REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 3 – ENCONTROS E REENCONTROS (Capítulo I)

Naquela gelada manhã de sábado, eu acordei cedo e fui à biblioteca realizar o meu ofício: contar histórias. A sala destinada a esses encontros era pequena e comportava cerca de trinta pessoas. Eu imaginei que estivesse vazia; quem seria o louco de levantar cedo com aquele frio para ficar sentado durante uma hora me ouvindo? Entretanto, ao entrar, tive uma agradável surpresa: a sala estava lotada. Sorri, apresentei-me e comecei a narrar a primeira história.

Ocasionalmente o meu olhar se fixava em algum rosto para que eu pudesse verificar o efeito que minhas palavras provocavam no auditório e, após alguns minutos, pude notar algo que me deixou perplexo e prejudicou muitíssimo a minha concentração. Havia homens, mulheres e crianças como sempre, mas eu tropeçava na linha de pensamentos quando a terrível e constante pergunta aflorava em meu cérebro: “Como eles podem ter os rostos tão parecidos?!” Eu olhava para cada um deles e reconhecia sempre os mesmos traços. O tempo parecia haver parado, e eu começava a impacientar-me. O horário, de acordo com o meu contrato, teria que ser fielmente cumprido; e eu comecei a contar os segundos até que, finalmente, a secretária apareceu à porta avisando que a sessão estava encerrada. Eu, que sempre odiei essa sua atitude inoportuna porque costumava interromper a última história, senti vontade de beijá-la em agradecimento por livrar-me daquela situação tão perturbadora.

Enquanto a sala se esvaziava rapidamente, pensei em sair para tomar um café antes da próxima sessão. Eu já caminhava em direção à porta quando um homem, a última pessoa que restara na sala, parecendo adivinhar o meu pensamento, aproximou-se para dizer:

– É sempre um prazer ouvir suas histórias. Posso acompanhá-lo para ajudá-lo a preencher o tempo até a próxima sessão?

Naquele instante, um mal-estar repentino apoderou-se de mim, e eu não conseguia encontrar uma boa desculpa para livrar-me do embaraço. Em outra circunstância, eu teria apreciado muitíssimo a companhia, mas após ter contemplado as feições daquele rosto em várias pessoas durante uma hora inteirinha, eu não tinha estômago para continuar olhando para ele. Algo estava errado, e eu receava descobrir o que era.

Após alguns segundos de hesitação, agradeci o cumprimento e recusei a companhia, alegando indisposição. Saí da sala e atravessei o imenso corredor que dava para a sala da secretária. Quando me viu entrar, ela comentou:

– Está tão pálido, Fê! Aceita uma xícara de café?

Ao sentir-me livre da indesejável presença daquele homem que ousou acompanhar-me até a porta da sala de Sílvia, eu comecei a melhorar e aceitei prazerosamente o café.

Despejando-o na xícara, ela perguntou:

– Se estava tão indisposto, por que não dispensou o sujeito? Eu nunca vi tanta dedicação! Desperdiçar o seu repertório e o seu charme com aquele sujeito mal-encarado é demais! Depois, quando eu o convido para jantar em minha casa e deliciar-me com suas histórias, você diz que não gosta de ter apenas um ouvinte. Confesse: você não me acha atraente e é por esse motivo que evita a minha companhia.

Exclamei contrariado:

– Por favor, Sílvia, não recomece! Só vim aqui para livrar-me do tal sujeito. Eu não poderia permitir que ele me acompanhasse à confeitaria. E por que insiste em dizer que a sala estava vazia?!… Você mesma viu que estava cheia.

Sílvia comentou:

– Pessoas e seres imaginários que povoam suas histórias não contam. Não se preocupe: o problema não é você e sim esse frio horroroso! Até mesmo a palestra foi cancelada porque só havia duas pessoas interessadas. Responda-me: se eu fosse um personagem de uma de suas histórias, você se apaixonaria por mim?

Impaciente, exclamei:

– Ora, Sílvia, não me aborreça! Não fica bem você ficar se insinuando dessa forma. Gosto de você e aprecio a sua amizade, mas é só isso.

As palavras de Sílvia deixavam transparecer a mágoa que sentia:

– Eu estou apaixonada, e você me despreza! Prometa que me convidará para sair qualquer dia desses. Eu quero ser sua namorada e não acredito nessa história de que o seu coração já pertence à outra.Você nunca foi visto com uma garota! A propósito, conseguiu o emprego na confeitaria?

Respondi:

– Sim. Serei convidado sempre que houver algum evento.

Senti-me constrangido ao ouvi-la dizer:

– Fico feliz por você. Por que não dá uma chance a nós dois?

A história sempre se repetia quando eu ia à sala de Sílvia. Eu precisava revestir-me de paciência para não magoá-la. Respondi ternamente:

– Não posso. É muito complicado para explicar.

Ela exclamou:

– Não subestime a minha inteligência!… Fê, você passa muito tempo sozinho, e isso não é saudável. Precisa sair, distrair-se um pouco e arrumar uma namorada. Bem à sua frente, está a primeira candidata; veja se aprova…

Sílvia aproximava-se para beijar-me quando eu ouvi aquele mesmo sujeito pigarrear e dizer:

– Desculpem. A porta estava aberta, e eu pensei…

Eu não imaginava o que ele tencionava dizer, mas considerando bastante oportuna a sua chegada, caminhei até a porta e o interrompi para completar a frase por ele:

– Pensou que talvez eu já estivesse bem melhor, e que ainda houvesse tempo para irmos à confeitaria.

Ele demonstrou simpatia ao afirmar:

– Exatamente. Como adivinhou?

Não perca o 2º Capítulo da 3ª Parte da história “Realidade Mágica” – livro 1 (Encontros e Reencontros), na próxima 4ª feira, dia 10/07/13.

Até breve.
Sisi Marques
05/07/2013

Obs.: Antecipei, para 08/07/13, a postagem que estava prevista para 10/07/13.

About Sisi Marques

Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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