REALIDADE MÁGICA-LIVRO1-PARTE 2-O MÁGICO (Capítulos IV, V, VI, VII e VIII)

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 2 – O MÁGICO (CAPÍTULO IV)
Fui para casa e não conseguia dormir. Pareceu-me uma eternidade esperar pelo dia seguinte. Levantei bem cedo e, girando o anel, transportei-me para a árvore de Crisélia. Intrigada, ela comentou:

– Ontem, depois que você saiu, não resisti e fui ao quarto de Anabel para testar a magia do espelho. Ele me mostrava tudo, menos Eliel. Para não acordá-la, resolvi trazer o espelho para a sala. Eu estava disposta a não desistir até conseguir vê-lo. Para a minha surpresa, no momento em que retirei o espelho do quarto, o rosto de Eliel surgiu imediatamente, e eu pude observá-lo como antes. Agora eu tenho certeza: Eliel não criou uma barreira para mim e sim para Anabel. Mas a pergunta é: por que ele a estaria evitando se desejava encontrá-la? Essa é uma pergunta que somente ele poderá responder. Empreste-me o anel para que eu possa ir à casa de Eliel.

Entreguei o anel a Crisélia, e ela desapareceu num piscar de olhos. Sentei e decidi esperar até que retornasse. Não passou tempo algum, e Anabel entrou na sala abraçada a um livro. Surpresa com a minha presença, perguntou:

– Quem é você? Onde está Crisélia?

Para não assustá-la, respondi ternamente:

– Nós já nos conhecemos. Meu nome é Felizardo. Crisélia saiu para fazer compras.

Ela riu antes de comentar:

– Crisélia mentiu para você. Ela não compra nada. Tudo o que ela quer simplesmente aparece. Você também é mágico?

Aventurei-me a dizer:

– Não. Mas conheço alguém que é. Seu nome é Eliel.

Ela exclamou tristemente:

– Eliel! Por que, ao ouvir e repetir esse nome, eu sinto o coração apertado? Ele pode me enfeitiçar?

Respondi sorrindo:

– Ele já a enfeitiçou, e você também conseguiu enfeitiçá-lo. Ele está apaixonado por você e pediu-me para levá-la até ele.

Desconfiada, Anabel exclamou:

– É mentira! Se ele gostasse de mim, estaria aqui. Por que ele não veio?

Lembrei-me do bloquinho de anotações em meu bolso. Eu o abri e li para ela as poucas palavras que Eliel utilizou para compor sua história: “Em muitas florestas, existe sempre uma única árvore, habitada pelo mesmo elfo que chora de saudade.”

Anabel exclamou:

– Eliel!… Agora eu me lembro!… O que houve?!… Onde ele está?!… Por favor, impeça Inocêncio de cortar a árvore de Eliel! Onde está Crisélia?! Ela sempre me protege. Você não pode dizer a ninguém que estou aqui. Eu tenho medo. Onde está Crisélia?

O encantamento inicial deu lugar ao desencanto e eu, sem saber o que fazer, abracei-a para confortá-la. Com a intenção de ajudá-la a esquecer de sua desventura por alguns minutos, sugeri:

– Leia uma história para mim. O seu livro parece muito interessante.

Os olhos de Anabel brilharam quando ela perguntou:

– Você também gosta de contar histórias?

Respondi satisfeito:

– Certamente. Essa é a minha profissão.

Orgulhosa de si mesma, ela comentou:

– Antes eu tinha que memorizar as histórias porque eu não sabia ler e escrever. Depois que Crisélia ensinou-me, passei a fazer anotações e ficou mais fácil lembrá-las. Também comecei a ler muitos livros, e isso aumentou muito o meu repertório. O que me entristece é não ter ninguém a quem contá-las.

Para animá-la, eu disse:

– Pode contá-las para mim.

FIM DO QUARTO CAPÍTULO
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 2 – O MÁGICO (CAPÍTULO V)
Teremos que voltar um pouquinho no tempo até chegarmos no momento em que Eliel e Crisélia se encontraram. Eliel, surpreso com a inesperada visita, abraçou Crisélia dizendo:

– Não imagina o quanto estou feliz em revê-la.

Ela comentou sorrindo:

– Eu também estou felicíssima! Como pudemos ficar tanto tempo separados?! Espero que consiga perdoar-me por tê-lo afastado de Anabel durante todos esses anos. Apesar das aparências, eu não tencionava magoá-los.

Eliel abaixou os olhos, virou-se e caminhou até a janela. Com a voz entrecortada, ele disse:

– Eu já a perdoei. Não sabemos o que teria acontecido a Anabel se você não a tivesse acolhido. O destino poderia não ter sido tão generoso quanto você.

Crisélia não conseguiu mais evitar a pergunta:

– Por que pediu a Felizardo que localizasse Anabel se não tencionava revê-la?

Eliel preferiu não responder, e Crisélia sentia-se cada vez mais e mais desconfortável diante do seu silêncio. Após alguns minutos, com o olhar distante, ele disse:

– Devolva o anel a Felizardo e despeça-se dele por mim. Diga-lhe que a carteira também é um presente.

Logo em seguida, com um sorriso malicioso, ele acrescentou:

– E não se esqueça de dizer a ele que todo aquele ritual ao redor da minha árvore era completamente desnecessário. Eu só queria me divertir um pouco.

FIM DO QUINTO CAPÍTULO
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO1 – PARTE 2 – O MÁGICO (CAPÍTULO VI)
Quando Crisélia retornou à arvore, pediu a Anabel que nos deixasse a sós para que pudesse contar-me sobre o seu encontro com Eliel. Ambos estávamos tristes e decepcionados. Parecia não haver mais nada que pudéssemos fazer. Despedi-me de Crisélia e voltei para casa com o coração pesado e a cabeça estourando de dor. Tomei um analgésico e deitei. Eu não conseguia dormir porque os pensamentos martelavam continuamente. Uma peça daquele quebra-cabeça ainda estava faltando e, sem ela, nada conseguiríamos. Eu precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa. Levantei e, ainda de pijama, girei o anel e imediatamente apareci na casa de Eliel. Decepcionado, ao verificar que ele não estava, girei o anel e fui à sua árvore. Ao notar a minha presença, ele confessou pesaroso:

– Eu omiti parte da história: Anabel não me amava. O irmão dela contou-me que ela fingiu estar apaixonada apenas para se apoderar do líquido que tencionava vender. Eu fiquei desesperado. E ele, indiferente ao meu sofrimento, acrescentou que ela corria risco de vida porque recebera o dinheiro de um comprador e entregara o frasco a outro para obter mais dinheiro. Ele me implorou que lhe desse outro frasco para que o primeiro comprador ficasse satisfeito e desistisse de sua vingança contra Anabel. Ela me enganou o tempo todo. Quando Anabel e Crisélia desapareceram, em parte eu me senti aliviado, porque ela estaria mais segura ao lado de Crisélia do que ao lado daquele sujeito. Crisélia nunca nos separou, porque Anabel jamais teve a intenção de unir-se a mim. Ela não bebeu a água da Fonte da Juventude. Em vez disso, preferiu trocá-la por dinheiro. Agora me responda: Devo me sentir responsável por ela? Devo presenciar o seu envelhecimento e a sua morte?

Procurei interrompê-lo para desfazer o mal-entendido; contudo, ele não permitiu. Pediu-me que o deixasse terminar em nome de nossa amizade. Calei-me, e ele prosseguiu com o seu desabafo:

– Eu bloqueei, bloqueei mesmo a visão do espelho e o acesso à minha árvore. Eu nunca disse à minha irmã que, toda vez que ela me observava, eu percebia porque também conseguia vê-la como se ela estivesse à minha frente. Anabel foi ocupar justamente o quarto com o espelho de Crisélia. Eu não poderia permitir que ela me visse. Eu não queria continuar a vê-la especialmente depois que ela começasse a envelhecer. Não me julgue mal. Preciso contar-lhe outra história: Há muito tempo, apaixonei-me por uma jovem que largou tudo para viver ao meu lado. Eu a amava e, de certo modo, ainda a amo. Quando Angelina morreu em meus braços, embora não existissem mais os traços da mocidade em seu rosto, o mesmo amor que se instalara no início de nosso romance ainda residia em meu coração. Naquele momento, eu jurei que jamais passaria por aquele suplício novamente. Algum tempo depois, tive a felicidade de minha árvore, em uma de suas mudanças, ter fincado as raízes num lugar maravilhoso, próximo à Fonte da Juventude. Não desperdicei a oportunidade e retirei da Fonte o que era permitido: um dedal de ouro do precioso líquido. Do mesmo modo misterioso que o dedal apareceu, ele sumiu no momento em que transferi o seu conteúdo para o pequeno frasco.

Eliel parou de falar e respirou profundamente. Ficou olhando para mim, talvez esperando que eu fizesse algum comentário. Surpreendeu-se quando, de pijama, sugeri:

– Vamos sair para tomar sorvete?

Sem demonstrar entusiasmo, ele disse:

– Você sabe que não precisamos sair para buscar os sorvetes. Que sabor você quer?

Respondi sorrindo:

– Quero um sorvete enorme, de vários sabores, com cobertura de chocolate e muitas cerejas.

Desconfiado, ele perguntou:

– Qual a razão desse seu bom humor tão repentino?

Para fazê-lo sorrir, ensaiei um gracejo:

– Primeiro o sorvete. Ah, e eu quero também um copo de água, por favor.

Dois sorvetes e dois copos de água apareceram sobre a mesinha da sala da árvore num piscar de olhos. Saboreando o meu sorvete feito de magia, exclamei:

– Alegre-se, porque o irmão de Anabel mentiu para você! Ele era o mesmo homem que fingiu estar apaixonado por Crisélia para conseguir o frasco com a água da Fonte da Juventude. Ele era o único interessado em vendê-lo e o único capaz de machucar Anabel. Felizmente, Crisélia estava por perto quando houve um desentendimento entre os dois e conseguiu protegê-la. Quer ouvir a parte melhor?… Anabel o ama verdadeiramente e ingeriu a água da Fonte da Juventude. Se olhar para ela, verá que não parece nem um dia mais velha. Quanto a mim, desde que nos conhecemos, envelheci seis meses.

Até os olhos de Eliel pareciam sorrir. Colocando o sorvete de volta sobre a mesa, ele perguntou:

– O que estamos esperando?!

Eu respondi, fingindo não ter pressa:

– Terminar o meu sorvete. Além disso, preciso me trocar, porque não posso aparecer na árvore de Crisélia com este pijama listrado.

FIM DO SEXTO CAPÍTULO
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 2 – O MÁGICO (CAPÍTULO VII)
Imagine a surpresa que Crisélia e Anabel tiveram quando nos viram chegar. Anabel correu para abraçar Eliel, e ele a beijou. Quando os dois se viram a sós, houve apenas uma pergunta que ele não conseguiu evitar:

– Se o seu irmão era tão desprezível, por que você precisou sair da minha árvore, onde estava segura, para se despedir dele?

Anabel, com a voz embargada pela tristeza que as lembranças causavam, murmurou:

– Eu não tencionava despedir-me. Se ele desconfiasse que eu havia ingerido a água da Fonte da Juventude e pretendia partir com você, ele certamente teria cumprido a ameaça de cortar a sua árvore para vingar-se, privando-o de sua imortalidade. Eu só fui encontrar o meu irmão para ganhar tempo e evitar que ele desconfiasse de nosso romance e de nossos planos.

Eliel abraçou Anabel enquanto dizia:

– Esqueça o passado. Tudo ficará bem agora que nos reencontramos.

FIM DO SÉTIMO CAPÍTULO
Sisi Marques

REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1 – PARTE 2 – O MÁGICO (CAPÍTULO VIII)
O momento da despedida não tardou a chegar. Embora eu admirasse Eliel e estivesse apaixonado por Crisélia, não ousei manifestar o meu desejo de permanecer ao lado deles, porque receava que Eliel não aprovasse o meu romance com Crisélia. Segundo ele, mortalidade e imortalidade formavam uma combinação bastante dolorosa. Entretanto, a esperança de poder algum dia ingerir a água da Fonte da Juventude desabrochou em meu coração, e eu comecei a sonhar com a possibilidade de um reencontro.

FIM DA PARTE 2 (O MÁGICO) DE “REALIDADE MÁGICA – LIVRO 1”.
Sisi Marques
02/07/2013

Obs.: Para evitar que a postagem ficasse muito extensa, o Capítulo III foi postado separadamente.

NÃO PERCA O INÍCIO DA PARTE 3 (ENCONTROS E REENCONTROS), NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA, DIA 05/07/13.

Até breve.

Sisi Marques

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Adoro escrever e amo este blog. As histórias só florescem quando um coração generoso se abre para recebê-las. Quando não há alguém para ouvi-las, elas não desabrocham e morrem na terra do esquecimento. A sua audiência há de transformar este blog num imenso e perfumado jardim. Obrigada.
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