REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 3 – ENCONTROS E REENCONTROS (Capítulo V)

A escada era bem longa e, como Aldo dissera, conduzia a uma pequena gruta. O minúsculo lago e a esfera azulada também eram reais. Por um momento, tive receio que ele bloqueasse a entrada e me prendesse naquele lugar para sempre. Tranquilizei-me, porém, ao lembrar que o anel que Eliel me ofertara estava em meu bolso, e eu poderia utilizá-lo para ajudar-me a sair dali em segundos se fosse necessário.

Bastou um simples toque na esfera para que ela se abrisse e permitisse a minha entrada. Após fechar-se, ela deslizou suavemente para a superfície do lago e começou a submergir lentamente. A parte da esfera que tocou o fundo do lago achatou-se e abriu-se, transformando-se em uma redoma que me permitiria cavar, sem entrar em contato com a água.

Um leve brilho na areia úmida indicou-me o lugar exato. Finquei a pá a uma distância segura para evitar danificar a concha, e apenas isso bastou para que ela se desprendesse, tornando-se visível. Agachei para contemplá-la e fiquei maravilhado quando ela se abriu e revelou o que havia em seu interior: uma delicada e formosa fadinha, com cabelos longos e olhinhos azuis, que parecia vestida de luz. Encantado, eu sorri ao ouvi-la queixar-se:

– Seu desajeitado! O que pretendia fazer com essa pá enferrujada: quebrar a minha concha?! Derlo só me expõe a aventureiros, homens rudes que não têm ideia de quanto é frágil a concha de uma fada!

Refeito do êxtase, perguntei:

– Derlo é o nome do gênio que a prendeu nessa concha?

Sentindo-se ofendida, ela retrucou:

– Prisão?! Despreza tanto assim o meu lar que o considera uma prisão?! Esta concha é mágica e só aparenta ser pequena quando aberta ou vista do lado de fora. Mas, quando fechada, a magia a transforma em um lar que causaria inveja a um rei. Posso ver que você é um ignorante e não conhece nada sobre as fadas da água. É por esse motivo que estou disposta a perdoá-lo, se conseguir ajudar-me a sair daqui.

Confuso, perguntei:

– Por que deseja libertar-se de sua concha se ela é um lar tão maravilhoso quanto você diz?

Impaciente, ela tornou a ofender-me quando exclamou:

– Ignorante! Não é da minha concha que eu quero me libertar e sim deste buraco fétido na areia, no qual estou presa há mais de cinco meses! Eu quero a imensidão da liberdade. Você já viu o mar?!… Se já o viu, sabe do que eu estou falando. Além disso, sinto saudades de Osmar e das outras fadas. Responda-me: o que você tem para oferecer a ele?

Ainda mais confuso, perguntei:

– Oferecer a quem? Eu não conheço esse tal de Derlo que a prendeu neste lago. Quem pediu que eu viesse resgatá-la foi Aldo e ele está lá fora nos esperando e vigiando a entrada. Ele disse que um gênio a prendeu nesta concha porque você se recusou a desposá-lo.

Disparando flechas de intolerância, a fadinha exclamou:

– Ignorante! E você acreditou?! Só alguém desprovido de inteligência poderia ter se deixado enganar dessa forma! Ouça, apesar de ignorante, você é paciente e não se aborrece comigo quando eu me exalto. Gosto de você, e é só por esse motivo que permitirei que me beije.

Surpreso, perguntei:

– Beijá-la?!

Ela respondeu:

– Sim. Por acaso seria algum sacrifício?! Ouça, eu já estou farta deste lugar e estaria mesmo disposta a abrir mão da minha imortalidade para sair daqui.

Eu disse:

– Não permitirei que faça isso. Tem que haver outro modo.

Balançando a cabecinha para os lados, ela sentenciou:

– Não há. Derlo jamais me libertaria porque sou a isca da qual ele se utiliza para atrair otários como você. Quer ver só como estou dizendo a verdade?… Responda-me: que objeto mágico ele lhe ofereceu, e qual é o objeto que você guarda consigo neste exato momento?

Profundamente interessado em sua linha de raciocínio, respondi:

– O homem que me indicou este lugar disse que me entregaria uma caneta e um cartão mágicos em retribuição por eu libertá-la. E, por precaução, eu trouxe um anel mágico que ganhei de um amigo. O anel tem o poder de levar-nos a qualquer lugar que desejarmos.

Ela exclamou satisfeita:

– Está vendo só: estamos começando a nos entender!

Afirmei:

– Precisamos de um plano. Teremos que ser mais espertos do que ele para vencê-lo.

Ela declarou:

– Não há como derrotá-lo, porque ele é astuto. Quem tencionar desafiá-lo, só conseguirá fortalecê-lo.

Confessando a minha ignorância no assunto, eu disse:

– Não compreendo.

Despejando ironia em meu rosto, ela exclamou:

– Por que não estou surpresa?! Tentarei explicar… O poder das fadas do mar tem origem em uma pérola que é formada antes mesmo das fadas nascerem. A magia da pérola, além de favorecer o nascimento de uma fada, serve como um imã que atrai mais e mais poder. Dentro da concha, em contato com sua fada-guardiã, a pérola transforma-se em um instrumento poderoso que, além de fortalecê-la em relação à magia, pode mostrar-lhe tudo o que acontece no mundo exterior. A pérola, uma vez roubada, perde esse poder e adquire outro: ela confere, ao seu possuidor, o “dom” de roubar qualquer objeto mágico que seja usado contra ele. Consegue perceber em que enrascada nós estamos? Se você usar o anel para tirar-nos daqui, indiretamente estará usando a magia do anel contra Derlo. Consequentemente, só o que conseguirá fazer será entregar-lhe o anel, e eu continuarei presa aguardando um próximo otário.

Aventurei-me a perguntar:

– O que aconteceria se eu colocasse a sua concha em meu bolso e saísse daqui do mesmo modo que entrei: sem magia?

A fadinha respondeu condescendente:

– Apesar de ignorante, você é corajoso e bem-intencionado. Este lugar tem magia; mas não é o tipo de magia ao qual você, o seu amigo e eu estamos acostumados. Assim que tentássemos sair, eu como fada e você como humano, a entrada deixaria de existir, e nós ficaríamos presos para sempre. Ouça, se continuarmos conversando, começaremos a girar em círculos. Você é bom, e eu já ocupei muito do seu tempo. Facilitarei as coisas para terminarmos logo com este assunto que rouba o pouco de energia que ainda me resta. Você tem duas opções: ou me beija e me leva com você, ou vai embora sozinho enquanto ainda pode. Se aceitar beijar-me, devo preveni-lo de que o beijo de uma fada é muito poderoso e pode causar o esquecimento. Compreende o que digo?!… Se você ama alguém, poderá esquecê-la no mesmo instante em que os seus lábios tocarem o meu rosto. Está disposto a correr o risco de esquecer Crisélia?

Surpreso, perguntei:

– Como descobriu sobre Crisélia?!… Você a conhece?!

Ela exclamou revestindo-se de sua costumeira intolerância:

– Não, ignorante! Esqueceu-se de que sou uma fada?! Posso ler os seus pensamentos e o seu coração.

Aproveitei-me de suas palavras para dizer:

– Se consegue mesmo ler o que se passa na minha mente e no meu coração, deveria saber que amo Crisélia e não desejo esquecê-la. Por outro lado, virar as costas e sair daqui, deixando-a a mercê daquele gênio, seria um eterno tormento para a minha consciência. Agora é você quem terá que me ouvir: se espera que eu sacrifique o meu amor por Crisélia pela sua liberdade, ao menos comece a respeitar-me e pare de me chamar de ignorante. Eu tenho nome: Felizardo.

Entre agradecida e envergonhada, a fadinha disse:

– Desculpe-me. O meu nome é Eleomar. Eu estarei pronta quando você estiver. Obrigada.

Pensei em Crisélia antes de segurar a concha e beijar Eleomar. Devolvi a concha no fundo do lago e, no momento seguinte, uma jovem lindíssima surgia bem diante dos meus olhos. Eu parecia hipnotizado. Ela despertou-me do encantamento quando disse:

– Precisamos sair daqui o quanto antes. Agora que sou humana, a esfera poderá transportar-me.

Eleomar segurava sua concha cuidadosamente com ambas as mãos. Toquei o interior da esfera, e ela se fechou para conduzir-nos em segurança à superfície. Subimos a escada e atravessamos a porta sem encontrar a menor resistência. Fechei a porta e a cobri com areia. Depois, arrastei o barco sobre ela, para que a entrada ficasse bem escondida. Olhei à minha volta e percebi que Eleomar havia se distanciado. Localizei-a sentada na areia úmida, contemplando as ondas. Ela comentou:

– Esta é a primeira vez que vejo o mar sem estar dentro dele. É um espetáculo fascinante! Se não fosse por você, eu não estaria aqui. Responda-me: o que faremos agora?

Sentando-me ao seu lado, respondi:

– Eu esperava que você me dissesse.

Ela olhou para mim e sorriu antes de sugerir:

– Vamos nadar? Eu posso ensinar-lhe.

Eu disse:

– Não, obrigado. Vá você. Mas, por favor, não se afaste muito e não demore.

Já havia anoitecido, e a praia estava deserta. Enquanto eu esperava por Eleomar, deite-me na areia e fechei os olhos. Pensei em Crisélia e agradeci ao meu fiel coração por não tê-la esquecido. Nem mesmo a beleza deslumbrante de Eleomar fora capaz de realizar tal proeza. Abri os olhos e contemplei as estrelas. Aquilo não era vida! E se eu nunca encontrasse a Fonte da Juventude?!… Não seria melhor viver como mortal ao lado de Crisélia do que nunca ter vivido ao seu lado?!… Fechei novamente os olhos e tornei a abri-los no momento em que segurei a mão que começou a acariciar o meu rosto. Exclamei:

– Pare com isso, Eleomar, não tem graça!

Soltei a mão e sentei-me. Foi só então que pude ver que era Crisélia e não Eleomar quem acariciara o meu rosto. Alegremente surpreso, eu a ouvi exclamar:

– Seu tolo! Que ideia foi aquela de beijar uma fada?! Se ela não estivesse enfraquecida por estar longe de sua pérola, você poderia ter ficado enfeitiçado para sempre!

Eu quis fazer um gracejo quando disse:

– E quem garante que eu não esteja? Por que você não me beija para quebrar o encanto?

Os nossos lábios já estavam quase se tocando quando ouvimos Eleomar gritando entusiasmada:

– Felizardo, Felizardo! Veja só quem eu encontrei!

Eleomar estava tão feliz que eu nem tive a oportunidade de apresentar-lhe Crisélia. Aproximando-se de mim, ela agachou para mostrar-me uma concha. Perguntei:

– Está vazia?

Procurando controlar sua impaciência, ela exclamou:

– Se estivesse vazia, eu não estaria tão feliz! É a concha de Osmar! Ele tem estado à minha procura durante todos esses meses. Quem é ela?… Crisélia!

Ela mesma perguntou e ela mesma respondeu. Eleomar não cabia em si de felicidade e abriu a concha para que pudéssemos conhecer seu namorado. Ele disse:

– É um prazer conhecer o homem que salvou Eleomar. Você a salvou duas vezes, porque além de tirá-la daquela prisão; ao torná-la mortal, evitou que ela morresse de fraqueza por estar afastada de sua pérola. Se estiver apaixonado por ela, serei obrigado a respeitar a sua decisão de…

Foi Crisélia quem o interrompeu para dizer:

– Não se preocupe; não existe nenhum compromisso entre os dois, porque ele está comprometido comigo.

Eu sorri e afirmei:

– Não existe verdade maior. Agora só precisamos pensar num modo de reverter essa situação.

Dirigindo-me a Eleomar, perguntei:

– Se você o beijasse, ele se tornaria humano?

Eleomar disse indecisa:

– Talvez. Mas será essa a melhor solução?

Crisélia perguntou:

– E há outra no momento?

O namorado de Eleomar consentiu, e ela o beijou. Ele se tornou humano, e os dois se abraçaram demoradamente. Aproveitando-se do alheamento dos dois, Crisélia perguntou-me carinhosamente:

– Onde estávamos?

Eu sorri e a beijei.

Quando o beijo terminou, perguntei:

– Como adivinhou que eu estava precisando de sua ajuda em relação a Eleomar?

Ela respondeu:

– Durante esses sete longos meses que ficamos separados, eu não o perdi de vista. Por que não me conta sobre Sílvia?… Ela é bonita e insistente!

Desejando mudar de assunto, comentei encabulado:

– Esses dois adjetivos resumem tudo: você já a conhece muito bem. Ouça, Crisélia, eu gostaria de lhe pedir…

Ela interrompeu-me quando afirmou:

– Osmar e Eleomar ficarão hospedados em minha árvore. Não se preocupe. Agora use o anel: vá para casa e descanse. Amanhã discutiremos o assunto.

Não perca o 6º Capítulo da 3ª Parte da história “Realidade Mágica” – livro 1 (Encontros e Reencontros), na próxima 5ª feira, dia 11/07/13.

Até breve.
Sisi Marques

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Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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