a minha sessão de histórias terminou, um jovem aproximou-se para dizer:

– Meu nome é Afrânio. Não está me reconhecendo? Aldo… lembra-se?

Surpreso, exclamei:

– Não é possível! É você mesmo?!

Ele respondeu alegremente:

– Sim. Graças a você e ao seu cunhado, estou livre, e Derlo receberá o castigo que merece: ficará preso na ânfora até que consiga se emendar. Com os óculos que o seu cunhado me ofertou, eu jamais o perderei de vista outra vez. E, por falar em seu cunhado, eu gostaria muito de encontrá-lo para poder agradecer-lhe pessoalmente.

Sugeri:

– Acompanhe-me à confeitaria e fique para mais uma sessão. Depois iremos à minha casa, almoçaremos, e eu providenciarei o encontro.

Aldo, isto é, Afrânio aceitou o meu convite para almoçar. Quando o almoço terminou, toquei o sininho de prata e, minutos depois, lá estava Eliel atendendo ao meu chamado. Afrânio comentou espirituoso:

– Interessante o meio que vocês usam para se comunicar.

Eu expliquei:

– Foi Eleomar quem teve a ideia.

Eliel, depois de fixar bem o olhar no rosto de Afrânio, arriscou o palpite:

– Não me diga que é o nosso amigo gênio, livre de seu disfarce!

Impressionado com a sagacidade de Eliel, exclamei:

– Você é bom mesmo! Como conseguiu adivinhar?

Ele respondeu:

– Não foi difícil porque, além de Aldo, ninguém mais sabe sobre nós.

Afrânio e eu rimos. Minutos depois, endereçando um olhar amistoso a Eliel, Afrânio disse:

– Eu precisava conversar com você em particular.

Crisélia tinha saído para fazer companhia a Anabel. Era apenas eu quem estava sobrando. Senti-me reduzido a nada. Tratava-se de um assunto de gênio para elfo, e eu teria que me retirar. Em vez de ir para outro cômodo, saí para caminhar na praia. Enquanto eu me remoía de inveja; Afrânio confidenciou a Eliel:

– O seu cunhado deseja saber a localização da Fonte da Juventude. Eu menti a ele quando disse que não poderia fornecer-lhe essa informação. Embora a Fonte da Juventude mude de lugar frequentemente, ela deixa sempre um rastro de luz que pode ser seguido. Pensando em seu cunhado, eu fui até ela e retirei uma dose de seu precioso líquido. Só há um problema: embora a lei dos gênios não proíba o acesso à Fonte, ela proíbe a entrega de sua água a um mortal. Entretanto, não existe nenhuma menção sobre elfos e, dessa forma, eu não estaria violando a lei se entregasse a água da Fonte a você. Eu lhe pergunto: está disposto a assumir toda e qualquer responsabilidade que, por ventura, possa resultar desse ato? Encurtando o assunto: para todos os efeitos, será você quem estará entregando a água da Fonte da Juventude a Felizardo e não eu.

Eliel sorriu ao dizer:

– Sossegue! A responsabilidade será toda minha.

Satisfeito com a anuência de Eliel, Afrânio entregou a ele uma pequenina ânfora contendo o líquido precioso.

FIM DO CAPÍTULO XIII
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 3 – ENCONTROS E REENCONTROS
Capítulo XIV
Quando Crisélia foi ao meu encontro, já estava começando a anoitecer, e eu não estava bem certo se desejava voltar para casa. Eu estava construindo um despretensioso castelinho de areia; ela chegou e, em poucos segundos, fez surgir um castelo magnífico. Eu permanecia calado, e o meu silêncio começou a incomodá-la. Ela perguntou tristemente:

– O que há? Arrependeu-se de abrir mão de sua rotina?

Igualmente triste, respondi:

– Eliel tinha razão, ele tentou avisar-me, mas eu não quis ouvir. Não seremos felizes, Crisélia. Você permanecerá sempre com a mesma aparência de quando nos conhecemos, e eu sentirei o peso das décadas acumulando-se sobre meus ombros. Eu morrerei encantado com o nosso amor, e você viverá décadas ou, até mesmo, séculos de solidão.

Desejando sondar o meu coração, ela perguntou:

– O que você sugere?

Eu respondi com a voz embargada pela tristeza:

– Proponho que nos separemos. Eu estava enganado quando disse que não me importava de viver entre dois mundos. A verdade é que eu não consigo fazer parte do seu mundo. Você e Eliel são infinitamente superiores a mim. Sinto-me sempre em desvantagem, diminuído.

Crisélia interrompeu-me para afirmar:

– Você está deprimido porque hoje é o dia do seu aniversário. Não deve ser nada bom acrescentar uma velinha no bolo a cada ano, sabendo que ela significa um ano a menos na contabilidade da vida. Eu disse a Eliel que não seria uma boa ideia fazer o bolo. Mas ele insistiu e pediu-me que guardasse segredo, porque deveria ser uma surpresa. Ouça, amanhã o seu aniversário já terá passado, e você não estará mais pensando nessas coisas. Eu te amo, Felizardo. Não desista do nosso amor. Se nos separarmos, seremos ainda mais infelizes.

O olhar carinhoso de Crisélia convidava-me a beijá-la, e eu não consegui resistir. O meu coração batia descompassado, e o amor de Crisélia fazia com que eu recuperasse o amor pela vida, por mais efêmera que fosse. Um pouco mais animado, sugeri:

– É melhor irmos. Embora não seja o meu aniversário, não podemos desperdiçar o bolo.

Confusa, Crisélia perguntou:

– O que disse?

Levantei-me e comecei a bater nas roupas para livrar-me da areia. Respondi distraído:

– Estamos em julho, e o meu aniversário é só em dezembro.

Desconfiada, Crisélia exclamou:

– Que estranho! Eliel não costuma se enganar desse jeito!

Antes de utilizarmos nossos anéis para nos transportarmos à árvore, olhamos ao redor para nos certificarmos de que estávamos livres de olhares indiscretos. Mal chegamos e ouvimos Anabel exclamar:

– Surpresa!

Encabulado, confessei:

– Mas hoje não é o meu aniversário.

Eliel, depois de abraçar-me, entregou-me a ânfora que Afrânio lhe dera e disse:

– Hoje, 17 de julho, não estamos comemorando o seu aniversário, que seria apenas em dezembro. Estamos celebrando a vida, a sua nova vida que terá início no momento em que você ingerir o conteúdo desse frasco.

Eu tremia dos pés à cabeça. Eu tinha a sensação de estar flutuando em um sonho maravilhoso do qual não desejava acordar. Eu permanecia calado porque tinha receio de dizer algo que quebrasse a deliciosa magia daquele instante… Eliel interrompeu o meu devaneio quando exclamou sorrindo:

– Beba logo, Felizardo! O que está esperando: ficar alguns minutos mais velho?!

Os olhos de Crisélia brilharam quando eu encostei a delicada ânfora nos lábios e ingeri lentamente o seu conteúdo. Eliel tornou a abraçar-me e declarou satisfeito:

– Agora você pertence à nossa família.

Eu confesso: não consegui agradecer a Eliel naquele momento porque comecei a chorar de felicidade. Foi só depois de alguns minutos que a emoção me permitiu dizer:

– Obrigado, meu amigo. Muito obrigado.

FIM DA TERCEIRA PARTE (ENCONTROS E REENCONTROS) DE REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1
Sisi Marques

Não perca os Capítulos I, II e III da 4ª Parte (Cibele) da história “Realidade Mágica” – livro 1, na próxima 2ª feira, dia 15/07/13.

Até breve.
Sisi Marques

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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