REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 3 – ENCONTROS E REENCONTROS (Capítulo VII)

Na semana seguinte, entretanto, Crisélia proporcionou-me uma surpresa agradabilíssima quando compareceu à biblioteca. Eu mal a reconheci na plateia pelo modo diferente que estava vestida. Quando a sessão terminou, fomos à confeitaria. Eu disse a ela:

– Você está linda!

Antes que ela tivesse a oportunidade de agradecer o elogio, perguntei:

– Osmar e Eleomar estão bem?

Ela respondeu:

– Sim. Mas não foi para falar sobre eles que vim até aqui. O motivo que me trouxe é bem diferente.

Receoso, perguntei:

– Aconteceu alguma coisa?… Como estão Eliel e Anabel?

Crisélia respondeu:

– Estão bem; pare de se preocupar. Eu já lhe disse que está tudo bem. O problema somos nós. Felizardo, eu estive pensando: não me importo de viver entre dois mundos. Quero ficar ao seu lado. Minha árvore, depois que os pombinhos voltarem para o mar, tornar-se-á grande demais para mim.

Contemplando os seus olhos, comentei em tom de gracejo:

– Eu pensei que você nunca fosse me convidar para morar em sua árvore. Também não me importo de viver entre dois mundos. Mas responda-me: o que Eliel pensará a respeito?

Crisélia comentou:

– Ontem nós conversamos, e ele não acredita que seja uma boa ideia. Embora Eliel confie em você, ele me aconselhou a esperar até que você consiga a sua imortalidade. Eu disse a ele que já esperamos tempo demais.

Ansioso, perguntei:

– E o que foi que ele disse?

Ela respondeu:

– Nada. Ele sorriu e abraçou-me ternamente. Ele nos ama muito para opor-se à nossa união.

Tivemos que interromper o assunto porque, para o meu desprazer, Sílvia entrou na confeitaria e aproximou-se de nossa mesa. Ela exclamou:

– Fê! Que coincidência nos encontrarmos aqui! Eu estava faminta e resolvi sair para comprar alguns salgadinhos. Quem é a sua acompanhante? Não me convida para sentar?

O meu olhar encontrou o olhar enciumado de Crisélia. Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, Sílvia sentou-se e, dirigindo-se a Crisélia, comentou:

– Você deve ser muito especial. Acreditaria se eu lhe dissesse que esta é a primeira vez que o Fê convida uma de suas ouvintes para sair?

Crisélia não perdeu a oportunidade de dizer:

– O meu nome é Crisélia. Sou a noiva de Felizardo. E você?… Qual é mesmo o seu nome?

Embaraçada, Sílvia estendeu a mão para Crisélia enquanto dizia:

– Sílvia. Perdoe-me a indiscrição. O Fê sempre me disse que era comprometido, mas eu me recusava a acreditar. É um prazer conhecê-la. Espero que assista à próxima sessão. Ele é ótimo no que faz.

Depois, dirigindo-se a mim, perguntou:

– Você ouviu a última? O diretor decidiu contratar um mágico, e encarregou-me do processo de seleção.

Eu não consegui traduzir o olhar insistente e significativo que Crisélia enviou-me. Sílvia, porém, perspicaz como era, disse:

– Crisélia, eu estou enganada ou você pareceu interessar-se pelo assunto? Conhece alguém? Se conhece, por favor, diga quem é e poupe-me dessa tarefa maçante de ficar entrevistando vários candidatos.

Para o meu espanto, Crisélia comentou:

– O meu irmão acompanhou-me na viagem até aqui e, por coincidência, ele é um mágico muito experiente. Seria ótimo se ele conseguisse essa oportunidade.

Sílvia declarou satisfeita:

– O emprego é dele. Não se importa que eu pergunte: ele é solteiro?

Crisélia sorriu antes de responder:

– Não. E o que é pior: a esposa dele é tão ciumenta quanto eu. Mas, de qualquer forma, ele ficará muito agradecido e poderá presenteá-la com um de seus artefatos mágicos. O que você gostaria de ganhar?

Incrédula, Sílvia balançou a cabeça para os lados antes de exclamar:

– Você só pode estar brincando! Toda mágica é apenas um truque! Não existem objetos mágicos. Se houvesse, eu gostaria de possuir algo que acendesse quando eu me aproximasse do homem destinado a me fazer feliz. Eu sei que esse homem existe; apenas não o encontrei ainda.

Nós três rimos, e Crisélia comentou:

– Você é muito divertida. Sirva-se dos bolinhos e tome café conosco.

Sílvia aceitou o convite e, cerca de meia hora depois, retornávamos à biblioteca. Ela nos acompanhou até a porta da sala onde eu realizava as apresentações e, ao dar uma olhada na plateia para verificar o número de participantes, comentou baixinho:

– Veja só, Fê, quem veio prestigiá-lo.

Apressei-me em pedir-lhe:

– Por favor, conduza Crisélia à sua sala. Eu não posso permitir que esse sujeito desagradável a aborreça.

Sílvia perguntou solícita:

– Quer que eu chame a segurança?

Procurando esconder o pavor que a presença daquele homem me causava, respondi:

– Não será necessário. Ele não é perigoso, é apenas inconveniente. Obrigado, Sílvia.

Crisélia, compreendendo os meus motivos, permaneceu calada e não se opôs a acompanhá-la. Quanto a mim, procurei manter-me calmo e, embora o temesse, decidi desafiá-lo, contando todas as histórias sobre desonestidade, astúcia e trapaça que eu conhecia. Quando a última história terminou, ele esperou que a sala esvaziasse para aproximar-se e emitir o comentário:

– Lamento dizer-lhe que o seu repertório não estava muito variado hoje. As histórias tornaram-se um pouco repetitivas.

Permaneci calado, e ele, entregando-me um pequeno embrulho, disse:

– Aqui está o que lhe prometi. Você cumpriu a sua parte, e eu estou cumprindo a minha. Está pronto para a segunda tarefa?

Inconformado com sua audácia, eu olhei para ele e quebrei o silêncio para dizer:

– Desapareça da minha vida e leve este pacote para bem longe daqui! Não quero ter nada a ver com os seus crimes.

Ele exclamou irônico:

– Era exatamente como eu suspeitava: todas aquelas histórias de desonestidade foram endereçadas a mim!… Posso saber o motivo? Talvez tenha sido o atraso. Eu não o procurei antes para entregar-lhe o que era seu por direito, porque só tenho folga aos sábados. Deixe-me cumprimentá-lo: você fez um excelente trabalho ao libertar a fadinha. Eu sabia que conseguiria despertar-lhe a confiança. Agora você precisa recuperar a pérola. Esse é o único modo de devolver-lhe a imortalidade.

Não conseguindo conter a minha indignação, perguntei:

– Que espécie de otário pensa que sou? Já ouviu falar que errar é humano, mas persistir no erro é burrice?! Você nunca esteve interessado no bem-estar de Eleomar. Se alguém pode devolver a pérola a ela, esse alguém é você. Eu sei quem você é. Pode parar de fingir.

Ele perguntou calmamente:

– E quem você pensa que sou? Eu já lhe disse o meu nome: Aldo. Posso ter exagerado um pouco na história sobre a fadinha; mas foi apenas para aguçar a sua imaginação. Preferi fazê-lo acreditar que um gênio ciumento a aprisionara por duzentos anos, em vez de dizer-lhe a verdade: um gênio ganancioso e cruel capturou-a com a intenção de roubar sua pérola e a manteve prisioneira por cinco meses, utilizando-a como isca para roubar os objetos mágicos de quem ousasse tentar libertá-la.

Afirmei:

– Você certamente teria roubado o meu anel se eu o tivesse usado para tirar-nos de lá.

Ele disse:

– O seu anel poderia ter sido roubado sim. Esse era um risco que você teria que correr. Mas ele não teria sido roubado por mim. Veja o lado bom: a fadinha foi libertada, o seu anel continua em seu poder, e você acrescentou mais dois objetos mágicos à sua coleção. A caneta e o cartão poderão servi-lo de várias formas. Deixe-me pensar no que poderia oferecer-lhe desta vez para…

Não permiti que continuasse e o ameacei:

– Se não sair do prédio agora mesmo, chamarei a segurança. Sou pago para contar histórias e não para ficar aqui perdendo o meu tempo, ouvindo suas mentiras.

Sem alterar o tom de voz, ele perguntou:

– Como posso desfazer o mal-entendido? Eu sou quem sou e não quem você acredita que eu seja. Não está na hora do almoço? Hoje você escolhe o restaurante, e eu pago a conta.

Algo me dizia que eu não conseguiria me livrar dele tão facilmente. Aventurei-me a sugerir:

– Por que não nos encontramos na confeitaria às 17h? Antes disso, receio não ser possível.

Eu estava confuso. Começava a acreditar que ele era quem dizia ser: Aldo. Ele comentou:

– Perdoe-me a distração: esqueci-me da bela jovem. Não posso culpá-lo por preferir a companhia dela à minha. Então, está combinado: eu o estarei esperando no lugar e horário marcados.

Tentei devolver o embrulho, mas ele recusou. Senti um alívio enorme ao vê-lo afastar-se. Quando cheguei à porta da sala de Sílvia, me surpreendi ao vê-las conversando animadamente. Nem pareciam preocupadas com o meu atraso. Entretanto, ao deixarmos a biblioteca, Crisélia comentou:

– Eu não saí da sala de Sílvia para procurá-lo, porque receei que ela desconfiasse de alguma coisa. Você se arrisca muito, encontrando-se com aquele homem. E se Eleomar estiver certa? E se for ele o gênio que a aprisionou?

Respondi:

– Começo a duvidar que seja. Entretanto, Aldo certamente poderá levar-nos até ele. Fiquei de encontrá-lo na confeitaria às 17h.

Crisélia disse com determinação:

– Irei com você. Existe algo que nunca lhe contei: posso ficar invisível. Estarei o tempo todo ao seu lado, e ele nem perceberá.

Curioso, perguntei:

– Você já ficou invisível ao meu lado?

Desviando o olhar, Crisélia confessou:

– Sim, várias vezes. Eu precisava vê-lo; do contrário, morreria de saudades.

Exclamei magoado:

– Não é justo! Pensa que para mim foi fácil ficar sem vê-la durante todos esses meses?! Por que permaneceu invisível ao meu lado?! Por que não me permitiu vê-la para que eu também pudesse matar a saudade?

Acariciando o meu cabelo, ela murmurou em tom carinhoso:

– Por favor, não se zangue. Eu precisava certificar-me de que você continuaria fiel ao nosso amor.

Calei-me. De que adiantaria alimentar aquela discussão? Eu jamais seria igual a ela e a Eliel. Eles eram elfos e tinham poderes que eu desconhecia. Lembrei-me do pacote na minha mão e comentei:

– Preciso falar com Eliel. Importa-se de levar-me até ele?

Ela comentou:

– Você está tão zangado que até se esqueceu de me convidar para almoçar. Eu nunca estive em um restaurante.

Eu mesmo não sabia por que estava tão impaciente. Talvez quisesse resolver aquela situação de uma vez por todas. Eu me perguntava como ela conseguia pensar em comer em um momento tão delicado quanto aquele. Não discuti. Levei-a a um restaurante e fiquei surpreso ao ouvi-la dizer:

– Deixe-me ver o que há nesse embrulho. Foi Aldo quem o deu a você? Se for algo roubado, poderemos devolvê-lo ao seu verdadeiro dono. Quando Eliel e eu éramos pequenos, morávamos na árvore de nossa mãe. Ele era tão travesso que trazia tudo o que encontrava para a nossa árvore. Eu não aguentava ver todas aquelas coisas amontoadas e pedi à minha mãe que me ensinasse um encantamento que fizesse cada coisa voltar ao seu dono.

Ela já havia aberto o pacote e segurava a caneta em uma mão e o cartão na outra. Discretamente ela fechou os olhos, e eu levei um susto quando senti algo pular no bolso do paletó. Receoso, coloquei a mão no bolso e lá estavam os dois objetos mágicos. Contei-lhe o que havia acontecido, e ela sorriu dizendo:

– A sua coleção está aumentando. Era para perguntar a Eliel sobre os objetos que você desejava vê-lo?

Confessei:

– Mostrar-lhe os objetos seria apenas um pretexto para revê-lo. Eu tenho um pressentimento de que ele está me evitando. Responda-me: o que será de nós depois que sairmos deste restaurante?… Você irá para a sua árvore, e eu irei para a minha casa?… Iremos juntos para a sua árvore?… Iremos juntos para a minha casa?…

Crisélia sorriu ao dizer:

– Prefiro a terceira opção. Se formos para a nossa árvore, acabaremos tendo pombos para o jantar. Como aquela fadinha é insolente!

Exclamei:

– Eu que o diga! Quando estávamos naquele lago, perdi a conta do número de vezes que ela me chamou de ignorante.

Crisélia não conseguiu conter o riso, e eu a beijei.

Não perca o 8º Capítulo da 3ª Parte da história “Realidade Mágica” – livro 1 (Encontros e Reencontros), que também está previsto para 12/07/13 .

Até breve.
Sisi Marques

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Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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